Aline Bei: facilidades

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no Nordeste

quando morre uma criança antes do batismo

ela precisa ser enterrada com os olhos Abertos.

dói

ver no caixão o corpo mínimo

de olhos parecendo que a vida fugiu dali e

por ser uma fuga

fica a impressão de que a criança pode voltar.

ela pode

levantar disso tudo

a qualquer momento ela vai começar a brincar de pula corda, claro que

uma corda imaginária.

vamos esperar mais um pouco, a multidão parece dizer,

por isso eles não enterram logo a criança,

ficam perambulando pelas estradas cantando oh deus pai,

oh deus pai,

tenha piedade da criança que se vai.

 

mas por que de olhos abertos? – eu pergunto

 

-pra ela encontrar o caminho do céu. sem batismo

a criança não é filha de deus.

 

me respondem as carpideiras

numa missa itinerante

até o enterro

que será terra

nos olhos sem pisco, enquanto a terra não cobrir tudo uma fagulha de luz.

morreu de que? a criança.

geralmente de estômago

tão vazio quanto o olho de vidro

uma bola de gude opaca

a alma se foi

pra onde? senhoras com terço na mão seguem em frente

os homens carregando o caixão também

não precisariam ser tantos

para um caixão tão pequeno

o da frente deve ser

o pai,

o da esquerda o irmão mais velho

enquanto os irmãos mais novos brincam, não sabem, com as pedrinhas que moram na beira da estrada.

a pele das pessoas parece o chão numa escama única

só a pele

do bebê morto que não sofreu nenhuma fissura

 

-é que não deu

Tempo.

 

alguém me conta interrompendo a própria reza

mas sem afetar

a reza da multidão mais triste que o canto da cigarra, tem muito desespero dentro do canto da cigarra.

pergunto ainda

tonta pelos pés aumentando, cada vez que passamos rente a uma cidade mais pessoas se juntam a nós como se conhecessem a criança, então eu pergunto:

 

-pra Onde vamos?

 

mas essa pergunta ninguém responde, ninguém interrompe a reza pra me responder.

pergunto de novo

mais alto

e de novo usando toda a minha força as veias saltam minhas pernas bambas

 

-pra Onde vamos?

 

e nenhum pio além do canto

será que as pessoas da procissão também estão mortas?

cabe?

todos os mortos

de fome debaixo da terra? não fica muito

apertado?, muito inconveniente?

 

jogue um pouco dos corpos no mar, – sugiro.

 

que Mar?

o duro

é estar de férias

nadando de biquíni novo

e trombar com o corpo de um estranho mas

porque está morto e todos nós também morreremos, então o corpo se torna familiar. isso

estraga as férias de qualquer um

mas no Nordeste

na loja de caixão

vende também banana logo ao lado e vende

sapato, não pro morto, pro vivo.

ninguém compra porque não tem dinheiro, não por pudor.

é muito próxima

uma coisa da outra nas terras que são secas

uma naturalidade em morrer, uma aceitação.

pelo menos acabou, eles pensam,

se fosse na grande são

paulo um filho de Alguém

que alvoroço seria até que o padre desse um jeito de batizar o bebê morto

pra ele fechar o olho e não precisar procurar caminho nenhum, na verdade

nem bebê morto teria.

★★★ 

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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