Aline Bei: noitada

 

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coloquei o disco do lou reed pra tocar, a peça que vi estava me matando,

principalmente a cena do ator de Coleira

com o carrasco cantando uma ópera em francês, dói? – fiquei com vontade de perguntar. fazer uma pessoa que parece um cavalo?

vestir essas roupas todo sábado

meses a fio e o ator sem fim

de semana fazendo a besta

acorrentada.

fiquei com vontade de subir no palco

pra libertar o ator com o braço, Chega!

dessa peça,

chega dessa posição de bicho, descanse um pouco, venha tomar um café.

mas também se o ator não estivesse na peça, o que ele estaria fazendo de proveitoso num sábado à noite, tomando uma?

no meio da rua.

com os amigos conversando os mesmos papos de sempre, de vez em quando passa

uma mulher interessante

o marido logo atrás, a mão na cintura cercando.

um amigo me contou que uma vez comeu

a mulher de um cara que estava no bar, mas o cara estava distraído tomando cerveja.

a mulher falou que ia pegar qualquer coisa no carro

e deu uma piscadela pro meu amigo, vamos chamá-lo de:

 

-Lou.

 

já que o disco está tocando

comigo lembrando desse papo do meu amigo que comeu alguém que

não sou eu.

pois a mulher deu uma piscada

e meu amigo entendeu tudo

foderam no banco de trás do corsa, o marido rindo no balcão da piada que o da esquerda contou.

a mulher voltou pro bar com o vestido torto, ajeitou bem depois

quando percebeu

e nunca mais ninguém tocou no assunto.

talvez seja melhor mesmo trabalhar no sábado à noite

como fazem os atores

os cantores, os garçons, como faço eu quando estou assim sozinha

coloco um disco

leio poemas em voz alta, a luz do abajur cintilando, mas hoje

depois de ver o ator cavalo

com um figurino fechado de botões coloridos,

olhar pela janela lendo poemas e ver tantos apartamentos de plateia, algumas luzes acesas prontas pro natal, aquilo

estava me deixando deprimida.

tanta gente existindo e eu querendo o que, paz? ouvir música? sacar o centro secreto dos poemas de guerra de Wislawa Szymborska?

peguei a chave do carro.

saí

pelas ruas

esburacadas de são paulo, se eu visse um pub que prestasse deixaria o carro com o manobrista

pagando a fortuna que eles pedem mais cara que a cerveja ou o couvert

artístico

e os homens de camisa abrindo a porta pra mim como se eu fosse uma espécie de celebridade

só porque estou pagando os vinte reais escritos na placa

que depois virarão salário pra eles, uma pequena parte claro, a maior sempre pra empresa

com o nome escrito na blusa.

as pessoas nas filas das baladas pareciam estar esperando qualquer coisa além da porta de entrada se abrindo. as que já entraram tentavam dançar preocupadas com o cabelo, um cheiro de perfume misto invadia a pista

e a banda

cantando covers sempre os mesmos, quando arriscam cantar 1 música autoral é a hora que todo mundo vai ao banheiro,

acabei não parando em pub nenhum.

agora era bob dylan

que cantava no carro

virei retorno de volta pra casa

cansei desse disco mas  toda vez que saio esqueço de pegar outro.

o ator fazendo o cavalo já estava mais suave na minha cabeça,

ele suando no palco como um bicho. senti sede lembrando

e vi no banco

a água que você deixou pra mim. estava quente, velha, não dava mais pra beber

(muito menos pra jogar

fora

foi você que deixou ela aqui

e como isso dá um novo significado pra garrafa, jogar ela no lixo

seria como se eu jogasse você).

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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