Bacantes (ou Mulher que é mulher até na orgia faz o que quer). Por Bruno Alves

Foto: Gabi Cerqueira

Foto: Gabi Cerqueira

Por Bruno Alves

Não pirei como das outras vezes. Na nublada tarde da última sexta (21/10) eu tava calmo. Iria à estreia de Bacantes, peça do Teatro Oficina, era fatal. Não tinha comprado ingresso e titubeei durante a semana, mas no fundo eu sabia que iria.

Tava calmo porque da última vez não PIREI PIREI. A última assistida foi Pra Dar Um Fim No Juízo De Deus. O texto de Artaud e sua interpretação não surtiram efeito: queria algum tipo de catarse ou resposta mas assimilei mais do mesmo. No entanto senti necessidade de ir nessa sexta. Dessa vez a estreia foi excepcionalmente no Sesc Pompeia; obra arquitetônica – tal qual o Oficina – projetada pela modernista Lina Bo Bardi. Intuí um acontecimento merecedor de persistência. Uma teimosia.

Felizmente a transformação não se vale apenas de catarses, mas também de singelos momentos geradores de pequenas reflexões; insistências, teimosias. Ainda bem: este Teatro é teimoso.

Foto: Jennifer Glass

Na arena o velho ritual se desenhava: a numerosa equipe de atores (incluindo o diretor Zé Celso) dançavam em círculo para nos saudar. Minha imaginação passava ao largo; não por arrogância; eu tentava erroneamente algum tipo de análise acadêmica, mas é preciso nos desprender do universo lá fora para nos conectar. Olhei em volta. Na solidão da poltrona na segunda fila eu me vi ao lado de gente interessante. No assento traseiro o poeta Pedro Tostes. A lembrança do seu livro na minha cabeceira me deu liberdade pra secar o rosto concentrado.

Sem perceber me envolvia na escuridão derramada pesadamente sobre a plateia. Observava atento ao chão de terra úmida iluminado debilmente, onde se atuava. Uma calma se impregnara em tudo; a conexão é válida mesmo que tardia ou fracionada.

Bacantes, estreada há 20 anos pelo grupo, é a peça mais conhecida do Teatro Oficina. A obra de Eurípedes (480 a.C. – 406 a.C), criada há mais de 2400 anos, se mantém atual. Ela trata do retorno de Dionísio – filho de Zeus e da mortal Semele – à Tebas, onde foi concebido. Sua chegada logo desperta a ira de Penteu, governante da cidade, que não reconhece a divindade de Dionísio e tenta impedir os rituais orgiásticos feitos entre ele e as Bacantes – guerreiras selvagens movidas apenas por seus desejos.

Foto: Cafira Zoé

Eu já me entregara a um movimento orgânico quando Danielle Rosa como uma guerreira nua e sugestiva me chamou ao palco para rituais bacantes, dança&orgia, numa celebração ao retorno de Dionísio, interpretado por Marcelo Drummond. Só voltei ao meu assento quando a tropa de Penteu, vivido por Fred Steffen, nos encurralou tal Polícia Militar. Aqui Penteu é invocado como o conservadorismo, incluindo o neoliberalismo decadente, vaiado de Aécio Neves quando aparecia. Dionísio e as bacantes representam a vontade, força transformadora: “mulher que é mulher até na orgia faz o que quer “ foi o grito que se ouviu dentro da suruba. A atriz Camila Mota, que interpreta Semele, classifica o espetáculo como “estado de mudança”. Não aquela ingênua, bipolar; mas absorvente de pensamentos contraditórios, conviva das diferenças.

Roderick Himeros na pele do mensageiro nos presenteia com eletrizante monólogo sobre a natureza das bacantes: seres selvagens, fertilizam o solo com orgasmos (“punhetando a terra”), saqueiam&matam, devoram seu inimigo porque o adoram: o digerem em coisa nova. Contudo, o mais envolvente não são as atuações individuais, sim o conjunto. Ainda no início dos 70 Zé Celso tomou a radical decisão de valorizar a performance à atuação: abriu-se uma janela em que a mescla entre atuadores e público, sem hierarquia, soma para a construção da obra.

Foto: Divulgação / Teatro Oficina

A música ajuda nesse labirinto sensorial; uma banda pontua as cenas com clássicos da música brasileira. O tecladista Chicão é peça fundamental: das bandas independentes aos improvisos no tablado, ele tá sempre envolvido na música nova de São Paulo.

Não tinha mais volta, tudo se transformou em sensações e libido. Numa revolta uma bacante me beijou a boca. Quando percebi eu pulara do meu assento para me integrar na orgia dos atuadores; & fiz isso hesitantemente num momento em que não mais chamavam plateia, já que apenas espectadores convocados num momento anterior participavam dessa cena. No limiar entre me sentir ridículo ou liberto, Letícia Coura, encarregada do cavaquinho da banda, me abraçou e acolheu ao grupo.

Cheguei em tempo da morte de Penteu. Tal como o sistema atual estava no ápice de sua loucura; e foi deixado sangrar até virar vinho e carne. O vinho foi tomado por mulheres e homens e todas as nuances de gênero até a última gota. A carne, devorada até o osso. Me assustei com a violência do banquete, dentes sujos de sangue riam impunemente. A altura dos risos aumentou até eclodir numa festa. Algo se transformara. Não de maneira abrupta ou óbvia, mas uma pequena mudança que convive com o que é velho; com as experiências passadas evolui. Uma novidade viva entre as diferenças, uma persistência furtiva. Uma esperança. Depois houve um grande silêncio. Entrelaçados uns nos outros digeríamos o alimento sobre a terra molhada. Um menino exaurido entre eles, pensando pensando.


SERVIÇO:

Em cartaz até 23/12 de 2016, aos sábados e domingos, 18h
Sessões especiais: 02/11 (quarta-feira, 18h) e 23/12 (sexta-feira, 14h30)

Ingressos: R$60,00 (inteira), R$30,00 (meia entrada para estudantes, artistas, professores e pessoas acima de 60 anos) e R$20,00 (moradores do Bixiga, com comprovante de residência).

Ingressos antecipados: 
http://bit.ly/bacantesteatroficina

Outras informações:
https://www.facebook.com/uzynauzona

Texto publicado originalmente no site A Mulher de Piolho

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