Aline Bei: A Visão

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sentei na escrivaninha.
puxei da gaveta uma folha em branco e
lápis,
comecei assim:
naquele dia no ônibus
que você tomou um Tapa
eu percebi o quanto eu estava apaixonada por você.
corri pra te salvar, queria matar a vagabunda que fez isso com o seu rosto, lindo rosto Chileno não é do Chile
que você veio? vi umas fotos de Santiago no google e pensei que moraria lá numa boa, ainda mais com você.
eu corri pra te salvar, Vicente,
mas na hora que cheguei perto minha perna ficou bamba, a voz não saía.
sou tímida,
queria ter te ajudado
não consegui controlar a minha vergonha, mas aquela imagem sua
no chão humilhado
ficou na minha cabeça,

(inclusive sexualmente,
você podia lamber
meu salto
nem precisaria se mexer muito, aquela sua posição
estava perfeita.)

Vicente, olha,
eu acho que a gente devia ficar junto.
sou muito melhor do que pareço, sei que existem mulheres lindas por aí inclusive a kátia mas a Kátia não quer nada com você, Vicente,
eu quero
e quando a gente quer alguma coisa com outra pessoa a gente se esforça mais.
assisti um filme ótimo nesse fim de semana
chama A Juventude
e o que eu entendi ser o cento secreto do filme é que a vida passa rápido e passa devagar,
mas ela passa de qualquer jeito e um dia a gente morre.
temos que escolher a lápide antes de morrer
eu fico pensando na minha
confesso que invejei A de um escritor que não lembro o nome mas é famoso. ele usou uma música do leonard cohen como lápide

like a Bird on the wire
like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free

achei genial,
só que eu não posso usar depois que o cara usou, fica chato,
fica pouco original.
desculpa.
não queria que o papo enveredasse pra esse lado de
morte
sei que estou escrevendo a lápis
poderia apagar
mas acontece que a carta tem um fluxo e se eu apagar isso
vou ter que apagar outras coisas, fora que eu quero uma carta espontânea.
Vicente,
tudo isso é pra te pedir uma chance
e além do mais
somos vizinhos, isso é no mínimo Conveniente e
neste fim de semana eu estou

sozinha.

assinei,
coloquei num envelope, queria carimbar como se fosse nos correios pra ficar emocionante chegar uma carta na casa dele,
do chile será?
quem é essa mulher?
ele terá que ler o endereço.
terá que bater na minha porta
pra descobrir.
aí não vai ter jeito, eu vou puxar o Vicente
pra dentro da sala
jogá-lo no sofá
não vai dar tempo nem dele pensar.
desci a rua
se não tiver ninguém na casa dele vai ser melhor. será que o Vicente já me notou no ônibus? nunca vi
ele me olhando e quem será aquela mulher que bateu nele,
uma ex?
cheguei
de frente pra casa, coloquei a carta silenciosa na porta de entrada ouvindo
uma Respiração
ofegante
vinha do corredor do quintal.
aquilo era um som
de quem estava prestes
a gozar.
meu deus. será que ele voltou com aquela mulher? se sim minha carta não faria sentido, seria rasgada pra morrer
no lixo, eu precisava espiar.

(percebi a fresta
na parte debaixo do portão)

se eu abaixasse pelo canto de lá
ele não veria meu corpo
e eu veria o que ele estava fazendo, apesar que eu já sabia o que ele estava fazendo. Continuei
com passos de pena
o sussurro crescendo
olhei ao redor
estava tudo vazio no condomínio, um domingo, deitei na grama e foquei meu olho no vão:

(o vicente sem calça
com a perna aberta
e um pastor alemão no meio)

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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