Entrevista: Filho de Jango, João Vicente, relembra em livro histórias do exílio do ex-presidente

Desde o Uruguai, que os acolheu depois do golpe de 1964 no Brasil, ele conta em livro o cotidiano com o pai, a resistência e o sonho de um dia todos voltarem à pátria

unnamed-1João Vicente tinha 7 anos, mas se recorda bem da noite do dia 31 de março de 1964, quando uma agitação diferente tomou conta dos corredores da Granja do Torto, uma das residências oficiais do presidente da República. Telefonemas, cuidados especiais e, na manhã do dia seguinte, malas arrumadas para uma viagem que parecia ser curta. Nada de brinquedos. Nem da pompa que cercava os deslocamentos da família. O avião também não era o da Força Aérea Brasileira (FAB). Viajaram para Porto Alegre ele, a irmã Denize e a mãe Maria Thereza. Depois para São Borja e só então para o Uruguai, destino da família após o golpe que depôs o patriarca, João Goulart, presidente eleito do Brasil, e mergulhou o país numa ditadura que duraria mais de 20 anos. A história do exílio dos Goulart, vista de dentro, pelo seu filho mais velho e companheiro de viagem e de vida, é contada neste “Jango e eu”, que será lançado em dezembro pela editora Civilização Brasileira.

No livro, João Vicente relembra todos os passos da família, reconstrói diálogos de Jango em casa, com os amigos e políticos que iam visitá-lo, conta como era o dia a dia dele e da irmã, que precisaram aprender uma nova língua, frequentar uma nova escola, fazer novos amigos e se habituar ao clima frio do Uruguai e à distância da família e amigos que ficaram no Brasil. “Éramos aves migratórias, sem pátria nem lugar de pouso. Ao longe, a Pátria distante, que um dia talvez, nos permitisse retornar com a família inteira. Meu pai dizia que o exílio era uma invenção do demônio, nos tornava mortos vivos, longe de sua terra. Se o exílio deixa marcas? Deixa, deixa sim, pois nos permite visualizar as injustiças, crescer em nossas convicções e aprender a viver sem ódios, mas lutando sempre. Acho que isto é o importante de uma vida sem Pátria, não renunciar a ela jamais”, afirma o autor, em entrevista ao blog da editora.

A saudade de coisas banais, como o chiclete Ping pong da infância, o doce de abóbora, a goiabada e o guaraná se misturavam à falta que fazia a casa, a rotina, o cachorro que ficou para trás, além de um projeto para o país que o pai presidia. Na obra, João Vicente revive cada sentimento, contando das viagens do pai pela Europa e América Latina a fim de encontrar os exilados brasileiros que se juntavam na esperança de encontrar uma estratégia para o retorno, entre eles políticos como Darcy Ribeiro e artistas como Glauber Rocha. A compra das fazendas no Uruguai, os novos negócios do pai, que, impedido de fazer política, voltou a ser um empresário do campo, a saída forçada do país, quando osmilitares do Cone Sul se uniram na operação Condor e passaram a perseguir os adversários dos regimes ditatoriais em países vizinhos. João Vicente revela também as torturas por que passou numa prisão no Uruguai, pouco antes de o pai decidir mandá-lo de vez para a Europa, e o clima sombrio que levou a família a se mudar mais uma vez.

Jango mantinha relações com líderes internacionais, como Juan Perón e até o ditador Alfredo Stroessner, que o ajudou em sua passagem pelo Paraguai. Era um homem do diálogo, segundo João Vicente, que acompanhou a maior parte dessas conversas e reuniões, mesmo sendo ainda um adolescente. Ele conta que certa vez, num avião para Paris, ele e o pai encontraram com o ex-ministro de Jango Armando Falcão, que apoiou o golpe, e depois se tornou ministro da Justiça da ditadura. A mulher de Armando, constrangida, veio até a poltrona de Jango e disse que o marido estava constrangido. Pois Jango foi até lá e conversou com ele. “Política é a arte de avançar convergindo diferenças de pensamento. Quando falamos isto dentro do campo democrático é mais fácil o diálogo, mas fica claro a grande diferença quando divergimos dentro de um estado ditatorial, quando só o fato de pensar diferente é alvo de prisão, torturas e desaparecimentos forçados, como fizeram certos “democratas” em 1964 que apoiaram o golpe, não pensando no Brasil, mas em beneficiar-se na então futura eleição de 1965, prometida pelos militares golpistas e que se transformaram em 21 anos de escuridão”, diz João Vicente, a propósito desse encontro.

A decisão de escrever o livro, segundo João Vicente, foi amadurecida durante anos. Na escola no Uruguai, o pai era chamado de comunista e subversivo. No Brasil, foi criticado por não ter reagido ao golpe, por um lado, e por ter sido muito radical na tentativa de reformar o Brasil, por outro. João Vicente deixa, com a obra, a sua versão: “Sempre achei que a palavra subversivo se moldava mais aos que subverteram a Constituição, violando-a, desrespeitando-a, manipulando-a, rasgando seus preceitos na base da bala, dos tanques e da prepotência. Jango sabia disso e fez do tempo e de sua morte no exílio um exemplo de resistência constitucional. Ele caiu de pé. E tinha certeza que a história estaria ao seu lado.”

JOÃO VICENTE GOULART é fundador e presidente do Instituto Presidente João Goulart. Foi deputado estadual (1982-1986) e integrou o Conselho de Acompanhamento da Sociedade Civil, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Em 1998 assumiu a presidência do Instituto de Terras do Rio de Janeiro (Iterj), a convite do governador Leonel Brizola. Em 2000 assumiu a Subsecretaria de Agricultura, no estado do Rio de Janeiro, implantando o Banco da Terra, do qual foi presidente.

Autor lançará a obra nos dias 7 de dezembro, em Brasília, na Livraria Cultura do Casa Park, a partir das 19h; no dia 9 de dezembro, no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, a partir das 19h; e no dia 13 de dezembro na Livraria Livros e Livros, em Florianópolis, a partir das 17h

TRECHO

“Naquele voo, ninguém imaginava que a saída do Brasil nos traria tristeza, solidão, ingratidão e traições; mas também daria a todos nós, sobreviventes, a têmpera do orgulho, da dignidade e da certeza de que o destino quis o melhor para Jango: a morte no exílio.

Denize e eu dormimos o voo inteiro, e só acordamos quando o avião começou a se aproximar do aeroporto de Melilla, um aeródromo para aviões pequenos nas cercanias de Montevidéu.

Minha mãe estava nervosa, pois não sabia nem onde ficaríamos aquele dia. Dom Mintegui estaria lá para nos receber. Antes de che­garmos, perguntei novamente:

– Mãe, para onde estamos indo?

– Para o Uruguai, João Vicente – respondeu ela.

– Uruguai, mãe? Onde é isso?

– É outro país, meu filho.

Segundo ela, fiquei longos segundos pensativo antes de disparar:

– Mãe, de que cor é o Uruguai?

Foi naquele momento que minha mãe se deu conta da distância a ser percorrida, dos dias na presidência, de seu casamento em São Borja, de sua infância. Pensou profundamente no que diria para aquela criança. Olhou para o céu aberto e profundo de um dia claro. Era possível ouvir o barulho das hélices. As lágrimas caíram no seu rosto, mas, sem se perturbar, ela se virou para mim e falou:

– O Uruguai é azul, João Vicente. É azul.”

 João Goulart (Jango)

João Goulart (Jango)

Leia abaixo uma entrevista com o autor. Parceria Grupo Editorial Record e Livre Opinião – Ideias em Debate

Por Cláudia Lamego

O seu livro traz lembranças de quando era criança e depois adolescente. Você já mantinha uma espécie de diário desses tempos ou começou a escrever especificamente para a publicação da obra?

Não, nenhum diário, pois ele sempre está dentro de nós. 

A decisão de escrever foi algo muito amadurecido, entre o desafio e o medo. Medo de mergulhar profundamente em uma região de minhas lembranças que sabia estarem vivas, porém muito perto da dor de relembrá-las e que eu sabia ser de uma profunda importância, não só para escrever o livro, mas que eu também, no fundo, tinha necessidade de revivê-las, sabia que ia doer, porém também sabia que ao fazê-lo me conduziria novamente ao passado para estar mais perto de meu pai. Foi uma experiência muito boa, matou a saudades e me extirpou um dever que tinha, dizer a todos quão grande foi Jango e quão grande é a saudades de um pai, de um grande amigo.

Uma coisa que chama a atenção são os relatos minuciosos, inclusive a transcrição de diálogos, tanto seus com o seu pai quanto de pessoas que estiveram com ele. Como você reconstruiu tudo isso? Conversou com alguém, fez alguma pesquisa especial?

Tentei essa reconstrução com o máximo de detalhes que brotavam de minhas lembranças, mas principalmente trazendo a eles, aos diálogos, a forma cândida que desde minha infância me acostumei a ouvir a voz de meu pai. Seu jeito, suas colocações, sua métrica verbal e principalmente sua harmonia vocal quando, no seu dia a dia, conversava com as pessoas da mesma forma autêntica, séria e cordial, seja com quem fosse que estivesse falando; com um governador, um peão, com o filho ou com amigos em uma roda. 

Tinha sempre uma maneira especial de se dirigir as pessoas, falava com sorrisos e escutava com muita, muita atenção, os mínimos detalhes, por mais insignificantes que fossem, deles, desses detalhes, intuitivamente e por meio deles, entrava na alma do interlocutor. 

Uma observação muito interessante que você faz é como o exílio marca as crianças e adultos de formas diferentes. No caso de seus pais, eles sentiam mais a falta dos amigos, ou porque estavam distantes geograficamente ou porque os outros se afastavam mesmo, enquanto que você e a sua irmã faziam novas amizades. Que marcas você traz hoje daqueles tempos e como elas ficaram também para os seus próprios filhos?

Christopher, meu primeiro filho, é um filho do exílio. Quando ele nasceu em uma terra longínqua, é claro que o fato nos fazia saber, cada vez mais, que éramos, como falo no livro, aves migratórias, aves peregrinas, sem pátria nem lugar de pouso, ou seja, pais, irmãos, descendentes do destino. Ao longe, a Pátria distante, que um dia talvez, nos permitisse retornar com a família inteira. Mas era distante e os amigos eram do mundo, pois o Brasil era distante. Meu pai dizia que o exílio era uma invenção do demônio, nos tornava mortos vivos, longe de sua terra que apenas respirava, sem saber até quando. Se o exílio deixa marcas? Deixa, deixa sim, pois nos permite visualizar as injustiças, crescer em nossas convicções e aprender a viver sem ódios, mas lutando sempre. Acho que isto é o importante de uma vida sem Pátria, não renunciar a ela jamais!

Bananas, chiclete Ping pong, doce de abóbora, goiabada e guaraná. A casa, o cachorro, a escola. São muitas perdas, umas que parecem mais simples, como as comidas, outras bem mais doloridas, como a vida que fica para trás. E a própria perda maior, a do seu pai. Hoje, do que você mais sente saudade?

Da Pátria distante, ainda não alcançada. Aquela que Jango sonhou e que até hoje buscamos.

O exílio transformou você num grande companheiro do seu pai, um amigo e confidente. Nesse sentido, você acabou tendo um amadurecimento precoce, tanto político quanto pessoal. Você acha que a vida passou a ter uma certa urgência pra vocês, por causa do exílio?

Acho que não. 

Ao contrário, pois o exílio nos ensina a ser pacientes, contemplativos, resignados a esperar que a verdade venha a rebrotar. Nos ensina a ser sábios muito mais do que intempestivos, nos ensina a criar couraças sorrindo e fazer da luta nossa companheira inseparável do tempo. Só com essa sabedoria como companhia, é que conseguimos buscar a sobrevivência ao lado da justiça, isso nos faz seguir em pé, além de nossas forças, além de nossas vidas.

No Uruguai, você conta que seus colegas de escola, sem ter muita noção do que se passava no Brasil, chamavam seu pai de comunista e subversivo. Jango até hoje é uma figura muito querida no Brasil, mas, por outro lado, é visto por alguns como um político que deveria ter sido mais conservador nas tentativas de mudança, para evitar o golpe, entre outras críticas. Queria que você contasse um pouco desse desafio de, além de todo o sofrimento por que passaram, ter que defender a memória de seu pai. O livro é, de certa forma, uma resposta a isso?

Não creio que essa visão de evitar o golpe sendo mais conservador se adequa muito a personalidade de Jango. Sempre achei que a palavra subversivo se moldava mais aos que subverteram a Constituição, violando-a, desrespeitando-a, manipulando-a, rasgando seus preceitos e na base da bala, dos tanques e da prepotência, junto com ela, amordaçaram a Liberdade e a Democracia brasileira, subjugando o povo brasileiro durante 21 anos de ditadura. Jango sabia disso e faz do tempo, de sua morte no exílio um exemplo de resistência constitucional. Ele sabia do seu destino e não entortaria à direita para privilegiar poderosos exploradores do suor do trabalhador brasileiro. Caiu de pé. E tinha certeza disso, que a história estaria ao seu lado. O livro é sim, de certa maneira o dia a dia de um homem, além de pai, líder até hoje de um projeto de Nação soberana.

Estamos discutindo Jango até hoje, e temos muito a discutir, muito a debater, pois as reformas de base, estruturais de um modelo de Nação, até hoje não foram implantadas, 52 anos depois… 

Você relata no livro um encontro de seu pai no avião com Armando Falcão, ex-ministro de seu governo, que conspirou pelo golpe, mas com quem seu pai, naquele momento, fez questão de conversar. Como foi essa experiência de reencontro, no Brasil, com pessoas que ficaram contra o governo de Jango? Indo além, como ficou a sua relação com o próprio país na volta?

Política é a arte de avançar convergindo diferenças de pensamento. Quando falamos isto dentro do campo democrático é mais fácil o diálogo, mas fica claro a grande diferença quando divergimos dentro de um estado ditatorial, quando só o fato de pensar diferente é alvo de prisão, torturas e desaparecimentos forçados, como fizeram certos “democratas” em 1964 que apoiaram o golpe, não pensando no Brasil, mas em beneficiar-se na então futura eleição de 1965, prometida pelos militares golpistas e que se transformaram em 21 anos de escuridão.

Quanto à nossa volta ao Brasil, até hoje, foi o retorno às raízes. Nunca, apesar da ditadura podar-nos, inclusive o direito de nossos filhos nascerem dentro desta terra, conseguiram nos afastar da luta de Jango. Ao contrário, pois quanto ele, Jango, nos ensinou no exílio que quanto mais estivéssemos ao lado da verdade e da memória de nossas lutas mais aguerridos seríamos na resistência. Hoje, depois de tantos anos, para os mesmos golpistas de ontem, Jango continua sendo “subversivo”. 

Que bom! Ao menos haverá resistência, pois a vida é lutar, lutar e lutar…

Aproveitando a pergunta anterior, como vê a situação política atual do Brasil? É possível fazer algum paralelo com 1964?

Sim, trocamos os quepes pelas togas.

No livro, você diz acreditar que Jango tenha sido assassinado pela ditadura. Essa é uma questão controversa no Brasil, até em relação a outros nomes da política ligados ao período. O que o levou a essa conclusão?

Existe ainda um pedido pendente desde 2007 ao Ministério Publico brasileiro de uma oitiva dos agentes americanos possivelmente envolvidos no atentado a Jango: Michael Towley e Frederick Latrash, que, lamentavelmente, ainda não tiveram tempo de atender para esclarecer ao Brasil essa possível morte de um presidente brasileiro no exterior, no exílio.

Sem isso não temos provas, mas temos convicção.

★★★ 

JANGO E EU
João Vicente Goulart
Páginas: 350
Preço: R$ 56,90
Editora: Civilização Brasileira / Grupo Editorial Record
record

 

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