Dábora Arruda: Poesia presa na garganta

debora-arruda

POESIA PRESA NA GARGANTA

vi um homem nu
aos quatro anos de idade
não entendi
porque ele tirou a roupa
quando me viu sozinha
no quarto da sua neta

mas calei

vi dois braços em um pescoço
aos nove anos de idade
sem saber
porque ela não conseguia respirar
às duas da madrugada
no meio da rua

mesmo assim calei

vi as mãos dele segurando o cadeado
aos doze anos de idade
ela ficou trancada, presa
ele dizia que sair só na hora do programa
e que seria dele o dinheiro no final da noite

mas que programa é esse que dá dinheiro
e precisa sair de casa pra assistir?

enquanto isso calei

disseram que não ia adiantar
que eu seria somente mais uma a falar
aí chegou a minha vez

oito socos na boca
meus dentes quebrados
meu maxilar torto
sendo mais uma a apanhar
e depois mais uma que morre
calada
para sempre.

debora-arruda

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