Aline Bei: ainda bem que estava escuro

New Orleans, pintura de Debra Hurd

New Orleans, pintura de Debra Hurd

é a segunda vez no shopping essa semana. no domingo tentei ver um filme

mas o filme que tinha não era o que eu queria assistir.

hoje acabei vendo um terceiro

que não estava indicado a nenhum prêmio, um filme esquecido.

ótimo, pensei,

e comprei o bilhete, a história era sobre um grupo de escritores clandestinos.

todos eles tinham outras profissões

engenheiro,

professor, mecânico.

mas de noite eles se encontravam

numa espécie de clube de jazz

pelas ruas de nova orleans

pra conversar sobre literatura, com sorte arranjar um tema pro próximo romance.

o jazz trincava no palco

as falas dos personagens acompanhavam a empolgação dos músicos

negros como a noite que faz

na música Round Midnight.

a mesa dos escritores

era sempre a mesma

o garçom já sabia e chamava todos pelos nomes de seus drinks favoritos.

o horário do encontro também era o mesmo,

eles saiam correndo do lugar onde estavam

de bicicleta

a pé

aos saltos com

um sorriso no rosto e às 8 em ponto

todos eles estava lá

na mesa de sempre

passando o lenço na testa e já puxando um assunto,

 

aquele livro do Fante, Sonhos de Bunker Hill. Caralho, Ted, que livro! e aquela  cena do strip-tease?

– Cheia de vida, não é? eu te disse. (o personagem acende um cigarro) é um livro e tanto.

– dá até raiva quando olho pra meia dúzia de páginas que escrevi ontem, será que algum dia eu vou chegar a escrever algo que realmente valha a pena?

– claro que vai! todos nós vamos. enquanto isso um brinde, hein.  ao filho da puta do Fante.

– vá lá! um brinde praquele filho da puta!

 

um dia

o personagem do professor se apaixonou

por um belo rapaz

desconhecido de terno e pasta

que  adentrou o clube sem mais nem menos. pediu uma bebida no balcão

ouviu a música pelo tempo do líquido

chegar ao fim do copo e depois

foi embora, deixou uma nota de 100.

 

incrível. – disseram.

o sujeito não quis saber de troco. – disseram.

ou é milionário ou

é louco. (risadas por todo bar)

 

aquilo foi assunto

no clube por várias noites. virou até anedota

dizendo que vida era mais valiosa

do que o dinheiro,

só valia menos quando alguém deixava uma nota de 100 no balcão.

o engenheiro usou a cena

como inspiração pra escrever um conto

que ele leu na mesa do bar semanas depois.

 

ficou bom, hein. ficou ótimo. – o professor falou, o rapaz de terno e pasta tampouco saía da cabeça dele.

 

o professor tinha filho

era casado

como ele poderia? assumir aquela paixão.

descobriu escrevendo

um romance chamado

O Troco

bastaram 3 noites para que ele escrevesse o livro todo

num ímpeto inigualável, de vez em quando sua esposa dizia da cama:

 

vem dormir. o que você está fazendo acordado até tão tarde?

 

ele mal respondia

ou respondia que eram as provas dos alunos

numa concentração inabalável

nem o choro do filho o distraía, era como se alguém estivesse soprado

as palavras em seu ouvido.

na quarta noite ele releu o romance, orgulhoso.

assinou com um pseudônimo,

Martha Eder

mas o livro

não vendeu bem.

ainda assim era um clássico, o professor sentia dentro do peito que era um clássico,

 

é que esses livros clássicos demoram mais pra serem reconhecidos, eles estão a frente do nosso tempo. – ele disse em aula

seus alunos anotando.

enquanto isso o rapaz de terno e pasta

tomava outro drink

num bar distante

sem nem imaginar que no mundo existia um romance de 300 páginas sobre ele

ou sobre a ideia

que um professor de inglês fazia dele, um professor apaixonado.

acontece que raramente a gente se apaixona por alguém, na verdade

a gente se apaixona por Ideias. outro dia mesmo,

eu estava no carro

no meio do trânsito

tentando virar numa rua que parecia bem mais tranquila ali pelo ângulo da janela, faltavam 3 carros pra eu conseguir virar mas a coisa não andava de jeito nenhum.

foi quando eu bati o olho num rapaz

fumando no carro

um cigarro que poderia ser de maconha.

sim,

pelo cheiro era de maconha

não fumo mas tive

um namorado que fumava como se ele quisesse morrer.

o rapaz vestia uma regata branca

daquelas de filme de guerra quando o soldado não está em combate

e várias tatuagens no braço, isso deixa um homem

viril ainda mais com aqueles olhos

apertados sugando a fumaça, fazendo um vinco na testa, caramba que gato, quem é esse homem? senti que estava me

apaixonando

como o professor do filme

mas é claro que eu não estava me apaixonando

aquilo era são paulo 6 tarde num trânsito dos infernos, aquilo era o disco do cohen no meu carro,

aquilo era eu

sozinha

e os filmes que eu tinha visto recentemente

sem nenhum homem que me fizesse brilhar o olho de novo

igual quando eu tinha 20 anos

namorando o rapaz da maconha querendo morrer nos nossos

corpos, queríamos morrer amando, entende?, aquilo nunca mais me aconteceu.

me apaixonei pela ideia

daquele sujeito tatuado

ser alguém que me levasse de novo pra ilha do tudo ou nada

dos dias correndo sem cerca

quarta segunda domingo

eu cheguei a abaixar meu vidro

e fiquei olhando pro sujeito pensando numa boa frase pra dizer pra ele mas

não me veio nada

absolutamente nada

qualquer coisa que eu dissesse estragaria a baixa possibilidade de encontro entre nós.

então eu fechei o vidro

e ele

virou a esquerda.

acabei até esquecendo da rua vazia pra fugir do trânsito

mas não vou esquecer

do sujeito tatuado de regata branca. isso

é só porque ele não faz parte da minha vida, então ele vira uma espécie de herói, um momento de virada possível que eu podia ter aproveitado pra ser feliz mas fui covarde,

igualzinho ao professor.

comi pipoca pensando eu te entendo, cara. é sério,

eu te Entendo.

inclusive acho que cheguei a verbalizar a frase

porque alguém no cinema fez Shiu

e eu senti meu corpo queimar especialmente as bochechas, aquela velha história da carapuça.

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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