Em ‘Receita para se fazer um monstro’, com narrativa curta e seca, Mário Rodrigues cria personagem infantil que, no limiar da crueldade e da violência, questiona os limites da empatia e da antipatia

unnamedO protagonista de “Receita para se fazer um monstro” é um menino sem nome que se define como um mandacaru (“Tenho só espinhos e um deserto à minha volta”), cujas traquinagens infantis extrapolam para uma violência latente, que explode ao longo da narrativa. Mas, ao mesmo tempo, ele demonstra, mesmo que em atos de vingança, um certo sentido de justiça, ainda que torto. E até uma carência, que pode redimi-lo das maldades, aos olhos do leitor. Ou não. Está na força desse personagem, segundo o seu autor, Mário Rodrigues, o grande mérito do livro e que o fez vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2016, na categoria Contos.

“O protagonista de ‘Receita para se fazer um monstro’ tem um poder carismático torto que dialoga com o leitor, porque questiona mesmo os limites da empatia e da antipatia. Se, por um lado, há em certos contos um asco latente por suas atitudes e sua fala, em outras histórias brota a nossa condescendência. E ainda em outras nos reconhecemos quase como num espelho”, diz o autor, em entrevista para o blog da Record.

Com textos curtos e uma narrativa seca, com referências ao universo pop dos anos 80, Mário Rodrigues transpõe para a linguagem a crueldade do seu principal personagem, na forma como ele quebra algumas frases (“como se quebrasse dentes ou narizes de meninos rivais”) e escolhe a pontuação. “O protagonista só usa ponto (porque lembra tiro), travessão (porque lembra facada) e dois-pontos (porque lembra tiro de cano duplo)”, diz o autor.

Professor de literatura e escritor, o pernambucano de Garanhus celebra o fato de o prêmio este ano ter sido vencido por dois escritores do Nordeste (o baiano Franklin Martins ganhou na categoria Romance com “Céus e terra”) e, no ano passado, por duas mulheres. Mas ressalta a qualidade literária das obras. “Para além das obras vitoriosas, o prêmio geralmente descobre projetos literários, escritores mesmo na acepção profunda da palavra. Fico feliz que essas coincidências aconteçam. Duas mulheres, dois nordestinos… Ano que vem dois negros, etc… Mais do que privilegiar essas vozes, acredito que é forma de mapear uma produção qualitativa que vem sendo feita de maneira discreta e que merece ser percebida. Julgo também haver um certo cansaço de uma literatura autorreferente por si só, logo a busca por novas experiências literárias se impõe.”

Mário Rodrigues nasceu em Garanhuns, Pernambuco, em 1977. É professor de literatura, português e redação. Edita o jornal u-Carbureto e mantém o blog de críticas literárias Na estante de Mário.

O livro chega às livrarias em novembro, pela Record, que edita, todos os anos, as obras vencedoras do Prêmio Sesc de Literatura.

TRECHOS

“Mas sou um mandacaru. Porém sem a essência interna – água pro sedento. Sem a flor externa – a beleza pro olhar. Tenho só espinhos e o deserto à minha volta. Ferimentos e solidões. Sempre escolhi o pior caminho. A parte ruim. Aquela que ninguém quer. Mas todos ao redor morrem secos e eu – como o mandacaru – vicejo.”

“Eu me sentava nas cadeiras de ferros entrelaçados da área de casa com o pé pra cima. Olhava os moleques correndo e eu ali: aleijado. Mas era um treino apenas. Aprendi a conviver com a dor. A não me descuidar. A não confiar na boa vontade de ninguém. A esperar o momento certo pra pisar. E aprendi que vivemos cercados por escuridão e que dentro de nós há uma vermelhidão indomável. Aquele corte fora a primeira vez – mas não a última – que eu espalharia sangue sobre o mundo.”

“Não abreviei o sofrimento dele. Me lembro de seu último olhar: um olhar perdido que observava o sol que se punha na moldura formada pela janela do quarto. E o olho dele brilhou: era sua última alegria. Fechei a janela e puxei as cortinas. Ele merecia enfrentar o fim sozinho e sem paliativos. Ele não merecia o pôr do sol.”

“Nunca gostei das frescuras das vírgulas e das reticências e afins. Só gosto do travessão porque lembra uma facada. E do ponto porque lembra um tiro. E dos dois-pontos porque lembram um cano duplo.”

ORELHA

A infância já foi vista pelos filósofos como um estado primitivo que ameaça a construção racional da civilização. “A criança é, de todos os animais, o mais intratável”, escreveu Platão. Com a infância não se brinca. Nessa zona obscura e amedrontadora, predominam as paixões, os desejos inconfessáveis, a natureza humana em grau máximo de transparência, em insolente desajuste com o mundo que a cerca. É dessa espécie de perversidade que tratam os contos de Receita para se fazer um monstro, volume de estreia do pernambucano Mário Rodrigues. Curtos e impactantes, conduzidos com seca objetividade por um narrador cruel e desabusado, os relatos giram em torno de experiências infantis, de relações familiares, dos violentos aprendizados que compõem o tecido de nossa vida. Admiravelmente estruturado, o conjunto das narrativas produz o efeito de uma obsessão. Para o leitor, trata-se de uma sequência de sobressaltos, de inquietantes revelações. “Aprendi com meu filho de dez anos”, dizem os versos famosos de Oswald de Andrade, “que a poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi”. Pois chegou a hora da surpresa e da ousadia contra todas as convenções: hora de aguçar os olhos, os sentidos e a reflexão.

Ivan Marques

 

QUARTA CAPA

Com esta Receita para se fazer um monstro, Mário Rodrigues estreia não apenas com um título que chama a atenção, mas com um livro que faz jus ao seu nome. Não se vai encontrar aqui um arranjo de contos-ilha, mas um continente ficcional centrado num personagem complexo, que narra as suas memórias inteiramente alagado de secura. Não apenas a casca atraente do fruto de uma família, mas o fruto com todo o seu sumo de amargo entendimento. Não uma obra personalista, mas obra de um autor que revela sólida personalidade. Não o lenho verde, mas a tora que se destaca entre gravetos literários. Não a narrativa do estardalhaço, mas aquela que deixa, silenciosamente, vergões na sensibilidade do leitor. Não apenas rasgos de um estilo próprio, mas também reminiscências de fissuras (humanas) que resultam em literatura poderosa. Não o bicho que irrita os demais para se agradar, mas o animal bruto que assume todos os riscos para se alijar das outras criaturas. Não a autopiedade que usamos para nos defender do mundo, mas a perversidade que o mundo, sem alarde, nos atira no rosto. Não uma coletânea de contos que afaga, mas uma que lacera.

João Anzanello Carrascoza

 

Leia abaixo uma entrevista com o autor. Parceria Grupo Editorial Record e Livre Opinião – Ideias em Debate

Por Cláudia Lamego

Você já tinha sido finalista do Prêmio Sesc antes e já teve outros livros publicados. O que você acha que tem de especial em “Receita para se fazer um monstro”?

Toda boa literatura, pra mim, é sustentada por um tripé: Personagem, Linguagem e Narrativa. Destes, a minha principal preocupação é o personagem. No meu projeto literário, tudo emana dele – sem bons personagens, não há boa literatura. É ele o sol ao redor do qual todo o arcabouço literário orbita.

O protagonista de “Receita para se fazer um monstro” tem – é esse seu grande mérito – um poder carismático torto que dialoga com o leitor, porque questiona mesmo os limites da empatia e da antipatia. Se, por um lado, há em certos contos um asco latente por suas atitudes e sua fala, em outras histórias brota a nossa condescendência. E ainda em outras nos reconhecemos quase como num espelho.

Essa sensação – que extrapola o momento da leitura, que nos faz carregar, cá dentro, mesmo sem tanta vontade, essa voz esquisita – é uma das forças relevantes do livro. Esse monstro, nosso monstro particular, não facilmente reconhecível, mas que talvez carreguemos, é o especial em “Receita pra se fazer um monstro”.

 O personagem principal desses contos é um menino sem nome que se define como um mandacaru (“Tenho só espinhos e um deserto à minha volta)”, cujas traquinagens infantis extrapolam para uma violência latente, que explode ao longo da narrativa. Mas, ao mesmo tempo, ele demonstra, mesmo que em atos de vingança, um certo sentido de justiça, ainda que torto. E até uma carência, que pode redimi-lo das maldades. Por que falar da infância, que em geral é vista de um jeito meio romântico, desse ponto de vista da crueldade e das agruras?  

Quando adulto, nosso protagonista é “um monstro”, o que dá titulo ao texto. Minha pretensão inicial ao compor esse livro era indagar e refletir sobre a maldade, mas, por óbvio que é, expor a maldade no seu zênite, não me interessaria. Logo, seria ali, na infância, no alicerce da psique, que estaria a receita. Não cabe à narrativa explicar; cabe a ela, apenas, sugerir.

Na infância, ainda sem o filtro social, a ruindade seria transmitida ao personagem de forma tão natural – e assim o foi – que a própria linguagem dele está impregnada dessa crueldade, haja vista a forma como o narrador quebra algumas frases (como se quebrasse dentes ou narizes de meninos rivais), a maneira como a maldade está nele, subcutânea, fica explícita na escolha da pontuação. O protagonista só usa ponto (porque lembra tiro), travessão (porque lembra facada) e dois-pontos (porque lembra tiro de cano duplo).

 A infância é o lugar onde se testam os limites, se vive sem medo e se experimenta. Seu personagem já fez de tudo: maltratou animais, jogou bomba em escola e pimenta no hospital. Na infância dos anos 80, não se usava cinto de segurança nem protetor solar. O que mudou de lá pra cá? 

Especificamente no recorte geográfico onde a história transcorre, o advento das novas tecnologias (internet, redes sociais), somado à violência que invadiu também o interior do país, afugentou das ruas e dos arredores das cidades a possibilidade da infância tal qual nos anos 80. Aquilo que durante certo tempo se classificou como “guri de apartamento” hoje é a regra, mesmo em cidades médias (quiçá pequenas) do interior do Brasil. Uma agenda do que seria politicamente correto também passou a ser defendida de forma proselitista, o que vem de encontro à boa parte das folias infantis.

Por isso, a infância narrada no “Receita para se fazer um monstro” se foi, é passado. Todavia, algo não muda: é na infância que se faz o homem (“Escrevo para ser fiel ao menino que fui”, George Bernanos), portanto mesmo em outro cenário a criança deve ser protegida, ensinada, amada, caso contrário ela se transforma num repositório de mágoas e dor; e, em algum momento, transbordará.

Pelo tema, pela escrita, pelo lugar, seu livro remete muito a Graciliano Ramos, ao mesmo tempo em que as referências pop, como os relógios Champion, a banda Guns ‘n Roses e outras, o situam bem num cenário contemporâneo. Queria que você falasse das suas influências literárias. 

Tenho uma metáfora para a literatura: ela é uma cachoeira. Ela vem não se sabe bem de onde nos acerta a cabeça, nos envolve por completo e segue, continuará seguindo. Ela é anterior e ulterior a nós. Alguns escritores têm esse poder em relação à minha sensibilidade. Dois brasileiros e dois americanos. Graciliano Ramos – não consigo, ainda hoje, sair incólume de sua dicção; o fato de apanhar palavras tão comezinhas e transformá-las na mais alta espécie de literatura feita em língua portuguesa é algo que me comove. Rubem Fonseca – ao mostrar aquela violência, quase como uma profecia, subjacente nos anos 60-70, e ainda dar-lhe uma feição literária é admirável. Cormac McCarthy – o poder de observar, a capacidade de ver além das coisas imediatas. Raymond Carver – a poesia do cotidiano: o boné Sherwin-Williams do personagem diz muito mais do que o corpo afogado do filho. Fascinante.

Em seu blog, você conta que cresceu ouvindo as histórias de seu pai, que toda noite inventava contos de “enredos rocambolescos”. Hoje você dá aulas de literatura, português e redação. Quais os maiores desafios de um professor para estimular o gosto pela literatura, esse que seu pai deixou de herança para você? 

Sinto-me à vontade para falar sobre o estímulo à leitura. Exerço as três funções mais importantes nesse aspecto. Sou pai, sou escritor e sou professor. Há, de modo intrínseco a todos nós, o gosto pela narrativa, o gosto pela poesia. (É clássica a cena: uma professorinha com cinquenta crianças ao redor; um livro é o bastante para enfeitiçar a criançada deixando-as sideradas).  Claro que há outros interesses na vida de um adolescente: namoro, esportes, mídias sociais. É bom que seja assim. A literatura, contudo, não precisa ficar à parte. Ela dialoga com tudo isso.

O pai deve ser um bom leitor, o exemplo basta. O escritor quando opta pelo solipsismo está, é óbvio, excluindo o leitor, logo não há do que reclamar quando não é lido. Mas a literatura é diálogo, e, buscando esse diálogo, ele ocorrerá. Cedo ou tarde. E, finalmente, o professor: é simples, ele não deve atrapalhar o prazer da leitura, só isso. Deve ser o liame.

Exemplo prático: Numa aula sobre “Dom Casmurro” surge, é claro, o clichê: Capitu traiu ou não Bentinho? Mas e se na verdade essa for uma história de amor homoafetivo entre Bentinho e Escobar? Vamos ler o capítulo 56, depois vocês me falem… Pronto: 50 adolescentes lendo Machado de Assis. (Devo essa ao Millôr.)

Por outro lado, você diz que a literatura, no que se refere à crítica, está numa encruzilhada: ora recebe resenhas curtas, apressadas ou feitas pelas editoras para vender, ora é analisada por um viés acadêmico, hermético, que afasta o público. Isso tudo em meio a uma crise dos meios de produção da imprensa, que sempre foram um lugar de excelência para os debates. Qual o caminho? 

Devo dizer que entendo a função dos dois gêneros que cito. Na rapidez do mundo jornalístico, faz-se necessário o release. No mundo acadêmico, incluindo seus jargões e hermetismos, engendram-se teses. OK.

Porém a literatura é mais do que isso. Os cadernos culturais, via de regra, caíram nessa enganação de escreverem análises não para leitores, mas para um nicho específico, nicho autofágico e paralisante, porque pedante. A solução passa por fortalecer ainda mais iniciativas como o jornal literário Rascunho (de Curitiba) e u-Carbureto (interior de Pernambuco). Além disso, a força da internet não pode ser ignorada. Comentadores de livros no Youtube, nos blogs e nas redes sociais são vetores, hoje, importantíssimos para que a literatura circule.

Precisam, em alguns casos, amadurecer? Precisam. Há muita literatura frugal sendo debatida? Há, sem dúvida. Mas existe nessas pessoas, sobretudo nos mais jovens, um amor pelos livros, uma paixão pelos personagens, um desejo por narrativas… Enfim, interesse pela literatura. É essa paixão a razão de ser dos livros. Me atrevo: essa paixão é a própria literatura.

No ano passado, duas mulheres faturaram o Prêmio Sesc de Literatura. Este ano, foram dois nordestinos. Ainda que os trabalhos cheguem anônimos para os julgadores, podemos dizer que há uma tentativa de privilegiar vozes que se identificam, neste caso, nas próprias narrativas, fora dos eixos tradicionais da literatura?

Antes de tudo, devo dizer que a qualidade literária é a responsável pela vitória no Prêmio Sesc de Literatura, exclusivamente. Li o livro da Marta Barcellos (“Antes que seque”): é uma coletânea de contos fortíssima, aquele olhar discreto e percuciente lançado a cada personagem é dificílimo de se reproduzir em literatura, e não é acaso, é talento. Li o livro da Sheyla Smanioto (“ Desesterro”), trabalhar a linguagem e aquela prosódia específica, aventurar-se nessa seara e não ser apenas um pastiche é uma vitória. Também li recentemente dois vencedores do Prêmio Sesc de edições anteriores (Rafael Gallo, “Rebentar”; Alexandre Marques Rodrigues, “Entropia”), são livros fortíssimos, ambos, diria inesquecíveis, atestando que, para além das obras vitoriosas, o prêmio geralmente descobre projetos literários, escritores mesmo na acepção profunda da palavra. Porém, fico feliz que essas coincidências aconteçam. Duas mulheres, dois nordestinos… Ano que vem dois negros, etc… Mais do que privilegiar essas vozes, acredito que é forma de mapear uma produção qualitativa que vem sendo feita de maneira discreta e que merece ser percebida. Julgo também haver um certo cansaço de uma literatura autorreferente por si só, logo a busca por novas experiências literárias se impõe.

★★★

RECEITA PARA SE FAZER UM MONSTRO
Mário Rodrigues
Páginas: 224
Preço: R$ 29,90
Editora: Record / Grupo Editorial Record

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