Plínio Camillo: Quizumba!!

negra-com-filhos

O velho cão avança no pescoço.
Defende seus irmãos.
Também está atraído pelo de sangue que ela exala.
Pelo medo de ficar só.

Quizumba, qui ta fazendo?!”

Ele os seguiu naquela noite.
Sua matilha: as duas meninas e o menino.
A mãe deles ia por ultimo.

Latiu.
Onde iriam?
O menino veio acarinhá-lo.
São os seus.!
Portou com respeito: barriga para cima.

A mãe o repreendeu.
O cão temeu por tomar mais um tapa. Orelhas baixas, rabo entre as pernas. Muito mais pânico do que aceitação.

Ela somente o espantou com um leve cafuné.
Carinho!?!

Ficou um pouco se coçando e foi atrás. Quer mais!

Na noite sentia para onde iam: beira do rio.
Lá onde sempre brincava com os seus.
Gostava das meninas mas o menino era o seu preferido. Ele era o mais cão de todos.

Do alto avistou: A mãe e as meninas estão sentadas olhando para a lua.
O menino mais ao longe brincando na água.
Desce uma pouco mais.

— Quando os orixás aqui chegaram, com a tarefa de cuidar do nosso povo, começaram a confabular o que fariam. Porém achando que as mulheres, as orixás, não sabiam de nada, deixaram de fora da da conversa. Oxum ficou brava, mas muito brava mesmo! Vingando fez todas as mulheres secarem, o chão brotar mais nada, as flores murcharem vivas e que os animais tristes.

As meninas se espantam. O outro cão joga pedra para ver quicar.

— Sem filhos, sem beleza e sem comida, o povo começou a morrer. Os orixás homens ficaram desesperados. Das montanhas não brotava água nenhuma. O Sol nascia mas não aquecia. A Lua ficava no céu sem brilho. As estrelas sumiram. Ele tinham medo não terem mais serventia. Voltam correndo para Orun e lá imploram pela ajuda de Olodumaré. Ele pensou, pensou e descobriu que tudo que acontecia era por causa da Oxun. Ordenou que todos retornassem, pedissem desculpas para Oxun e as outras orixás e, também, as convidassem para conversações. Fizeram e o mundo voltou a girar.
— Gostei da história, mãe! — disse uma menina rindo. As vezes sua voz lhe doía os ouvidos.
— Também, madrinha — disse a outra que nunca sabia se esconder bem.
— Conta outra mais bonita?
— Depois conto!
— Promete?
— Prometo. Vou contar uma de Efegô

O menino estava tentando caçar um peixe.

O cão sentiu o cheiro do medo.
Presenciou a mãe desembrulhando um facão.
Ela caminhou.
Desferiu um forte golpe na clavícula de uma das meninas.
O cão sentiu a dor. Uivou!

A outra se virou e levou um golpe que fez a cabeça rolar.
O gemido entrou do velho cão.

O menino, um cão ladino, fugiu.
Disparou para cima de uma árvore.

O velho cão quer salvar o seu irmão. Corre também.

A mãe vai atrás do menino

O velho cão chispa.
Cansa, tropeça e por fim: anda acelerado.

A mãe deixou o facão longe da árvore.
— Desce daí meu filho!
— Não.
— Desce!
— Ocê vai me mata também?
— Claro que não!
— Pruque fez aquilo manhinha?
— Filho … a vida de fêmea aqui em terra, terra dos branco num é boa … é muito doída e sofrida … a gente tem os filhos … ama um homem … faz tudo pra ele ser feliz … e o desgraçado troca a gente prucausa de uma carne nova … Filho a vida das meninas num era boa. Eles vão me vender. Longe as meninas iram se perder. Mas ocê é macho. Vai ficar forte e grande. Nois pode fugi. Vai pra Efegô. Lá e um lugar bão.
— Verdade?
— É! Lá num tem escravo. Tem comida a vontade! Tem muito brinquedo e criança prucê brincar … desce daí!
— Tu não vai me corta?
— Não

O menino desceu.
O cão disparou.
Aflição
A mãe abraçou e o levou para beira do rio.

O cão começou a latir. Vai não!
Amargura

Carinhosamente lava o rosto do menino.
Ele se deixou afagar até que ela o afogou.
O menino debateu, uivou, tentou sair.
Morreu.

O cão sentiu vontade de chorar.

A mãe arrastou o corpo do filho para junto ao das meninas.
Sentou.

O velho cão avança no pescoço.
Quer o sangue daquela que matou a sua matilha.

Ela se deixa ser mordida. Não luta.
O cão estranha
Está cansado. Quer chorar. Quer brincar. Quer voltar.

O sangue a acorda. Ela rasteja. Pega uma pedra e joga.
Acerta o cão.
Deixa ele tonto. Com mais raiva: babam

Avança e ela e o morde.
Forte, dolorido.
Morde e suga o sangue.
Abocanha e murmura uma canção.

O cão se afasta como se deve: Orelhas baixas e rabo entre as pernas. Medo.

Fraco fecha os olhos.

O menino e as meninas levantam.
Sorriem e ele que ir junto.

“Quizumba, vem comer!”

Fecha e eles ficam longe.
Abrem e eles acariam.

“Quizumba, vem ,correr!”

Novo corre atrás deles.

plinio-camillo

Texto originalmente publicado no site Outras Vozes

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s