Aline Bei: Sonos

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sentamos no banco do ônibus.

vocês são namorados? – perguntou uma senhora
tão velha quanto o próprio
Tempo.
ela viajava sozinha,
estava louca
pra conversar um pouco
sobre coisas leves e assim
voltar pra casa
com algo recente nas mãos.

não. – respondi com um sorriso.

e o que falta pra serem?

eu e ele nos olhamos.
nada nos machucava
nem aquela senhora
solitária
querendo que ficássemos também sós dentro de um nome
que normalmente dão aos casais apaixonados.
cercar com Nomes é o nosso jeito de tentar entender as coisas.
acontece que no fundo
ninguém entende nada
de vez em quando parece que chegamos num mais perto
(tão distante)
e então Escapa de novo
dá um
branco e um fraco nas pernas, o mundo é tão maior.

estamos bem assim – eu respondi,
e a senhora não fez mais perguntas.

virou pro lado da janela. o céu estava preto como um cavalo preto.

olha uma estrela – apontei.

(os olhos do cavalo)

meu não namorado
ficou procurando

isso dá verruga, apontar estrela. – ele disse me dando um cutucão
que virou cócega, depois
um beijo
longo
estávamos no fundo
do ônibus
na última cadeira aquela mais alta e a senhora única companhia
Dormiu
(num sono tão profundo que

Morreu,

mas isso a gente só descobriu depois, quando o ônibus parou no terminal,
e a senhora foi a única pessoa que não desceu.
foram chamá-la, o motorista, gelada ela
não desceu)

seguimos beijando
a mão dele veio
pro meio das minhas pernas

você é quente aqui. – ele disse

meu bico subiu a gente sabia da língua sendo tão gostosa
das línguas no corpo molhando tudo
começamos a nos lamber por baixo e ai meu deus como é bom uma língua morando, suspendi o vestido e ele veio
encaixado
sem se mexer muito
apenas ficando dentro de mim o que virou a gente se olhando com calma,
se encontrando até que ele
dormiu
no meu peito,
o pau ao lado
da calcinha descansando. o peso do meu não namorado me fez sentir viva.
a vista da janela
eram telas
que passavam rápido demais pra que eu percebesse qualquer detalhe
era como se num museu tivéssemos rodas ao invés de pés, rodas incontroláveis.
eu via a imagem de antes
na de agora
porque eu ainda estava presa na imagem de antes mesmo com a de agora pulsando.
o tempo de fora pressiona
mas o nosso tempo é sempre o de dentro, ainda que ele tente se ajustar.
a estrada
tinha muita montanha, árvores com alturas parecidas
quando de repente apareceu uma
Cidade

é campinas? – eu pensei.

uma pessoa começa
a construir sua casa, alguém tem que ser o primeiro.
então vem outra
pessoa construindo e
depois outra.
pela vontade de ficarmos juntos como seres humanos é que nascem as cidades
o vento é o conjunto dos cheiros de tudo que mora nela, pessoas, ruas, lâmpadas, bicicletas, pássaros,
mas isso não dá pra ver de longe assim
do ônibus
de longe se vê apenas algumas luzes acesas, apesar da madrugada, se vê as milhares de janelas
algumas enfeitadas pro natal
não todas
nunca todas
não se vê os cachorros que moram nos apartamentos
ou os cachorros que moram na rua
muito menos os que morrem na rua, esses estão ainda mais baixos e a cidade logo passa
com o asfalto enrolando nas rodas.
algumas motos
olharam pra gente,
um homem dormindo em cima de uma mulher não é muito pesado? geralmente
o contrário
e o meu não namorado
tosse.
ele está vivo
e confia em mim de deitar no meu corpo
consegue dormir ao meu lado sem morrer porque morrer não é confiar
morrer é não ter escolha.
mortas as pessoas ficam expostas
aos lugares em que morreram, dormindo não. dormir num lugar é ter uma casa.
faço um carinho nos cabelos dele
do meu ângulo vejo
o nariz
os cílios
a franja
tão de perto
e a cidade lá longe bem pra trás

-era campinas?

com gente que também vê
outras pessoas bem de perto e ninguém se assunta
as pessoas respiram juntas
dizem oi, tchau
e tudo dorme
aparentemente calmo
não importa as coisas que tenham acontecido antes, uma hora se dorme de novo,
nem que seja porque a morte quis assim.

★★★ 

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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