Do escritor ninguém se lembra: vinte anos sem João Antônio. Por Julio Bastoni

João Antônio (Divulgação – Cosac Naify)

João Antônio (Divulgação – Cosac Naify)

Sexta-feira, dia 1º de novembro de 1996. Todos os grandes jornais estampavam a tragédia ocorrida no dia anterior. Um deles, o Jornal do Brasil, expunha em letras garrafais: “Voo 402: todos mortos”. O avião da TAM que fazia a ponte aérea entre São Paulo e Rio caíra logo após a decolagem, matando mais de 100 pessoas, entre passageiros, tripulantes e moradores atingidos. No rodapé, quase escondida, a pequena nota, encimada pelo título “Escritor morreu na própria casa”:

“O corpo do escritor João Antônio foi encontrado ontem, em sua cobertura, em Copacabana, na Zona Sul. O autor de Malagueta, Perus e Bacanaço estava desaparecido desde o dia 9. O mau cheiro no prédio despertou a atenção dos vizinhos, que chamaram a polícia. João Antônio foi achado em sua cama e, segundo a perícia, estava morto há cerca de 20 dias”.

Chamava ainda para a cobertura da página 20, no caderno Cidades, talvez a primeira vez que João Antônio aparecera fora de seu habitat natural, a editoria de cultura. Meia página, quatro textos: “João Antônio é encontrado morto”; “Rio perde o cronista do botequim”; “Euforia na última entrevista”, relato da mesma por Cláudio Cordovil; e, ainda, “Estadista dos humilhados e ofendidos”, pequeno texto-homenagem de Roberto Drummond.

 E só, que a situação estava ruim para malandro.

João Antônio saiu pelas portas dos fundos da vida, num dia de encabulação, como gostava de dizer sobre a data de nascimento de sua principal referência literária, Afonso Henriques de Lima Barreto, uma sexta-feira 13. Sua morte foi o ato final de uma vida atribulada, visceralmente dedicada à literatura e à sua grande paixão: o povo brasileiro.

Parece que intuíra e compora tudo nos mínimos detalhes, até a sua saída de cena. Desaparecido havia vinte dias, não preocupa muita gente até fins do mês de outubro, já que costumava viajar sem dar notícias. Só no dia 31 é que o Jornal do Brasil publica uma pequena nota sobre seu desaparecimento ‒ “Escritor some sem deixar pistas” ‒, e conclamava, na coluna “Informe JB”, assinada por Maurício Dias: “Está na hora de uma mobilização geral para saber o que aconteceu com o escritor João Antônio. Ele saiu de casa em Copacabana, dia 7, de bermuda e chinelos, e desapareceu”.

Divulgação – SESC

Divulgação – SESC

Foi quase um drible. Mas, na verdade, foi a tragédia de um escritor que, cercado de admiradores durante quase toda a sua vida, morrera só e brigado com a mediocridade do país neoliberal da década de 1990, assim como com o meio cultural do período, que o esquecera. Talvez, ainda, como sugeriu Fernando Bonassi um dia, João Antônio pode ter tido “o bom senso de morrer junto com ‘esse local ainda hoje chamado Brasil’, que não é mais aquele em que criou e refletiu” (Fernando Bonassi, “João Antônio está morto”, 2000).

Em seu último livro, Dama do Encantado, publicado meses antes de seu falecimento, há um curto texto, revelador de suas angústias, “Ajuda-me a sofrer”. A tantas, fala que “o escritor é um marginalizado neste tipo de sociedade caótica, desgovernada e incultural. […] Ser reconhecido na rua, para ele, é um milagre. Ele foi editado, citado em jornais e um dia, de algum modo, meteu-se com atividades de seu tempo. O país é agrafo e o brasileiro tem memória curta. Ninguém o convida para mais coisa nenhuma e nem o visita”.

Hamilton Almeida Filho, João Antônio e Paulo Patarra // Foto: CEDAP – UNESP-Assis

Hamilton Almeida Filho, João Antônio e Paulo Patarra // Foto: CEDAP – UNESP-Assis

A solidão é de doer, tanto mais que é a de um homem de infância pobre, passada nas periferias da metrópole paulistana, e que, aos 26 anos de idade, publica um clássico incontornável da literatura brasileira, Malagueta, Perus e Bacanaço, faturando com ele dois Jabutis, de Melhor Livro de Contos e Revelação de Autor, fato sem precedentes na premiação. Publica ainda Leão-de-chácara pela Editora Civilização Brasileira, em 1975, que esgota sucessivamente duas tiragens pouco tempo depois de seu lançamento – foi o auge de seu reconhecimento como escritor. Dedo-duro, de 1982, Abraçado ao meu rancor, de 1986, entre outros, viriam ainda com a chancela de seu forte cartaz na literatura brasileira, sem perder o pique do trabalho literário.

De doer, também, porque participou ativamente do melhor jornalismo feito no país na segunda metade do século XX. Trabalhou na melhor fase do Jornal do Brasil, nos anos 1960. Participou da lendária equipe da revista Realidade, até hoje marco no mercado editorial, sob comando do jornalista Paulo Patarra (este, outro injustamente pouco lembrado). Militou na imprensa alternativa – por ele mesmo alcunhada de “nanica”, como ficou conhecida –, em jornais que enfrentavam vivamente a burrice fardada da ditadura, como O Pasquim, Movimento, Crítica, Ex-, Versus, entre outros. Fez, enfim, do jornalismo trabalho e vocação, trazendo para esse campo, muitas vezes árido, a fecundação da linguagem literária. Tanto isso é verdade que vivia às turras com a grande imprensa, na qual também trabalhou, por ele sempre chamada de omissa, Joana das Regras, empulhadora, que sustenta uma profissão fabricante de “alcoólatras, jogadores, impotentes, solitários empedernidos ou viciados na gula da mesa e do poder” (trecho de “Abraçado ao meu rancor”).

De doer, enfim, porque não se rendeu, como seu Lima Barreto que morrera, pobre e alcoólatra, no subúrbio do Rio, e que só viria a ser lembrado quase meio século depois de sua morte.

Foto: Elvira Alencar – Jornal Ex-, 1975

Foto: Elvira Alencar – Jornal Ex-, 1975

Sua literatura é um verdadeiro painel da miséria brasileira na segunda metade do século XX. De Malagueta, Perus e Bacanaço a Dama do Encantado, o Brasil que João Antônio conta é o das classes subalternas, do pequeno trabalhador e do marginalizado urbano, cuja redenção viria apenas por uma força intrínseca à sua criatividade, resiliência e originalidade, sempre ressaltadas pelo escritor. Ou, então, pela finura e nobreza de tipos como Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Aracy de Almeida, Lima Barreto, Machado de Assis, entre outros representantes de nosso panteão cultural.

No entanto, se em Malagueta, Perus e Bacanaço a vida da marginalidade urbana ainda aparece, de algum modo, dourada por uma simpatia evidente do narrador, a partir de Abraçado ao meu rancor, livro de 1986, a situação passa a mudar de figura. O povo, que sempre fora seu companheiro de percurso, tema e fonte de sua produção e linguagem, João Antônio não mais o reconhece. A cidade de São Paulo, cujos trajetos são percorridos pelos três vagabundos de seu conto mais famoso, agora parece ter mudado em uma forma alheia ao caminhar, à contemplação. Não se sente mais à vontade: mudaram as gentes, mudara a cidade, mudara o país, mudara, enfim, o escritor: “Desaprendi a pobreza dos pobres e dos merdunchos. E já, creio, aprendi a pobreza envergonhada da classe média. Os tempos, outros. Provavelmente não fazem mais aqui seus lanches os pintores, os atores, os vagabundos. Essa gente morreu e a cidade ficou outra” (“Abraçado ao meu rancor”). Uma “estética do rancor”, como bem o chamou o crítico João Luís Lafetá, marca essa derradeira coletânea de contos inéditos.

Algo se perdera no país, matéria principal com a qual João Antônio argamassava seus contos. Talvez não seja por acaso que tenha escrito tão pouca ficção em seus últimos dez anos de vida, preferindo a crônica e o jornalismo cultural. Nesses gêneros, poderia dar livremente vazão a suas opiniões e posturas, sem ter, necessariamente, que repetir temas e formas. Poderia ser, a seu modo, a busca de uma nova linguagem, que não encontrou, já tendo atingido em livros anteriores, como Malhação do Judas Carioca, de 1975, e Casa de Loucos, de 1976, a mestria na integração entre literatura e jornalismo.

João Antônio, porém, de certo modo permanece o mesmo, desencantado com o país, mas crente em suas possibilidades, ainda que ocultas sob os novos tempos:

“Meu irmão, aí distante, venha me visitar. Mas venha armado, coberto, como se diz aqui. As ruas como a praça estão ruins e pequenas para assaltantes e assaltados se mexendo na multidão de camelôs, mafuás e empregados avulsos dos contrabandistas poderosos e famosos, conhecidos da Polícia Federal e de todas as polícias e, claro, impunes. Impunes e permitidos. Também há os justiceiros a serviço de não se sabe quem, há represálias, correrias, gritos, caçadas policiais. E novos espancamentos de menores. Enfim, rua copacabanense é lugar de tumulto, e o que nos resta de humor sobrevive, nada roto, na estética do horror, do estremeção e do medo. Estes lados vão vivendo um tempo de inchaço, escopeta, sangue e miserê, tempo assustado, feio e ladrão”.

Arquivo O Globo

Arquivo O Globo

A produção de João Antônio é de uma atualidade desconcertante. O que falta, porém, ao círculo das lamentações cotidianas, que todos os dias vemos em jornais, redes sociais e nos bate-papos no que sobrou dos botequins, é a crença na vida e no povo brasileiro, algo que, de modo oblíquo ou não, João Antônio nunca deixou de expressar:

“Mas venha nos visitar, irmão. Porque, mesmo encrencados, é só surgir o sol e banhar nossos corpos, somos capazes de uma alegria de viver ainda única no planeta Terra. Valemos pela nossa alegria. Venha, é primavera. E o sol não demora a voltar” (“Falta o Ministério da Vergonha”, Semanário, 14 jan. 1991).

Não sabemos ao certo como foi o final da vida de João Antônio. Mais recluso, ainda colaborava na imprensa, inclusive em grandes jornais, como o Jornal do Brasil e o Tribuna da Imprensa, no qual escreveu até sua morte. Ficou, no entanto, um grande silêncio no que toca à sua produção literária, talvez sintoma de uma ausência de perspectivas que não superara, desde fins da década anterior. Digamos, modesta hipótese, que o país não era mais o mesmo, que a redemocratização, pela qual sua geração brigara ferozmente, tenha sido traída, e que a generosidade de suas utopias não tenha encontrado respaldo num cenário de crise permanente, dominado por tecnocratas a soldo das arcaicas elites brasileiras. Mas, bem ou mal, algo ficou, nem que seja o exemplo:

“Se nós não fomos capazes de fazer uma reforma agrária, se deixamos que a nossa pólis inchasse, se permitimos que o Rio de Janeiro tivesse mais de 300 favelas, não venham os senhores economistas dizer que esse povo é incompetente. Incompetentes são eles” (“A arte tem dívida com a realidade”, entrevista a Cláudio Cordovil, Jornal do Brasil, 8 jun. 1996).

João Antônio morreu só e a culpa é nossa. Sua literatura é o retrato descarnado de um país que insiste em não dar certo, a despeito de seu enorme potencial. Nesses vinte anos de morte, cabe lembrar de um escritor cuja intransigência em relação ao valor da arte literária e da necessidade de olharmos nossa realidade se fazem mais que nunca necessários. Seu esquecimento nada mais é que a mania bem brasileira, bem nossa, de não valorizarmos uma produção que olhe para os nossos problemas, invariavelmente tachada como populista, neonaturalista ou coisa que o valha. Diante das mil e uma novidades que a classe média bate bumbo, esquecendo que vive num país em que a leitura ‒ como a moradia, a alimentação, a saúde e a educação ‒, ainda é privilégio de poucos, lembrar a produção de João Antônio é dever, mais que apenas gosto literário. Seu único respeito era pelo povo ‒ e pelo texto. E isso é algo que nós temos de valorizar.

★★★

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