Milton Hatoum fala sobre o processo de constituição do livro ‘Dois Irmãos’ e suas relações editoriais

Halim (Antonio Fagundes) na minissérie Dois Irmãos. Foto: Divulgação/Globo

Halim (Antonio Fagundes) na minissérie ‘Dois Irmãos’. Foto: Divulgação/Globo

Por Claudia Maria de Serrão*

Exibida de 9 a 20 de janeiro de 2017, Dois Irmãos pode ser considerada uma megaprodução: com direção geral e artística de Luiz Fernando Carvalho e escrita por Maria Camargo, a minissérie estava prevista desde 2007, com o início do Projeto Quadrante, sendo retomada somente no início de 2013. No entanto, os atritos entre os gêmeos Yaqub e Omar se delineavam desde o início da década de 90, época em que o já premiado romancista Milton Hatoum passava a se debruçar sob a concepção da obra publicada pela Companhia das Letras na virada do milênio.

Em 2015, ao iniciar meu mestrado em Estudos da Literatura na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura, encontrei no romance a oportunidade de analisar em detalhes a relações dos autores com o mercado editorial e as ligações que a circulação de um livro pode ter com gestão de figura do autor. Logo percebi que o material coletado em sites não seria o suficiente para atender minhas inquietações sobre a constituição do livro, de modo que a necessidade pela entrevista com o autor ficou evidente.

Então, após o esforço inicial para entrar em contato com o autor, lá estávamos em uma tarde de 2016, numa cafeteria perto de seu escritório na região de Pinheiros, São Paulo, entre goles de café e conversas ao redor, com Hatoum me contando sobre sua trajetória como autor e sua relação com seu livro mais vendido:

Milton Hatoum (Foto: Victor Dragonetti - Acervo Itaú Cultural)

Milton Hatoum (Foto: Victor Dragonetti – Acervo Itaú Cultural)

CM – Quando você publicou seu primeiro romance, como foi à sensação? Como conheceu os editores da Companhia das Letras, como foi sair de Manaus, ter a publicação e circulação de “Relato de um certo Oriente”, a trajetória em si da publicação do livro “Dois Irmãos” em 2000, dez anos depois. Como foi ter o êxito desses dois romances?

MH – O maior êxito para um escritor é ter leitores de boa qualidade. Morei em São Paulo toda década de 1970, me formei em arquitetura na USP, depois passei quatro anos na Europa e voltei para Manaus no fim de 1983, quando comecei a dar aula na Universidade Federal do Amazonas. Escrevi o “Relato de um certo Oriente” à mão, entre Barcelona, Madri, Paris e Manaus.  Depois datilografei e o terminei em 1986 ou no começo de 1987. Tempos depois, recebi um telefonema de um editor, era uma editora científica com uma linha editorial em literatura; e o editor perguntou se eu tinha algum manuscrito, pois a Nélida Piñon tinha falado para ele que eu escrevia contos… Eu tinha mandado meus contos para Nélida nos anos 1970, quando eu morava em São Paulo. Ela se lembrou desses contos e falou com ele. Bom, ele me ligou e se interessou pelo manuscrito do Relato, que eu mandei pra ele. Mas não me deu mais resposta. Em 1988, ganhei uma bolsa da Fundação Vitae, sediada em São Paulo. Eu morava em Manaus, dava aula na universidade e vim a São Paulo para saber como era a bolsa, conhecer as pessoas, rever amigos.. Foi aí que o editor da Companhia das Letras, o Luis Schwarcz, como bom editor, quis saber quem tinha sido contemplado pela Fundação Vitae. Perguntou se eu tinha algo inédito e eu mencionei um manuscrito que estava numa editora do Rio de Janeiro, mas que não havia dado nenhuma resposta. Aí ele me disse que tinha interesse nesse texto. Liguei para editora do Rio, o editor já tinha saído de lá, mas o livro estava no prelo. Preferi editar meu primeiro livro pela Companhia das Letras, que publicaria todos. A Maria Emília Bender, que era editora da Companhia, fez um parecer positivo sobre o manuscrito e a editora decidiu publicá-lo, não em 1988, mas no ano seguinte (1989), e foi assim que começou. “Relato de um certo Oriente” ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance e foi traduzido em várias línguas. Tudo isso foi inesperado.

CM – E depois?

MH – Eu ainda morava em Manaus, onde comecei a escrever o “Dois Irmãos”. Em 1998 vim a São Paulo para fazer doutorado na USP, sob a orientação do professor e crítico literário Davi Arrigucci Jr. Cursei algumas disciplinas, mas estava embalado na escrita do “Dois irmãos”. Falei ao Davi que iria largar o doutorado e mudar minha vida, não queria mais ser professor, queria ser escritor. Aí comecei a dar palestras, cursos e a publicar artigos em revistas e jornais.

CM – Eu me lembro que em algumas entrevistas mais antigas você diz que algumas pessoas leram os manuscritos de Dois Irmãos antes de ser publicado. Você fez alguma mudança em relação ao livro depois de uma pessoa opinar, falar, pedir pra mudar isso e aquilo… ? Como foi isso em Dois Irmãos?

MH – Sim, meus editores leram com atenção… Raduan Nassar, Davi Arrigucci Junior e Ruth Lanna também leram o manuscrito. São grande leitores e todos deram ótimas sugestões. Mudei muitas coisas, principalmente a posição do narrador, que parecia um pouco distante do drama familiar. Deu trabalho porque a mudança do tom e da posição do narrador influi em outros aspectos da narrativa. Aliás, influi em tudo…

CM – Você acha importantes essas opiniões?

MH –Importantíssimo. A leitura dos editores é fundamental. A compreensão de um editor em relação ao original é a de um leitor privilegiado. Ele pode questionar certas passagens, personagens e cenas, pode dizer em que momento o romance é muito longo, pode apontar falhas, dar sugestões de cortes ou acréscimos… Pode ter uma visão geral e ao mesmo tempo minuciosa da narrativa. O trabalho de edição da Companhia das Letras é criterioso. Você fica três, quatro ou cincos anos lidando com o manuscrito, reescrevendo, etc. Essa solidão é necessária, mas sufoca um pouco. No fim, alguém tem que dar uma opinião. As sugestões dos editores e amigos foram importantes para “Dois Irmãos” e também para o “Cinzas do Norte” e “Órfãos do Eldorado”. Nesses dois últimos, o Samuel Titan Jr., um grande tradutor e professor de literatura na USP, também deu ótimas sugestões.

CM – E sobre seu processo criativo? No caso do “Relato…”, você o datilografou, “Dois Irmãos” também passou por esse processo?

MI – Todos os livros foram escritos à mão. A partir do “Dois Irmãos”, comecei a passar limpo no computador. Mas eu imprimo e corrijo as versões…

CM- E como você lida com os meios digitais: utiliza o celular, conversa com seus leitores por alguma plataforma, usa as redes sociais?

MI – Eu não tinha Facebook até semana passada [a entrevista ocorreu no começo de junho de 2016]. Eu criei um Facebook, mas lá já tem vários que criaram, tem uma homepage sobre “Cinza dos Nortes”, outra sobre “Dois irmãos” […]. Agora, tenho o meu. Poucas postagens, apenas as crônicas do Caderno 2. Futuramente, vou escrever sobre livros, os romances que mais me impressionaram…

CM – E seu site, como você gere?

MH – Uma pessoa cuida disso, mas não sei o andamento. Há muitos ensaios, teses, dissertações, entrevistas, resenhas, críticas, artigos publicados em outros países.

CM – E quando você participa de eventos, feiras, você sente ali certa representatividade com o público? Como você sente sair do seu cantinho de escrita para participar desses momentos? 

MH – Eu tenho ido cada vez menos a feiras de livros e festivais. Primeiro porque ando cansado de viagens. Viajei muito pouco ao exterior, tudo isso é cansativo. Quando vou, quero falar de literatura, não quero falar da miséria e da violência brasileira, do momento político, embora isso seja importante. Em feiras de livros ou festivais de literatura acho importante falar de literatura. Claro que algum comentário pode passar pela política, pelo quadro político, e aí é inevitável falar da minha experiência. Mas de modo geral, prefiro falar da importância da literatura, da formação do leitor, uma questão importante no Brasil, país de poucos leitores… Quer dizer, poucos de bons leitores, se a gente considerar a população brasileira. Tenho recusado muitos convites para ir ao exterior. Estou privilegiando meu quarto (risos). Quando eu era mais jovem, viajava bastante, mas hoje prefiro ficar em casa, lendo e escrevendo. Numa conferência, Jorge Luis Borges disse que a velhice tem que ser a suprema solidão.

CM – E sobre seus leitores? Como você percebe seus leitores de “Relato…” em 1989 para agora em 2016? Que leitores são esses?

MH – Acho que houve uma mudança em relação ao lugar e à importância da literatura. Em 1989 ainda havia bons suplementos literários. Hoje, a impressa tá privilegiando a imagem e o entretenimento. Literatura não é apenas entretenimento, não é apenas diversão. É um dos modos de ver o mundo de forma complexa, oblíqua, e não direta. Você inventa um narrador, um mundo paralelo, um microcosmo mais ou menos autônomo. A literatura exige reflexão, não se pode ler um bom romance numa praia, sob um sol inclemente… Levar um livro de Marcel Proust, Faulkner, Virginia Woolf e ler na praia, no meio do barulho… Ao menos que seja uma praia meio deserta… O espaço dedicado à literatura diminuiu bastante, sobretudo nos últimos anos, quando foram fechados os suplementos literários. O último foi o Prosa e Verso do Globo.

CM – E como você lida com seus textos em outros suportes? Recentemente tivemos o HQ de “Dois Irmãos”, o filme “Orfãos do Eldorado” e mais adiante “Dois Irmãos” com direção de Luiz Fernando Carvalho.

MI – Fábio Moon e Gabriel Bá são de um talento incrível…. Levaram quatro anos para fazer a adaptação em quadrinhos. Eles foram a Manaus, andaram pelos lugares de “Dois Irmãos”, e a gente conversou algumas vezes… Mostrei a eles meu álbum de família. É muito difícil ter que escrever e ao mesmo tempo desenhar. Há silêncios importantes, as primeiras páginas não têm palavras, só imagens… Há páginas sem palavras, passagens que são importantes. É o grafismo, o desenho que se comunica com o leitor. Juntar palavra e imagem e dar sequência a isso é também uma questão. Como resolver graficamente a sequência das páginas?  Eles já tinham conquistado o Prêmio Eisner (nos Estados Unidos) pelo DayTripper, e agora com “Dois Irmãos” foram indicados para prêmio de adaptação (por qual ganhou também). O livro fez grande sucesso de crítica nos Estados Unidos, França, Itália […].

Imagem da adaptação do livro Dois Irmãos em quadrinhos, por Fábio Moon e Gabriel Bá (Companhia das Letras, 2015)

Imagem da adaptação do livro ‘Dois Irmãos’ em quadrinhos, por Fábio Moon e Gabriel Bá (Companhia das Letras, 2015)

CM – Você ficou feliz?

Sim, gostei muito da versão em quadrinhos. Em relação à minissérie, sempre admirei o trabalho do Luiz Fernando de Carvalho. Ele é muito talentoso, adaptou para o cinema o “Lavoura arcaica”, o romance sofisticado, denso e intimista de Raduan Nassar. E ele vai fazer um belo trabalho… A roteirista, minha amiga Maria Camargo, conhece o livro por todos os ângulos. Para entender a passagem do tempo, é preciso desmontar e reconstruir inteiramente a narrativa. Maria fez isso com o “Dois irmãos” e reconstruiu um outro arco temporal, que é o tempo da sequência das imagens, o andamento próprio da linguagem cinematográfica. Sei que alguns leitores acham que há uma defasagem intransponível entre a literatura e o cinema, entre a palavra escrita e o audiovisual… São linguagens muito diferentes, e devemos assimilá-las separadamente, examinando as convenções de cada uma. Mesmo assim, essas linguagens dialogam entre si. É um diálogo secreto, ou estranho, como duas pessoas que falam línguas bem diferentes e, no fim dessa conversa, elas entendem a essência do que estão sentindo… Às vezes duas pessoas se conhecem pelo olhar, e o cinema e a literatura privilegiam o olhar, que é também um atributo da imaginação…

CM – Obrigada pela entrevista, Milton.

MH – Eu que lhe agradeço.

*Claudia Maria de Serrão é a pesquisadora responsável pelo projeto de mestrado “O processo de constituição do livro Dois Irmãos: uma análise da paratopia criadora de Milton Hatoum”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) e em andamento pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura (PPGLit/UFSCar) desde 2015.

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2 comentários sobre “Milton Hatoum fala sobre o processo de constituição do livro ‘Dois Irmãos’ e suas relações editoriais

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