Em entrevista, Thiago El Niño fala sobre seu primeiro álbum ‘A Rotina do Pombo’

“Irmão, me diz qual é o defeito
de saber de onde veio, de saber quem você é
Irmão, fizeram tu achar feio
você vir de onde veio, destruíram sua fé”

Thiago El Niño

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(Quase) Toda Sexta-Feira – Por Edmar Neves

Na quarta-feira, 01 de fevereiro, o rapper, Griot, pedagogo e educador popular Thiago El Niño nos presenteou com o excelente álbum A Rotina do Pombo (clique aqui e faça o download). A produção do álbum conceitual durou cinco anos e é fruto de uma parceria com o coletivo Espaço Casa, tendo como influências da música jamaicana, o afrobeat e as religiões de matrizes africanas. Diversos MC’s fazem participações especiais, como o Rincon Sapiência, Sant, Flávio SantoRua, Tamara Franklin, Douglas Din, Raony e Keops, estes últimos membros da banda Medulla. Na verdade, as participações são mais que especiais, elas são centrais para o conceito do álbum. “No disco eu escrevi muito dentro de um personagem, e sempre que convidava um outro MC era pensando que ele tinha propriedade para contar a historia sobre a ótica de outro personagem”, nos contou.

O disco será lançado em uma plataforma-galeria virtual onde serão expostos trabalhos de artistas diversos, mostrando em diferentes linguagens, as leituras do conceito de A Rotina do Pombo.

Thiago El Niño mora em Volta Redonda – Rio de Janeiro -, é estudante de Pedagogia e atua como pedagogo e educador popular. Como rapper lançou os EP’s Fundamento, em 2015 e Filhos de um Deus que Dança, de 2016.

Leia na integra a entrevista que Thiago El Niño deu para o Livre Opinião – Ideias em Debate

Seu primeiro álbum, A Rotina do Pombo, conta uma história que infelizmente é bem comum com a juventude preta, tendo como personagem principal um cara de 27 anos, chamado Sem Nome. Conte sobre o conceito do álbum e as discussões que ele aborda.

Esse personagem foi inspirado em mim, e em vários jovens pretos próximos ou que eu tive oportunidade de observar, percebi que independente de o que você fizer essa estrutura racista em que vivemos sempre vai ser uma força que te empurra para o seu lugar de origem no aspecto ideológico dela, o papel de escravo, que também guarda sua essência de servir por subjugação e violências de diversos aspectos, e que vai se modernizando! Esse personagem somos nós que ainda somos escravos de uma estrutura onde o grilhão mudou, mas ainda te impõe uma rotina de serviçal onde o “sonhar” é um quilombo para não enlouquecer, mas a realidade da possibilidade de realização do homem branco tem várias ferramentas que distorce. Nisso muitos de nós vivem como Pombos, nos centros das cidades, vistos como pragas, sujos pelo resultado da função que exercem em subempregos, chapeiros, entregadores de panfletos, porteiros, quem cuida da limpeza, e por isso recebem pagamentos que parecem migalhas, como os pombos.

16468666_1248909468532624_526505322_nNo Movimento Hip Hop é impossível fazer algo sozinho, né não? Fale sobre os envolvidos na produção do A Rotina do Pombo, quais as participações especiais e por que o álbum ficou cinco anos em processo de criação.

Apesar de achar muito importante o máximo de autonomia em sua produção artistica, conseguir dominar o máximo possível diversas etapas do processo, o fazer coletivo para mim nunca vai deixar de ser a parte mais bonita da nossa cultura. Quando comecei a produzir esse disco há 5 anos atrás, chamei os irmãos da banda Amplexos que estavam fundando o QG Portátil estúdio, que depois se transformou no Espaço Casa, para produzirem comigo porque eles eram meus amigos e faziam músicas que eu gostava, essa colaboração poderia gerar algo fora do lugar de conforto não só nosso, mas da cena que estávamos inseridos, e assim foi o esforço que durou esse tempo todo respeitando as mudanças que todo mundo tem durante a vida, fomos gostando de novas coisas, deixando de gostar de outras e isso se refletiu no disco e nas influências que realmente vieram e ficaram em nós durante esse tempo.

No disco eu escrevi muito dentro de um personagem, e sempre que convidava um outro MC era pensando que ele tinha propriedade para contar a historia sobre a ótica de outro personagem, são todos meus amigos e pessoas que tenho um certo grau de convivência. Quando não pessoal, tenho com a obra!

“Busca sua raiz, ou morra pela raiz.” As religiões de matrizes africanas são temas constantes nas suas músicas, principalmente no seu belíssimo EP Filhos de um Deus que Dança, de 2016. O que a Umbanda significa para você? Como a religião entrou na sua vida?

A Umbanda surgiu para mim como uma ponte para elementos da cultura africana e afrobrasileira que eu ainda não tinha tido acesso, me levando ao candomblé e tantas outras pontes. Ela também me deu resposta a algumas experiências espirituais que eu vinha tendo mas não entendia.

Essa experiência com a Umbanda se deu após uma experiência de fragilidade da minha saúde muito forte, que desencadeou em uma sequência de fatos inacreditáveis que, se pá, um dia viram um livro.

“Diplomas para preto, número crescendo, progresso para nós, porque merecemos.” Esses são os versos da música Quem é o inimigo?. Como é ser preto universitário no Brasil?

O Rincon foi muito feliz nesse verso, assim como foi na música toda e vem sendo em tudo que produz! A minha experiência na universidade é a pior possível, eu curso uma faculdade de pedagogia onde até o ano de eu me formar pouquíssimas vezes as questões do povo preto são colocadas em pauta de forma aprofundada, mas é fato que é importantíssimo ocupar esses espaços para que no futuro possamos deixar essa situação um pouco menos constrangedora.

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Em entrevista para o programa Provocações, o rapper Dexter, disse que o Hip Hop foi vital para que ele se tornasse um leitor. Na sua live no facebook você fala que não consegue se ver como um pedagogo, mas sim como um Griot, um sábio que preserva e transmite conhecimentos através da música e da oralidade, já a música Pedagoginga é inspirada no livro Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem, de Allan da Rosa, que trata das vivências em seus projetos educacionais nas periferias de São Paulo. Qual a importância da Educação Popular e do Movimento Hip Hop para as periferias?

A educação que eu acredito hoje vem dai, desses protagonistas marginalizados, o Allan é um oásis de possibilidade para gente por que ele entra na academia e sai de lá sem ter perdido o senso da realidade dos pretos e pobres. O Hip Hop também tem vários desses que atuam de diversas formas, humanizando e trazendo possibilidades de aquisição de conhecimento útil ao nosso povo de uma forma muito sagaz, são fundamentais!

O vídeo clipe da música Amigo Branco, de 2013, me lembrou o documentário Olhos Azuis, que retrata os workshops feitos pela professora e socióloga Jane Elliott, com o objetivo de colocar pessoas de olhos azuis na pele de uma pessoa negra por um dia. Seria louco se racismo realmente se invertesse, ao menos por um dia, não é?

Não tenho essa vontade, apesar de saber que talvez fosse uma ferramenta, o que no clipe foi uma ferramenta artística. O racismo vem do ódio e o ódio faz muito mal para quem o carrega, eu quero muito que a situação de reverta sem que o meu povo se torne um “odiador” ativo, porque somos odiadores “passivos”, à medida que fica difícil não nutrir esse sentimento em diversos momentos com tanta merda que o homem branco pratica contra a gente, e ai reagimos!

Primeiro álbum lançado, e agora o que vem pela frente?

Esse disco foi muito intenso e eu tô muito cansado, não quero cair nesse ritmo que o mercado impõe hoje porque acho que é muito culpa dele deixar as coisas tão fugazes e pouco se absorve do que foi produzido e lançado. Então muito do que vai acontecer vai vir do sentir sobre como esse disco está sendo recebido e quais são as necessidades, quais são as pautas que eu, como artista, serei útil em produzir algo como contribuição, é o lance de abrir a boca só quando você tem algo a dizer. Tenho um disco ao vivo gravado e pronto para ser lançado, alguns clipes produzidos que quero entender se faz sentido lançá-los e tô ai completamente dedicado a voltar às escolas e fazer o meu melhor possível como Griot.

Ouça o álbum A Rotina do Pombo na íntegra

edmar-neves

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3 comentários sobre “Em entrevista, Thiago El Niño fala sobre seu primeiro álbum ‘A Rotina do Pombo’

  1. Pingback: Disco da Semana: Thiago Elniño prova que a rotina é mais nociva do que imaginamos | Na Mira do Groove

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