Em entrevista, Guilherme Silva fala do seu novo documentário ‘Filosofia Rap’, sobre o movimento Hip Hop em São Carlos

Por Edmar Neves

O hip hop ataca novamente! O cantor, compositor, escritor, diretor e agitador cultural Guilherme Silva está lançando o documentário Filosofia Rap, que retrata o Movimento Hip Hop na cidade de São Carlos, tendo sido gravado durante a produção do disco de estreia de Guilherme, O Despertar da Consciência (2015).

Com a participação de mais de vinte músicos e artistas de São Carlos, o documentário mostra momentos importantes do movimento que está há vinte anos atuando cidade. mostrando a ocupação da Casa Hip Hop Sanca, a Batalha do Mercadão, os Saraus, entre outros.

No dia 23 de novembro, o CineUFSCar realizará, às 19h00, no anfiteatro Florestan Fernandes, do campus de São Carlos da UFSCar, a apresentação de Filosofia Rap, seguida de debate. Entrada gratuita.

Leia na integra a entrevista com Guilherme Silva

Guilherme Silva

Guilherme Silva

Esse documentário foi fruto de um projeto chamado Filosofia Rap. Conte um pouco sobre esse projeto e como foi a produção do documentário?

O projeto Filosofia Rap deu-se início no meio do ano de 2014, com as primeiras gravações das músicas do disco O Despertar da Consciência, no estúdio Correra Record’s de meu amigo e produtor Lincoln Rossi, disco que acabou saindo em abril de 2015 em forma física, foram impressas mil cópias e posteriormente lancei no formato digital na internet para que todos(a) pudessem ter acesso. Antes disso, em 2011, conheci a literatura marginal na 2ª Conferência Nacional da Juventude onde esteve presente o escritor Alessandro Buzo, nesse dia comprei um de seus livros, o Hip Hop: Dentro do Movimento (2010) Editora Aeroplano, a partir deste livro comecei a ler e buscar mais informações a respeito desse tipo de literatura e não parei mais, pude conhecer Ferréz que hoje em dia é um dos meus favoritos, Renan Inquérito, Toni C, Jéssica Balbino, Eduardo Taddeo, entre muitos outros(a), onde a partir dessas leituras foi culminando o processo de idealização do projeto Filosofia Rap, queria trazer o incentivo a leitura através da música, comecei a pensar e escrever sobre os temas que achava relevante ter e a partir disso comecei a fazer os convites ao amigos do movimento para participar. No meio de todo esse processo, me surgiu a oportunidade de adquirir uma câmera profissional, troquei por uma moto que tinha e com ela em mãos me veio a ideia de documentar o processo de gravação do disco e entrevistar os participantes, como também fazia parte da organização da batalha do mercadão, dos saraus e também fiz parte da ocupação da Casa do Hip Hop Sanca entre outras atividades, estava sempre com a câmera na mão registrando tudo, a partir dai entrei em contato com o Gustavo Palma da produtora Espiral e fechamos uma parceria para a produção do documentário, afim de fazer um registro semi-biográfico do disco e também de uma parte do movimento, já que aqui em São Carlos a cultura sempre esteve viva mas infelizmente com poucos registros.

Você realizou a exibição do documentário em algumas escolas públicas de São Carlos, como foi a recepção dos estudantes? Qual a importância do Hip Hop para a educação?

Uma das exibições nas escolas públicas foram frutos do disco, professor Sérgio que leciona na escola Jesuíno de Arruda, conheceu meu trabalho através de uma viajem que ele fez onde na van que realizava o transporte um amigo que também estava presente colocou meu CD para tocar e ele gostou muito, pegou meu contato com ele e fechamos uma primeira apresentação na escola acerca das músicas, junto de meu parceiro Dj Chrystian e Fabio Luiz, posteriormente o documentário ficou pronto e pude retornar para exibir para os alunos junto de outros parceiros que participaram do documentário, rolou um debate muito bom de grande interesse e participação dos alunos, fiquei muito contente com o resultado. Na outra escola a parceria já veio de aluno/professor, tive aula no ensino médio com o professor de história Paulo Roberto e ele sempre gostou do meu trabalho, em 2013 pude ir junto de minha amiga Sara Donato na escola Orlando Perez fazer uma palestra, após lançar o disco e o documentário retornei esse ano para apresentar o projeto aos alunos, tudo isso torna nós, que amamos essa cultura, realizados, pois o Hip Hop verdadeiro é isso, transformar vidas, tem que estar sempre presente dentro das escolas dialogando com os alunos, pois eles nessa fase de formação são bombardeados com muita coisa sem valor, e o real Hip Hop vem pra mostrar outros caminhos, possibilidades, no final de tudo o Hip Hop educa e detém de uma enorme importância para a educação.

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Recentemente você entrou para o grupo SK Family, como se deu essa parceria?

Recentemente foi oficializado que entrei para o grupo SK Family, mas nossa parceria já vem de alguns anos, o Dhol, um dos integrantes, já somou junto comigo no passado quando existia um coletivo que se chamava Família Rima Realista, onde eram alguns grupos e artistas solo que participavam, com o tempo cada um foi para seu canto continuando a trabalhar com a música, quando em 2012 mais ou menos, conheci o grupo, com o Thiago e o Teus e pude reencontrar o Dhol, digamos que a música nos ligou novamente, a partir desse momento comecei a somar com eles tocando como DJ e ajudando nos vocais dos refrões, quando comecei a produzir meu disco a gente fez nosso primeiro registro fonográfico junto na música Raízes Africanas, terceira faixa do CD, junto com eles pude aprender e me adentrar mais no mundo da cultura Sound System e de lá pra cá fizemos diversas apresentações até que após um hiato de uns dois anos retornaram com as atividades já produzindo o primeiro CD, foi quando me fizeram o convite e logicamente aceitei de prontidão, são meus irmãos, minha família, e mesmo sendo suspeito a falar é um grupo que acredito que ainda irá dar muito o que falar, o Teus, Thiago e Dhol tem um talento imensurável.

O Movimento Hip Hop se faz atuante a um bom tempo na cidade de São Carlos – SP. Em 2014 vocês ocuparam o prédio onde funcionava Centro de Referência do Idoso, na Vila Irene, São Carlos, reivindicando o espaço como sede da Casa Hip Hop Sanca. O que esse processo significou para você? E como foi a recepção dos moradores do bairro a ocupação?

Para mim esse processo foi um divisor de águas dentro da cultura como um todo na cidade, pois a gente ocupou o espaço em um momento de intenso conflito com a gestão onde o prefeito após assumir o cargo uma de suas primeiras atitudes foi cortar os oito pontos de cultura, nós como nunca fomos pontos de cultura nem nunca tivemos um espaço para realizar nossas atividades, ocupamos e resistimos ao máximo mostrando para toda a comunidade em torno, para o público e para a mídia que nosso projeto trazia além de cultura, educação e cidadania. Realizamos atividades em 2 meses e meio de ocupação que muitos movimentos consolidados não realizaram em dois, três anos de atividade, foi tudo muito intenso e gratificante, acredito que esse processo teve grande importância também para as outras pessoas que participaram, pois no final de tudo a gente de certa forma saiu vitorioso de lá pós reintegração de posse pois a reforma daquele espaço que estava abandonado realmente saiu e hoje em dia os idosos tem um devido lugar para realizar suas atividades, os moradores do bairro foram muito generosos e solidários com a gente, recebemos doações, apoio e ajuda e muitas pessoas, muitas mesmo, foi algo quase que surreal, mesmo passando mais de dois anos da ocupação lembrar de todo o processo nos remete grandes lembranças, nos enche de energia também para continuar a buscar nosso espaço, pois o sonho de termos nossa Casa do Hip Hop não acabou.

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Vários grupos de rap, Batalha do Mercadão, Batalha do Conhecimento, Sarau da Juventude, Slam das Quebradas, Encontros de Literatura Marginal… A lista é grande né? Fale mais sobre essas atividades e o que mais vem por ai?

Muitas atividades mesmo e também muito aprendizado, olhar para trás nesse pequeno espaço de tempo podemos ver que realizamos muitas coisas boas e com certeza ainda iremos realizar mais, mesmo que alguns projetos como as batalhas e os saraus tenham dado uma pausa, não significa que tenha acabado, penso que tudo faz parte de um processo, e o pós Casa do Hip Hop também nos trouxe um grande revés, houve uma grande desarticulação do movimento, mas que aos poucos vamos retomando o caminho para seguir em busca dos objetivos, é um trabalho de formiguinha, lento mas cuidadoso, nunca estivemos parados, cada um foi atrás do seu processo, como eu por exemplo, após a Casa trabalhei para lançar o disco, depois o documentário, participei de uma coletânea do escritor Alessandro, livro Pelas Periferias do Brasil Vol.6, onde pude reencontrá-lo no lançamento em seu Sarau em SP após conhecê-lo em 2011, e agora para 2017 pretendo terminar a terceira etapa do projeto que é lançar um livro antológico, um CD de poesias, entre outras novidades, detalhe, tudo isso de forma independente.

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