Diego Avendano: Arial 14

A gente se encontra

Em todos os teus vazios que não me cabem

Em toda aquela pausa no meio

de frase

Um dia vou lhe contar o que vivi. Meu jeito próprio de fazer as coisas e tudo o que aconteceu comigo. Talvez eu mencione tudo o que existe entre a vida e os livros, talvez escolha os livros. Apesar de “maduro” ainda não sei o queria ter feito se morresse amanhã. Só desisti de ler a rua, o bar e a semana passada. Sigo fingindo ter um juízo criativo que, apesar dos convites, não quer fazer propaganda e marketing. Reluto em dizer Maduro, com M, porque ainda me tranco no quarto escuro sozinho com música alta tocando. E olhando no espelho procuro o que há de errado comigo, com os deuses todos, me acho feio e acho que todo mundo olhava pra mim em abril.

O relógio marcava 11:37 e não haviam lugares para sentar naquele bar. Me perdi dos amigos em algum ponto do espaço entre cabelos e as faces da topografia de bar apertado. Apesar de procurar me encaixar, não há lugar para bêbado trajando luto. Vou por aí… desejando estar onde eu estava quando desejava estar aqui. Mais um gole, mais um gole e eu estarei bem. Mais um gole e essa música sintética de entrada me sai dos ouvidos e vejo vir vindo no vento cheiro de música tocada em vinil.

Ela sorriu e cantou Los Hermanos parecendo gostar da banda, mas errando a letra. Com pouco no coração e muito na cabeça a música ruía o último acorde. Eu sei a letra e cantei junto – gritei, sei lá. A mente e o corpo é diferente, por mais que quisesse tudo aquilo que acontecia eu saí andando depois daquele acorde. O que se faz?! Tudo já ficou lá trás. Mais um cigarro…

Ela tossiu e passou a mão sobre o rosto, limpando a fumaça de cigarro dos olhos, escuros como nanquim, antes de se virar pra mim. O cartaz na parede dizia que “fumar mata” ou “fumar causa câncer”, não me lembro bem, mas o relógio dizia 00:57. Dava pra ver todo o céu descendo a rua, até uma jabuticabeira no meio do “fumodromo” fumava sem se importar.

Porque você não me beijou aquela hora?!

Hã?

Você é esquisito.

Hahahaha, você não faz ideia.

Você assiste Tv?

Não, porque?

Meu nome aparece lá! Depois do programa.

Vou assistir amanhã.

Duvido…

Vou sim!

A gente se encontrava. E eu pipoquei aí pelo existencialismo. Cultivando uma ideia de liberdade absoluta, de poder fazer o que quer que escolha. Quando a gente fala de liberdade o vocábulo absoluto tá por aí, segurando a máscara ou dando as cartas, então a gente reflete anos a respeito do assunto sonhando com o que não existe. Preso a horários, preso a suas manias, preso a relacionamentos em que você combinou alguma coisa. Você já percebeu o texto do casamento? Até que a morte os separe, vai segurar essa encrenca, meu filho? Hã, até o túmulo e ainda vai chorar no enterro? Eu assisto Tv, no mesmo horário por mania. A fonte do texto é Arial 14 e sobe sempre entre qualquer coisa menor que o amor e maior que o esquecimento.

diego-avendano

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