Aline Bei: nada pra dar

Edward Hopper: Night Windows, 1928

Edward Hopper: Night Windows, 1928

você mora aqui? – ela perguntou, a mão solta percorria a parede sentindo o gesso.
não, esse apartamento é da minha tia. mas ela também não mora aqui, só usa pra guardar umas coisas velhas tipo aquele fogão. ou esses casacos de inverno, (ele abriu o armário pra mostrar) aí ela me empresta o apê quando eu preciso.
– pra trazer suas namoradas?
isso – ele respondeu, alcançando a boca dela com a língua.

na sala
não tinha nada além de um colchão de casal
transbordando peles.
o apartamento
tinha vista pro pátio de outros apartamentos
um redemoinho de janelas
claustrofóbico demais, ela pensou lembrando da sua casa sem nenhum vizinho além do mato.
ela estava quase
arrependida do encontro
olhando aquele apartamento
que servia de depósito também pro amor, apesar que aquilo deles dois juntos não era exatamente amor. era curiosidade, quem sabe. na época ela tinha certeza que era paixão.
ele levantou por trás o vestido dela. viu a calcinha minúscula na bunda lotada de celulite. quando se lembrou dos furos
ela virou rápida de frente pra ele, a bunda ficou pra janela, o moço do quinto andar até engasgou o frango

aquilo é uma Bunda? ele perguntou pra si mesmo,
estava um pouco longe e escuro
fora que fazia tempo que sujeito não via uma carne daquelas.

não dá pra demorar muito porque eu não posso faltar na minha segunda aula, tá? ele disse depois mordeu
a orelha dela,
doeu.

ficaram nus a barriga estufada que ele tinha de cerveja
junto com uns pelos esquecidos no umbigo
e uma marca de sol no braço, parecia que a camiseta ainda estava lá. tão humano aquele homem
o cheiro dele lembrava queijo
e nenhuma música pra embalar os movimentos, ela cantava nick cave de dentro da cabeça quando uma nota

escapou.

ela Gelou.
sentiu uma vergonha terrível
por estar cantando naquele momento de sexo
foi o jeito que ela encontrou de fugir delicadamente até pra ela mesma que ainda não tinha percebido que estava fugindo de alguma coisa
tampouco ele notou a nota escapada
imerso como estava em qualquer coisa que não era ela.
apressado
ele colocou a camisinha e
enfiou o pau. no primeiro contato ele soltou um grito,
depois entrou num ritmo controlado até que
gozou: dormiu
em cima dela que não reclamou, deixou doer.
pensou:

-não era isso que eu queria? o encontro dos nossos corpos?

(mas eu não imaginava que ia ser tão frio.
dirá uma voz no futuro
que nasceu ali
naquela pergunta: não era isso que eu queria?)
ele acordou.
quis meter de novo, agora por trás. colocou outra camisinha e bombou dentro dela que não sentia nada além do atrito do plástico com o pelo.
se eu engravidasse desse dia meu filho nasceria morto. – ela pensou.
se achou maluca
por ter pensado isso
justamente estando com o homem que ela mais queria estar nesses últimos meses.
ele olhou pro relógio.
disse:

– é melhor irmos.

e foi pro banheiro
como um sinal de que ela deveria fazer o mesmo, se apressar.
ela virou pra janela e
acendeu um cigarro.

(o moço do quinto andar ficou atento, meu deus agora peitos? )

quando ele voltou do banheiro ela já tinha colocado o vestido
já estava com a bolsa nos ombros
o coque na cabeça
esperando.
no carro eles mal falaram do que aconteceu e o que aconteceu parecia tão distante,
parecia que tinha acontecido há anos.
ele estacionou
não muito perto da faculdade pra fugir dos flanelinhas.
eles precisaram caminhar um pouco até o prédio onde estudavam seus cursos que não eram os mesmos.
o ar fresco da noite deixava um pouco mais leve aquilo de cada um no seu canto da calçada. eles eram 2 estranhos,
pior ainda do que antes do sexo, antes do sexo existia a
Expectativa,
agora eles só queriam ir embora um do outro voltar
pros seus mundos
mas o vento deixava isso tão pequeno, um probleminha de amor que nem amor era no meio da imensidão das galáxias, das pessoas morrendo
de tiro.
no tchau
ele tentou levantá-la do chão com os braços,
ela
era mais pesada do que ele imaginou.
se beijaram na bochecha protocolares
ela triste por ter se enganado tanto
ele pensando que queria chegar antes da chamada
e tudo o que respirava naquela rua continuou intocável, respirando

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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