Ana Mira: Sobre a verdade

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Quando dei por mim já estava parada depois da verdade. Quando disseram que era para o meu bem abrir a barriga do que eu pensava.

Todas as ruas mudaram de mão para que o tédio vestido de ódio hasteasse uma bandeira capaz de cobrir o ombros de um gigante que deu um passo imenso e foi dormir depois da verdade. Depois da verdade tudo dói e nada incomoda.

A órbita do mundo mudou porque toda a ciência ficou perdida antes da verdade. Depois da verdade o mundo pode muito bem girar ao contrário. Depois da verdade só anoitece. E o sol nunca se põe. E suas rugas laranjas eleitas escolhem a quem iluminam.

Nós mulheres somos mais bonitas depois da verdade. E todo filho é bem vindo. E todo homem é homem. Não existem monstros nem fantasmas depois da verdade. Mas todo o rosto está desfigurado.

Depois da verdade não existem fronteiras. Só existem muros. Mas todos estão do mesmo lado.

Depois da verdade todo país é um submarino. Navega e submerge. Depois da verdade todos são amigos. Mas a paz ficou antes da verdade.

A alegria também ficou antes da verdade e grita. Mas a histeria correu para depois da verdade antes de todos e o eco lá é insuportável e já não se pode ouvir nenhuma palavra. Não há silêncio depois da verdade.

Só o nada ainda se equilibra como se equilibra esse poema sobre a verdade.

★★★ 

Ana Mira pensou em ser jornalista. Tentou ser moderna. Tentou ser perfeita. Mas é insegura com a verdade. Não está no Facebook. E ama seus defeitos.

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