Santiago Santos: De Regar Planta com Cuspe

unnamed

Dona que deu. Disse que não queria mais porque já nem lembrava que tinha. Sobra pra lá dos dedo, mas nada. Me sinto rainha. Vi uma outra no ônibus olhando pra elas. Sabia que eu não tinha comprado. Dona faz isso sem saber, me veste de modelo de coleção passada, eu feliz de ter coleção pra mostrar. E quem não tem.

Dona também me dá sobrecoxa de frango. Quando sobra da terceira requentada. Requento com óleo, como com pão que ela dá também, de fôrma, tirando bolorinho, não deixo jogar nada fora, assim, sem eu ver. Como assistindo TV. Dona parcelou pra mim no cartão, desconta de vale no salário. Meu neto Lérinho tá no Pomeri. Fico com medo dele sair e entrar aqui quando eu tiver no serviço e vender a TV pra comprar droga. Lérinho é bom, eu sei porque eu criei. Mas se mete na rua com esses sem-vergonha, foge da escola, cabeça de guri é fraca. Deus, salva o meu Lérinho.

Pai dele, meu mais velho, até tenta, mas o guri sofreu demais. Na mão da mãe, quando foi morar com ela no Espírito Santo. Nem um ano e estragou dum tanto. Queimava o guri com colher quente se ele não fazia tarefa, se malcriava em casa. Ferro e brasa. Pai dele buscou, depositou nos meus braço, eu confortava nas primeiras noite, ele gritava, gritava. Deus, lembra do meu Lérinho quando ele tiver sozinho. Ele nunca vai tá porque tem Você, mas ele ainda não sabe.

Dona tá brava. Que eu perco horário. Perco pra visitar Lérinho no Pomeri, levo folha, fruta, chinelo. Dona dá vale mas quer que eu chegue e saia no horário. Dona é boa pra mim. O mundo é desgracento, pobre precisa de dona. Doutor aparece no bairro, promete asfalto, ônibus, tijolo pra reforma. Passa eleição, cabou. Quem votou, rodou. Sobra as dona. Maria tem salão, faz o dela, não quer depender. Mas eu aprendi que o que a gente ganha faxinando não dá pra viver. Não dá pra roupa, pra comida, pra óculo de grau. Fazer outra coisa, não presto.

Dos catorze irmãos, dois me seguiu. Vieram pra cá, descendo o país até o meio. Um tá no interior, peão de fazenda. Outro armou boteco. Já roubaram duas vezes esse ano. Renderam, meteram a mão no caixa, distribuíram bolacha e carregaram tudo no carro dele. Que não tá quitado. Ele vem me visitar, mas ônibus demora, às vezes domingo, pendura uma caixinha de skol no mercadinho, faço galinhada, mas só se não tenho diária no Manso. Domingo é dia bom, muita dona reúne os amigo e a família, e é bom ter quem ajuda a cozinhar, lavar louça, passar pano, varrer, levar o que sobra pra não culpar de jogar fora.

Asfaltaram o bairro esse ano. Meu terreno é torto, não tem mureta, ergueram a rua. Agora chuva é igual encrenca. A mesa tá molenga. O fogão enferrujado. O colchão manchado. Se tudo der certo compro um armário no próximo vale. Que de nada vale. Pra desocupar as cadeira. Lérinho tá pra sair, quero receber. Ter onde sentar pra comer. Maria disse que se eu lavar cabelo pra ela, em duas semana compra outro colchão. Pra ele. Ela cortou meu cabelo. Pintou, que já tá branquinho. Todo enroladinho. Lembro de painho, ele fazia cadeira. Quero uma de fio igual pra deixar na frente da TV. Depois que Lérinho sair, se tudo der certo, e o gasto for modesto, daqui alguns vales compro a cadeira. Se dona e Deus permitir, que a fé eu já tenho.

santiago santos

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

[Este drop é inspirado na prosa ritmada, rimada, realista de doer e pungente de Marcelino Freire.]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s