Santiago Santos: Da Precisa Genialidade de Mesquita Sá

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No último livro de Mesquita Sá, um romance que envolve um triângulo amoroso de traficantes gays na fronteira com a Bolívia, um novo tipo de droga sintetizada a partir da folha de coca (mais uma), um tiroteio épico em Santa Cruz e muitos, muitos monólogos de parágrafos enormes, há uma frase que vem provocando discussões entre seus críticos, discussões que já descambaram, pelo menos uma vez, na última Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México, para a violência, os ares impregnados da tensão de um bombardeio terrorista a poucos quilômetros dali e a doses de tequila e uísque no saguão do hotel, somadas a uma predisposição natural que os intelectuais que vêm do frio, dos países de alta latitude, sentem quando inseridos em localidades quentes, em particular quando há estudantes de graduação e mestrado dadas a sorrisos nas primeiras fileiras, estudantes bastante suscetíveis e abertas a diálogos na sessão de autógrafos que sucede tais mesas de debate, e que não raro se encontram dispostas a estender a conversa em ambientes mais intimistas e gostam de relembrar os melhores momentos daquela discussão, e cada ponto levantado facilita a eventual subida até o quarto de hotel para ser presenteada com uma edição antiga ou outro pretexto qualquer que os intelectuais do campo literário, apesar de sua vasta bagagem de leitura, parecem incapazes de sugerir com a precisão que muitos homens que se vangloriam de não ler uma única linha de literatura possuem.

A frase, que está no penúltimo capítulo do livro, no fim de um parágrafo particularmente longo, quando o triângulo amoroso já foi desfeito e o casal restante luta para conseguir deixar o que se tornou uma zona de guerra, é dita pelo narrador do trecho, o amante dispensado, bêbado, convoluto em seu apartamento depois de destruir os móveis, em uma conversa com seu periquito-verde: “Rochelle podia muito bem entender que tudo o que eu quero pela manhã é um pão com ovo. Não tomo leite, odeio leite.”

Há que se elencar os motivos da confusão: em primeiro lugar, a tal Rochelle não é citada em nenhuma outra parte do livro. A rotina deste narrador, inclusive, é descrita em detalhes, e como ele trabalha durante a madrugada, o que seria seu café da manhã é um café da tarde, e é invariavelmente uma fruta. Em segundo lugar, ele bebe leite, ao menos em três ocasiões da narrativa. Em terceiro lugar, a frase não está inserida de forma natural. A oração anterior, em que ele compara seu estado de espírito a um quadro de Pollock, termina com as palavras “em profusão de arritmias”. Segue o último trecho do parágrafo como foi publicado:

“Sinto que de tudo que me resta fazer antes de entrar no bote de Javier e partir para a Argentina, o mais urgente é tentar falar uma última vez com Franco, fazê-lo entender que o resultado desse embate não há de trazer mais que morte e desgraça para ele e os seus; sinto que, como eu, ele está arrasado com as mortes de quinta-feira, sente o peito desabalado, e é nesses momentos que fazemos as piores decisões, quando nosso julgamento está tão alinhado como um quadro de Pollock, uma profusão de arritmiasRochelle podia muito bem entender que tudo o que eu quero pela manhã é um pão com ovo. Não tomo leite, odeio leite.”

Como se vê, não há espaço entre as orações. Somando a isso a aparente falta de sentido, os muitos leitores de Mesquita Sá concordam que é um erro de revisão. Talvez um trecho cortado de outro ponto do romance, a fala de uma personagem cortada, talvez uma colagem por engano de ainda outro romance ou conto ou nota; não importa.

Já os acadêmicos se dividem. A corrente que defende o mesmo que os leitores é a mais forte. A outra defende que é justamente neste ponto que o narrador, que dava sinais de desequilíbrio cada vez maiores, se vê na posição mais sensível de todo o romance e dá ao leitor o primeiro vislumbre de um distúrbio mais sério, um transtorno de personalidade. Esta corrente também aponta como argumento substancial os planos de Mesquita Sá, divulgados numa entrevista durante a campanha de divulgação do livro, em que disse que seu próximo romance teria como protagonista este mesmo personagem, agora um fugitivo na Argentina, redimido, em busca de paz de espírito, assombrado por seus fantasmas. Para estes, a declaração é a resposta inequívoca do acerto do trecho publicado tal como foi.

Não há uma resposta definitiva e nem haverá. Mesquita Sá morreu semanas depois do lançamento. Sua esposa revelou que o marido proibia a leitura de seus livros antes de publicados, e que até sua morte ela não tinha alcançado o trecho citado e portanto não teve tempo de confrontá-lo. O editor diz que o trecho é intencional, mas o revisor diz que foi inserido depois de sua última revisão, sem que fosse avisado. Até onde se sabe, o escritor não conhecia nenhuma Rochelle.

A discussão tende a continuar, refletindo o espírito aguerrido dos críticos que compraram a briga. “Rochelle” é o nome mais bem cotado para a biografia do escritor, que já foi anunciada, tamanha a repercussão do conflito dentro dos corredores e salões da academia.

Rochelle, a verdadeira Rochelle, não sabe de sua participação neste imbróglio. A única lembrança que possui é a de um velho insaciável que pagou por três dias de companhia num hotel da Suíça, durante uma feira literária particularmente inexpressiva.

santiago santos

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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