Entrevista com Wilson Alves-Bezerra: “Sou poeta, apesar de todo o resto”

“Toda poesia se faz em tempos de crise
O que não se decide de antemão é se a crise é do sujeito ou da sociedade”

Wilson Alves-Bezerra

Wilson Alves-Bezerra foi o vencedor na Escolha do Leitor, na categoria Poesia, da 58ª edição do Prêmio Jabuti.

Wilson Alves-Bezerra foi o vencedor na Escolha do Leitor, na categoria Poesia, da 58ª edição do Prêmio Jabuti.

Por Edmar Neves

Os poemas urgentes de O Pau do Brasil (Editora Urutau, 2016), de Wilson Alves-Bezerra, estão ganhando uma série de vídeos no Youtube. Tratando do cenário político brasileiro, o livro – escrito em uma semana – está dividido em três partes (I terra em transe, II história do brasil – período contemporâneo  e III o fim da história e o último homem), e traz as várias vozes de um país imerso em um caos político, que mal conseguiu acompanhar a velocidade dos acontecimentos/atrocidades que desembocaram em um lamentável golpe na democracia.

Wilson Alves-Bezerra é escritor, tradutor, crítico literário e professor de literatura na UFSCar. Autor de Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades (EDUFSCar/ Oitava Rima, 2013), Vertigens (Iluminuras, 2015) e O Pau do Brasil (Editora Urutau, 2016) ), como ensaísta, escreveu Reverberações da Fronteira em Horácio Quiroga (Humanitas/ FAPESP, 2012) e Da Clínica do Desejo a Sua Escrita (Mercado de Letras/ FAPESP, 2012. O autor também traduziu Contos da Selva, Cartas de um Caçador e Contos de Amor de Loucura e de Morte, de Horacio Quiroga, Os Outros e Pele e Osso de Luis Gusmán. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2010 na categoria Melhor Tradução Literária Espanhol-Português com Pele e Osso e vencedor do Prêmio Jabuti em 2016, na categoria Escolha do Leitor, com Vertigens. Como jornalista, colabora nos jornais O Estado de São Paulo, O Globo, El Universal (México) e Los Inútiles – de siempre (Argentina).

Em entrevista, conversamos sobre suas obras literárias, a situação política brasileira e muito mais. Confira:

Seu último livro, O Pau do Brasil (Editora Urutau, 2016), tem um tom bastante crítico, tendo em vista os processos que vêm ocorrendo no cenário político e social brasileiro. Comente um pouco sobre esse livro, quais os temas abordados, as influências, como foi o tratamento editorial e como está sendo a experiência de divulgar seus poemas via vídeos no Youtube?

O Pau do Brasil (2016) é um diálogo com dois interlocutores: o Brasil contemporâneo e o livro Pau Brasil (1925), de Oswald de Andrade. Nosso país ofereceu discursos, descalabro e imagens. Oswald nos brindou com uma forma irônica sem igual, um procedimento de citação condensada e uma visão sobre nossa condição global. É um livro de circunstância, porque nasce da convulsão político-social que se instalou no Brasil desde que um deputado federal, de cujo nome não quero me lembrar, aceitou o pedido de impeachment da presidenta do Brasil, em dezembro de 2015, dizem que por razões escusas. O livro foi escrito no calor do momento e encontrou na editora Urutau –  uma casa independente, combativa e ágil – as condições ideais para existir; os editores, Tiago Rendelli, Wladimir Vaz e Ana Penteado – entenderam a proposta, sua linguagem e o resultado editorial é um livro cujo trabalho gráfico dialoga com o da primeira edição do livro de Oswald. Agora no início de 2017, com o videomaker Paulo Ninja, aqui de São Carlos, produzimos clipes a partir de três poemas do livro, para que possam circular mais pela internet. Já havia feito um projeto assim com as Vertigens (2015). A ideia segue o princípio verbivocovisual tal como enunciado por Joyce e, entre nós, desenvolvido pelos concretistas. A poesia deve circular em vários suportes: no livro, no vídeo, na internet, num pixo, num grafite pelas paredes.

Você é doutor em literatura, professor universitário, tradutor, jornalista, crítico literário, autor de ensaios, de textos acadêmicos, de obras literárias em prosa e poesia. Um ofício influência no outro? Dá para conciliar, por exemplo, o crítico literário e o poeta?

Sou poeta, apesar de todo o resto.

Como estudante e professor, você viveu tanto em um período em que as universidades eram um espaço totalmente elitizado, quanto num momento em que o ensino superior se tornou mais democrático no Brasil, com as políticas de Ações Afirmativas que permitiram o acesso das camadas historicamente excluídas das universidades. Como você enxerga esses processos? As universidades brasileiras ganharam algo com o maior acesso do povo ao ensino superior? O que você acredita que vai acontecer nas universidades a partir de agora, em um Brasil pós-golpe?

O corpo discente da USP em meados da década de noventa era mais rico e mais claro que a imensa maioria das pessoas que eu, que nascera e crescera nas franjas da cidade. Mas é evidente que também conheci muita gente que, como eu, conseguira ingressar pelo vestibular. Naquele momento, a USP já se fechava para os não-alunos, em nome da segurança: a população já não podia cruzar seus portões nos fins de semana, como é até hoje. Nos anos 2000, a UFSCar adotou uma política de ações afirmativas que visava ampliar o acesso dos alunos. Hoje a UFSCar é mais diversa, mais parecida com a diversidade da sociedade brasileira, o que me parece um grande avanço. É a hora de pôr à prova o poder de organização e mobilização dos universitários que se formaram sob estas políticas afirmativas: poderão ter voz e articular-se? Compreenderão o processo histórico de seu ingresso na universidade?

O Pau do Brasil foi lançado pela Editora Urutau, Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades, de 2013, é de uma parceria entre a EDUFSCar e a editora Oitava Rima, já Vertigens, lançado em 2015 e vencedor do Prêmio Jabuti de 2016, foi publicado pela editora Iluminuras. Como é publicar em grandes e pequenas editoras?

Publicar livros num país onde cada vez menos as pessoas se sentem capacitadas, motivadas ou possibilitadas a comprar e ler livros é uma aventura, para todos os envolvidos no processo. Há um clima geral de abatimento sobre editoras e editoras de todos os portes, cores e tamanhos. Espero que possamos suplantar isso.

Recentemente li um artigo de opinião da Ana Luiza Figueiredo, no blog Homo Literatus, que dizia que um bom escritor tem de ser, antes de tudo, um grande leitor de literatura. Nesse sentido, quais autores te influenciaram? O que você tem lido nesses últimos tempos? Há novos autores que estão te chamando a atenção? Nos indique algumas leituras.

A literatura pode nascer de muitos lugares – da experiência, da exceção, da comoção – mas ela necessariamente constitui-se a partir de leituras prévias, da visitação à tradição. Sem isso, não há nada. Recomendo enfaticamente a leitura das cada vez mais escassas publicações sobre literatura que tragam análises críticas sobre novas obras e autores; recomendo a leituras destes autores; recomendo que comprem livros; recomendo que o Brasil não feche por falta de leitores, por falta de leitura nem por falta de literatura.

Vem algo novo por ai? Fale sobre seus projetos futuros.

Está saindo um livro novo de resenhas literárias publicadas de 2009 a 2015, chamado Páginas latino-americanas (EDUFSCar / OFICINA RAQUEL). No segundo semestre, publico meu segundo livro de contos, cujo nome será Uma noite com outras noites em cima. No momento, estou escrevendo um romance, também a partir do Brasil contemporâneo, chamado Vapor Barato, ainda sem editora.

edmar-neves

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