Aline Bei: solitária

Duas Mulheres na janela (Bartolomé Esteban Murillo, 1670)

Duas Mulheres na Janela (Bartolomé Esteban Murillo, 1670)

a mesa era grande e redonda pra caber todos os alunos.

nossas mãos se apoiavam nas bordas em seguida

nos livros, o colorido primeiro

com a matéria do dia, depois o preto e branco com os exercícios, alguns eram de levar pra fazer em casa.

a maioria dos alunos

não faziam os exercícios em casa, éramos adultos e tudo Gelado

pelo ar condicionado daquela escola de Espanhol.

o sino da porta de vidro

tocava toda vez que alguém entrava na escola ou

saía, pra que? se a porta

era de vidro. eu ficava imaginando

a vida da secretária

ouvindo sino o dia inteiro

depois da janta era o momento que ela fazia lição de espanhol.

Aula de graça para todos que trabalham aqui, estava no contrato, e a secretária sempre sonhou em conhecer Andaluzia.

Estudava

pensando que o esforço do estudo podia gerar alguma recompensa, por exemplo a vida se ajeitando

pra que ela conseguisse

finalmente conhecer

Andaluzia, a secretária acreditava em deus e a vida secreta por de trás disso.

quantas combinações de desfechos são possíveis para as pessoas que Acreditam?, o duro é ir assistindo

o Nada acontecendo apesar da fé, o duro

é ir desacreditando

com um lado seu não querendo

confessar pra si mesmo

que a vida só depende de nós e não tem mão que empurra

a não ser a própria,

quando eu chegava pra aula a secretária me dizia:

– que arrumada.

não exatamente num tom de elogio.

eu passava um perfume forte demais para uma escola sem janela

queria que aqueles alunos se lembrassem de mim

queria imaginar que num churrasco futuro

pelo menos 1 deles, porque surgiu o assunto, dissesse:

– eu estudei espanhol.

e pelos segundos que durassem a fala

ficaria Eu na cabeça dele

como lembrança de alguém que também estudou

espanhol na mesma escola, na mesma época um perfume forte demais, que fossem milésimos de segundo não importa, ainda assim aquilo era um jeito de não morrer.

teve um dia na aula

que sem querer eu acabei ganhando

uma amiga. dei um sorriso pro exercício do livro que ela estava fazendo e foi o que bastou para sentarmos juntas

durante o intervalo na salinha do café e de repente eu comecei a reparar

naquela garrafa térmica

cheia de um líquido escuro feito há pelo menos duas horas durando tantos alunos. era pra ser imbebível

aquele café que bebíamos

a garrafa térmica disfarçava isso igual a geladeira com os alimentos, de calor o contrário,

mas as duas seguravam a Morte

das coisas que nelas se guardam

fazendo a gente se alimentar de

pequenos estragos, aparentemente comestíveis. esse mal estar coletivo, essa ânsia, deve nascer daí.

com a minha amiga eu não conversei sobre isso, claro, não queria assustá-la. então eu disse sobre os filmes do Almodóvar

e a Espanha que aparecia neles

também em outros

filmes como Vicky Cristina

Barcelona

de um jeito que só o Woody sabe mostrar

e faz igual

com nova York, por isso eu fui aprender inglês. a minha amiga também se sentia assim, com os aprendizados sendo movidos por fetiches, Paco de Lucía não fala

em suas músicas mas o som que sai do violão é

em espanhol. rimos disso

e de como a nossa cara ficava pesada com aquela luz branca

do banheiro depois da descarga,

a gente riu pronunciando uma palavra impossível pro nosso acento

e a professora nascida em Madri dizendo no

no

qué pasa? agora ela mora em São Paulo e a gente rindo

da nossa pronúncia estúpida

da nossa falta de talento pra dizer o som das palavras nascidas numa terra que nunca estivemos

com a impressão de que lá

é sempre um pouco melhor

do que aqui

mas é só estar de fato em um lugar para já querermos o próximo

e o próximo

e o

próximo, entende? rimos

do sininho da porta

toda hora tocando

de todo mundo usando o mesmo livro

pra estudar uma língua que não é igual pra todo mundo

como? pessoas tão distintas vão aprender com métodos tão iguais?

a escola

a geladeira

a garrafa térmica

essas coisas apenas conservam

a falsa estrutura do mundo, rimos

percebendo a terrível

semelhança em tudo

e a franja líquida no olho da professora dizendo no,

no, 

qué Pasa?

pra mim e pra minha amiga que Nunca existiu.

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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