Jorge Antônio Ribeiro: Messias

foto

Tem uma favela perto do Jardim Ângela. Lá não costuma nevar na Noite de Natal. Nem em noite alguma. Os telhados dos barracos não ficam brancos como nos cartões. Não há lareiras com aconchego ou sapatinhos na janela do quintal. Não há quintais. Nenhum anjo vem avisar certa mulher que ela é cheia de graça. Também não diz que há um fruto bendito no ventre dela. As grávidas de lá não dizem eis aqui a serva do senhor. E não se sentem benditas entre as mulheres.

Lá, nas noites de Natal costuma fazer muito calor. Não há vozes clamando no deserto, anunciando a vinda do Salvador. Não é Galileia nem Judeia. Nem Nazaré. Nem Belém. É só uma favela. Um labirinto. Longe.

Os partos não são presépios. As manjedouras são os hospitais públicos, lotados. Sempre. Até nas noites de Natal. Sem estrelas e sem reis magos. Sem mirra, incenso, ouro. As ovelhas são os baleados, os acidentados, os moribundos no corredor do pronto-socorro.

Num barraco abafado, a bolsa de Maria se rompeu. Bem no começo da noite. Primeiro filho dela e do Zé. Desespero. Despreparo. Sem dinheiro para o táxi. Chamaram ambulância que demorou, não veio. Foram de perua até um bairro maior e uma viatura da polícia levou-os com dores e contrações. Gemidos. O médico tinha falado que o parto seria só em janeiro. Mas o bebê não entendeu assim. No banco de trás da viatura, Maria era a dor no colo do Zé.

O policial era bruto no volante. Pés pesados no acelerador e no breque. Quase atropelou um papai Noel com roupa encardida, bêbado, numa viela. Depois, um ônibus incendiado e engarrafamento. O policial ligou a sirene e foi avançando.

Maria se lembrava dos seis partos da mãe. Todos em casa, com parteira. Criança que precisa nascer é banana madura no cacho, dizia sua mãe, cai sozinha de tão pronta. A moça lembrava, nesses dias alguém chamava a parteira, Dona Isabel.

Zé transpirando, cheio de nervo. Quis fumar, o policial não deixou. Foi então comendo as unhas. Lembrou-se do pai lá no Piauí dizendo que Deus é a calma, o diabo é a pressa.

Chegaram ao pronto-socorro. Maca e correria. Muita gente. Choro de crianças e olhares de doença. O único médico presente estava fazendo cirurgia de urgência.

Os gemidos de Maria não eram sinos de Natal, castanha, panetone, nozes.

Na mesa da recepção, uma árvore de Natal empoeirada tremia com o barulho e o vento do ventilador meio encrencado.

Uma enfermeira brava disse que teriam de ir a outro hospital. Zé falou que não dava tempo. Pelo amor de Deus, moça, a criança já tá nascendo. Sinto muito, pai, não temos condições aqui, vocês vão ter que ir pro Hospital das Clínicas.

Gritos de Maria. Contrações. Dilatações. Afobação do José. Daqui a gente não sai. Alguém tem que dar um jeito. Não dá, pai. Sua mulher tá correndo risco. Alguém chama o policial lá fora, vai. O soldado veio, falou que não tinha mais tempo. A moça ia dar à luz ali mesmo. Lavou as mãos depressa, apareceu outra enfermeira, luvas, tesoura. Zé, quase desmaiando, saiu pra fumar dois cigarros. Fumou quatro, de filtro vermelho, daqueles do Paraguai.

Fumava e lembrava. Conheceu Maria em uma igreja. Tinham muito sono à noite. O trabalho era pesado. Cochilos nos cultos entre gritos do pastor e dos fiéis. Ela se acabava na faxina de um prédio. Também dormia sentada. Nada compreendia do que o pastor anunciava. Desistiram da igreja.

No pátio do pronto-socorro pensamentos congestionados. Zé mordia os cigarros. Alguns carros passavam com música. Ensurdeciam. Zé trêmulo. Medo. Pressentimento ruim. Um e outro rojão. Gritos de Feliz Natal. Uma ambulância brecou com pressa e retiram uma moça com gritos de dor. Ele assustou. Moça muita parecida com Naninha, a namorada que deixou no Piauí. A garota da ambulância gemia. Era Naninha gritando? Não esqueça de mim, Zé. Volte, Zé. Você jura que volta?

 Naninha, filha de seu João Messias, carpinteiro. Foi ele que inteirou a passagem de Zé. Disse que carpintaria era boa profissão. Mas Zé ficou na construção civil.

Lá dentro, outros lamentos. Era Maria.

As ideias do moço pareciam bêbadas. Iam de Maria a Naninha, voltavam a seu João Messias, até que escutou choro de criança. Voltou correndo. Tinham arrumado um quartinho pra Maria. E o nenê? Cadê meu nenê? A enfermeira tinha levado pra lavar. Demorou. Voltou lindo. Ficou mais belo com a mãe agarrada nele. Quase meia-noite. No peito de Maria, a boca quente do garoto. Na sacola, o enxoval pobre que ela juntou. Os olhos do menino pareciam compreender o pai e a mãe chorando ali naquele lugar onde o Natal não costuma entrar.

Um idoso entrou no quarto sorrindo, disse que se chamava Simeão e pediu pra segurar o recém-nascido. Olhou, olhou e disse que via bondade e salvação nos olhos da criança. Perguntou se o menino já tinha nome. Zé falou que sim, que era Messias.

No outro dia, Maria teve alta. Saíram devagar. Pararam em um bar. Café preto. Bolacha de água e sal.

Eles não estavam fugindo para o Egito. Ninguém havia mandado massacrar todos os meninos de dois anos para baixo. Os soldados de Herodes eram outros. Os tiroteios.  As chacinas. As balas perdidas na periferia.

Na perua, Maria agarrada ao menino, querendo ficar sempre assim. Para que ele não morresse antes dos quinze com dívida de droga. Briga de gangues. Não fosse seu filho por caminhos que davam susto. Castigado. Crucificado.

No barraco, Zé teria de dormir num colchão de solteiro. No chão. Não havia berço. Fosse carpinteiro faria um para o menino.

Maria e Messias na cama simples de casal. Para ela, era bendito aquele fruto de seu ventre.

★★★
jorge-ribeiro

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s