Aline Bei: A professora percebeu que eu estava fazendo qualquer coisa que não era prestar atenção na aula e me mandou prestar atenção na aula

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eu via o anel dourado na mão da minha mãe que tirava pra lavar a louça depois recolocava, apressada, no dedo.

via o mesmo anel

dourado

na mão do meu pai com pelo

já ele não tirava tanto

 

teu pai não mexe com água– minha mãe dizia.

 

por um tempo

eu pensei que o anel era 1

e que meus pais se emprestavam aquele arco

numa velocidade tão grande que meus olhos perdiam o quando,

de repente estava na mão de um

de repente

na mão do outro

até que percebi que Não.

foi no parque

quando meus pais deram as mãos.

eles não tinham tempo

pra dar as mãos

ficavam separados na maior parte do dia e quando eles finalmente deram, eu um pouco atrás, foi quando percebi que o anel

eram 2

contei de dentro da cabeça

1

2

e perguntei na janta por que eles tinham um anel igual no mesmo dedo.

 

é pra selar o nosso amor, querida. esse anel é como um símbolo de união, de família.

 

certo.

então porque eu não tenho 1 também se sou da família e vocês dizem eu te amo pra mim o tempo todo?

 

meus pais riram.

 

-é porque você não é casada com a gente. esse anel só eu e o papai que podemos usar.

 

subi pro quarto com passos pesados

a frase só eu e o papai grudada na testa.

peguei da gaveta um papel sulfite e cortei 2 tiras que dessem pra enrolar, pintei de amarelo.

coloquei 1

na pata do urso panda

e a outra

na pata do coelho

mas como eles eram de pelúcia e o anel cor de lápis

não ficou muito parecido com os anéis dos meus pais: peguei no sono mesmo assim.

 

cresci um pouco

não muito

ainda estava na terceira série.

fui ao cinema

com a minha vó

que me levou para assistir um filme de gente, eu prefiro filme de desenho.

 

mas eu quero tanto ver esse, os olhos da minha vó me diziam.

 

era um documentário

sobre um músico chamado Django Reinhardt, mas esse sobrenome eu não sabia dizer alto, nem minha vó.

ela gostava muito

da música desse moço que morreu e eu disse tudo bem vó, então vamos.

django

tocava violão muito bem e rápido

ela era um Cigano

gostava de morar na natureza tocando. um dia

seu trailer pegou fogo.

ele queimou a mão inteira

que ficou torta e

desobediente pra tocar música rápido.

porque ele tentou muito e porque ele amava violão com toda a força do seu ser

a mão dele voltou

a tocar as músicas

lindas que ele tocava

 

– e que mudaram a história do Jazz! – o narrador do filme disse, minha vó com lágrimas nos olhos.

 

depois do filme ela me contou

que dançava 1 música do Django chamada (eu não lembro o nome) com o meu avô.

foi num dia tão antigo

que hoje ele vive só na memória, as vezes a vó pensa que está inventando essa dança de tanto tempo que faz.

a memória

é a alma e mora no nosso corpo. quando dormimos

a alma passeia pela grandeza que somos por dentro do corpo muito maior do que parece

com muito mais peso e altura do que temos

o corpo é um espaço sem fundo igual ao universo

só a alma sabe e passeia por isso

a gente acordado corpo e alma não faz ideia do nosso tamanho.

mas antes

da minha vó me dizer essas coisas que me deixaram acesa na

mente,

no filme documentário eu vi

um anel dourado na mão de um moço tocando violão que não era o Django, era um admirador, eu vi o anel

igual ao do meu pai

igual ao da minha mãe.

 

o que significa isso? – perguntei.

que ele é casado. – respondeu minha vó. – eu também tenho, ô. – ela me mostrou a mão esquerda.

-mas o vô morreu.

– é, mas eu sou casada com ele mesmo assim.

 

olhei confusa

pra minha vó que estava com cara de saudade

e olhei pras mãos

sempre esquerdas de várias

pessoas nas ruas.

vi o anel dourado em muitas

quantas histórias cabem nos dedos de anéis iguais?

achei o amor

uma coisa poderosa,

quando eu me apaixonar vai nascer um anel em mim?

acontece que eu já estava

apaixonada

pelo carlos menino que senta

na carteira da frente com o Cabelo mais preto que já vi.

segunda feira fiquei olhando

pro cabelo dele e

pro meu dedo

muito rápido pra ver se nascia

o anel,

não queria perder o momento de ver nascendo como tantas vezes já

perdi.

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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