Aline Bei: sina

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dois anos trabalhando no caixa do mercado
e olha que a Raquel entrou pra ficar no máximo 6 meses
ou pelo menos até ela arrumar outro emprego que não exigisse tanto tempo de pé. no fim do dia com a perna queimando
ela lembrava da mãe fazendo molho
no Tanque,

-tá lavando roupa pra fora dona marta?
-tô. se precisar de algo me diga.
-depois que morreu seu marido ficou difícil, né.
-ah maria. cê bem sabe que fácil nunca foi.
e as Varizes da mãe cintilando
especialmente nas dobras do joelho
em alto relevo como troncos que não deviam estar ali.
depois de estender toda a roupa
a mãe preparava uma bacia com água morna e
sal.

– vai dormir, menina. não é mais hora. – ela dizia pra Raquel olhando

e se sentava na cadeira da cozinha. colocava devagar os pés na água, de vez em quando soltava um suspiro.
foi aí que Raquel entendeu
o que era Cansaço, antes o cansaço lhe parecia um mistério tão grande quanto a
azia, mas pelo verde grosso nas pernas da mãe ela entendeu e
queria
que a dona marta descansasse sem morrer.
não amenize, disseram na tv hoje de manhã,
a Raquel ouviu
antes do trabalho
concordando com a psicóloga que dizia: quando morre um pai
não fale pra criança que o pai foi descansar.
fale que morreu, se não a criança vai ficar pra sempre com medo de dormir.

– a senhora tem cartão mais?
-não.
-quer cpf na nota?
-não.

bip,
bip,
bip as compras passando
até dar em dinheiro o valor que o cliente tinha que pagar por ter tirando das prateleiras aquelas mercadorias.
de fundo
tocavam músicas em inglês
de cantores que a Raquel conhecia a voz mas não o nome, no caixa ao lado
a Cláudia
que salvava a falta de troco quando alguém pagava 1 bisnaga com nota de cem.
no caixa da Raquel 10 unidades
o que mais saía era comida, lasanha congelada,
chocolate de sobremesa, as vezes só 1 cerveja long neck que o cliente saía já bebendo, o segurança de olho.
com rímel que a Raquel era obrigada a usar

(-pra ficar com cara de gente – dizia a gerente
também maquiada)

ela desejava para os clientes no fim das compras:

– tenha um bom dia.

como a maioria não respondia
corporalmente a Raquel se preparava para resposta nenhuma
e esses dois anos de pé no caixa do mercado
acabaram deixando a Raquel com qualquer coisa de máquina.
ela pegava ônibus dez da noite de volta pra casa
no ponto com as mesmas pessoas, a Raquel ainda de uniforme.
algumas meninas do caixa levavam roupa pra se trocar depois do trabalho, algumas esticavam a noite pro bar ali da pracinha.
a Raquel não sentia vontade
disso, aliás
de nada, ela era:

-Assexuada. – como dizem nos diagnósticos, mas não sentia dor.

fazia sexo de vez em quando porque ainda não sabia que podia existir gente assim que não gostava de sexo, então pra fazer parte da massa
de vez em quando ela transava
conformada com a ausência de sensações além da
angústia
achando que isso
era normal para todas as mulheres, no fundo ninguém sente coisa alguma, ela pensava,
sexo é superestimado só pra vender produtos
como esses lubrificantes, essas
lingeries.
no fundo ninguém goza
no fundo
ninguém sabe o que é
gozar. inventaram o terno
pra justificar as pessoas fazendo sexo sem reprodução, ocupando seus tédios com o corpo alheio
mas tudo sempre de fora, em fingimento, pra pertencer ao clã das pessoas adultas.
uma vez a Raquel topou
esticar depois do trabalho
porque as meninas insistiram muito inclusive a Cláudia aniversariante
e afinal a Cláudia
já tinha lhe salvado de tantas barras, então
a Raquel topou.
depois da terceira rodada de cerveja
todas contaram abertamente de suas experiências
sexuais na maior parte intensas
e a Raquel cética
no bar, muito parecida com a Raquel máquina
do mercado.
Amor já tinha acontecido com ela
mas a vontade de fazer sexo nunca tinha vindo junto.
na manhã seguinte
já no trabalho
ela leu por acaso
a manchete
de uma revista francesa que o cliente comprou:

O que dizem sobre sexo as pessoas assexuadas?

alguns clientes
passaram por seu caixa comprando a tal revista
talvez não pela manchete,
talvez pela matéria com a Gisele Bündchen de biquíni.
já quase no fim do dia
a Raquel pensou em comprar também
a revista
pra tentar se Entender mas isso
era muito profundo nela que ainda não sabia que queria se entender.
por enquanto a curiosidade sobre si mesma se manifestava superficialmente com ela curvando as sobrancelhas enquanto olhava pra manchete
e o barulho de bip
bip
passando mercadoria
a maioria comida,
de vez em quando uma cerveja long neck que o cara saía já bebendo, o segurança de olho, quando finalmente 1 variz estourou.

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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