Evento debate importância da obra de Antônio Callado

Da esquerda para direita, professor Alcmeno Bastos, pesquisador José Almino de Alencar, Ana Arruda Callado e professor Eduardo Jardim (Foto: Alessandra de Paula/Ascom MinC)

Da esquerda para direita, professor Alcmeno Bastos, pesquisador José Almino de Alencar, Ana Arruda Callado e professor Eduardo Jardim (Foto: Alessandra de Paula/Ascom MinC)

Em homenagem ao centenário do escritor fluminense Antônio Callado, foi realizada, na tarde dessa quinta-feira (26), uma mesa-redonda na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), no Rio de Janeiro, onde está depositado o acervo de Callado. Fizeram parte do encontro os pesquisadores Alcmeno Bastos, Eduardo Jardim e José Almino de Alencar. Ana Arruda Callado, viúva do escritor, falecido em 1997, mediou o debate.

A presidente da FCRB, Marta de Senna, abriu o evento, falando da satisfação em estar à frente da instituição justamente no momento da celebração dos 100 anos de nascimento do escritor. “Antônio Callado é um dos escritores mais importantes do século XX. Sendo presidente da Casa de Rui Barbosa e sendo uma pessoa da área de Letras, não poderia deixar de vir aqui dar as boas-vindas a vocês”, ressaltou.

Professor de Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Alcmeno Bastos ressaltou características da obra de Callado. “Nenhum outro romancista que se debruçou sobre o drama político vivido nesse País, nos chamados ‘anos de chumbo’, deu uma visão tão abrangente, a ponto de tematizar, por exemplo, quais seriam as ‘razões’ dos torturadores. No romance de Callado, os homens da repressão também falam, não são apenas representantes da barbárie, eles têm uma dimensão humana, o que é muito bom para nós, porque nos alerta que qualquer um está sujeito a esses desvios de comportamento. Eu considero a obra de Antônio Callado uma das grandes realizações da literatura brasileira, quiçá, da literatura ocidental, porque é uma obra consistente, íntegra, que em nenhum momento se trai” ressaltou.

Já Eduardo Jardim, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), revelou que já era um leitor amador de Antônio Callado desde a publicação de Quarup (1967), e que não imaginava se dedicar ao estudo da obra do escritor. “Eu estou fazendo um trabalho mais amplo, que cobre o período do final dos anos 60 até o início dos 70, e, para caracterizar este momento, não tinha nada mais importante do que a publicação de Quarup. Tenho a visão de tudo que ele fez até Quarup, era como se ele estivesse preparando essa obra. Tudo que ele fez depois está referido a essa obra. O livro aborda os seguintes temas: a preocupação de reconstituir a história brasileira; a valorização das utopias – Callado se informou sobre o pensamento utópico; a preocupação de definir a personalidade da nação Brasil; e a busca do amor completo. E tudo isso é contrabalançado pela incredulidade que o autor tem em alcançar esses ideais”, explicou o professor.

José Almino de Alencar, pesquisador da FCRB, encerrou o bate-papo, defendendo a ideia que as reportagens realizadas por Antônio Callado não foram apenas matéria-prima para a ficção criada pelo escritor. “Eu acabei de reler, depois de 50 anos, o livro Tempo de Arraes (1965) [inspirado na série de reportagens que Antônio Callado fez para o Jornal do Brasil, cobrindo o governo de Miguel Arraes em Pernambuco], e é um livro incrível, que mostra o olhar de botânico que ele tem, a fidelidade aos fatos”, frisou o pesquisador, que é filho de Miguel Arraes e conheceu o escritor quando ainda era adolescente.

Tessy Callado, filha de Antônio Callado, esteve presente ao evento e comentou que estava muito emocionada com a homenagem ao pai. “Eu roubava os livros da biblioteca dele e lia escondida. Foi assim com A Madona de Cedro (1957), que eu li aos oito anos. Um dia ele entrou no quarto, viu que eu estava lendo e disse: ‘Ah, meu bem, você está lendo isso agora? Você vai apreciar isso melhor mais tarde’. Eu li o final da história numa assembleia do Colégio Bennet, lá no fundo, no escuro, aos prantos. Toda a obra do meu pai mexe muito comigo. Agora eu decidi reler toda a obra dele. Ele é um brasileiro apaixonado pelo País, que quer acreditar que tudo vai mudar, que tem que virar uma nação. Não porque é meu pai, mas é um grande escritor”, completou.

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ANTONIO CALLADO – Jornalista, romancista, biógrafo e teatrólogo, nasceu em Niterói, RJ, em 26 de janeiro de 1917, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de janeiro de 1997. Ingressou na Faculdade de Direito em 1936 e, no ano seguinte, começou a trabalhar, como repórter e cronista, em O Correio da Manhã. Iniciava aí uma carreira jornalística que lhe proporcionou muitas viagens e contato com alguns dos temas de sua obra. Entre os mais importantes, estão Quarup (1967), Bar Don Juan (1971), Reflexos do baile (1976), Sempreviva (1981), que apresentam um retrato do Brasil durante o regime militar, do ponto de vista dos opositores. Seu engajamento lhe custou duas prisões: uma em 1964, logo após o golpe militar, e outra em 1968, após o fechamento do Congresso com o AI-5. Quarto ocupante da cadeira 8, foi eleito em 17 de março de 1994, na sucessão de Austregésilo de Ataíde, e recebido pelo acadêmico Antônio Houaiss em 12 de julho de 1994.

 

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