Santiago Santos: Almoço e sobremesa no Spiramo

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Já falou com ela, Biriba? Já disse que vai chegar chegando?

Calma, Boca. Eu gosto de falar em cima da hora. Eu gosto de saber que ela tá mandando um puto qualquer pra casa, nem que seja no meio do serviço, que tá se arrumando todinha pra mim e que quando eu chegar ela ainda vai tá geladinha do chuveiro.

Biriba acena pro garçom. Ele se aproxima, serve mais vinho na taça.

Eu gosto demais daqui. Por mim almoçava no Spiramo todo dia.

Quem dera. Podiam marcar todas as reuniões aqui.

Não. Aí estragava. Isso é um refúgio. Boca, já viu aquele bando de gente reunida ali na frente?

Vi sim. Fica dando trela não, nem olha. É o pessoal das reservas. Tá vendo algum índio ali? Não tinha que ter índio ali? Não sei como não começaram a gritar ainda. Logo chegam as equipes da TV. A gente pede um táxi, saímos pela entrada dos funcionários. Peço pro motorista tirar o carro quando o povo for embora, não quero problema.

A votação desse negócio das reservas indígenas é amanhã?

Segunda-feira, Biriba. Tá perdido? Semana que vem.

Tá pesando a relatoria?

Peso nenhum. Quem vai peitar o ministro? Quero dizer, dos que se arriscariam. Ele tá completamente investido nisso. A oposição vai fazer o trabalhinho de casa, mas o grosso não vai perder o trem.

O ministro ainda não conversou com o meu partido, Boca. Quero desenrolar aquela isenção pra produtor pequeno em Goiás, ver se ele pode ter algum peso no estado.

Sei não, Biriba. Mesmo que a tua gente toda fique contra, vai passar. Tem que jogar esperto. Olha aí. Tá ouvindo? Começaram a gritar. Povo não tem o que fazer, né, convenhamos, pleno almoço de terça, esse solão na cabeça, e tudo ali tostando a bunda no asfalto.

Boca acena pro garçom. Um cheesecake de morango, por favor.

E o senhor vai querer algo?

Não, brigado. Tô de dieta, viu, Boca. Esse docinho depois do almoço tá no meu cardápio mais não.

Biriba, meu pai tem diabetes, minha mãe tinha também. Minha glicemia sempre foi baixa. Eu como doce, não como muito, mas como sempre. Acho que é isso que ajuda a controlar. Tem um pessoal que enfia o pé. Aí assusta. De levinho é que cê ganha o jogo.

Tem nada de levinho nessa pança aí.

Mas a saúde é de ferro, caralho.

O garçom volta com o cheesecake. Pedem a conta.

Dá licença que vou ligar aqui pra ela enquanto cê come, Boca. Oi. Oi, coração. Como é que você tá, minha linda? É, é? Que bom. Escuta. Tem um horáriozinho pra mim? Tô com a agenda apertada essa tarde mas consigo passar aí em quinze minutos. É? Não, não sei. Me conta. Meu pai do céu. A de rendinha? Claro. Claro. Daqui a pouquinho eu tô chegando. Não vai me deixar esperando na porta, viu. Vou sim. Beijo, coração.

Você arrisca demais, Biriba. Se eu saio dum almoço desse prum rala eu tenho um troço.

É o cheesecake, Boca. Saber dosar. Uma tacinha a menos, corta a sobremesa, economiza na entrada. Aí sobra espaço pro resto. De levinho é que cê ganha o jogo, não é?

Ronaldo, a gente vai sair pelo fundo hoje, viu. Tá aquela torcida aí na frente. Isso, pode ligar. Vamos esperar. Certo, avisa. Já tá aí, o taxista? Olha, Biriba, o rapaz acabou de deixar um cliente. Que maravilha. Quer dividir?

Pode ser. Mas ele vai ter que me deixar lá antes. Algum problema?

Não, problema nenhum. Tô com pressa de voltar pro gabinete não. Já deve ter um bolo de gente por lá também.

Beleza. Opa, rapaz, tudo bom? Esse endereço aqui, ó, na tela. Pisa fundo que tô atrasado.

Quando chegam, Biriba paga a corrida e desce. Boca pede pro taxista esperar. Biriba mal pisa na escadinha da entrada da casa, a mulher abre a porta, vestindo uma sainha curta com a cintura alta cravada na própria cintura fina, uma blusa decotada recortada acima do umbigo. Sorri, o cabelo cacheado solto, salto alto, batom na boca desenhada.

Biriba filho de uma puta, murmura Boca, pensando que o amigo achou a prostituta mais escultural de Brasília.

Puta merda, diz o taxista. Que que é isso, hein, doutor, que avião. Caramba. Ca-ram-ba.

Boca pega o celular, manda uma mensagem cancelando seu encontro à noite com a prostituta das últimas semanas.

Fecha o bico aí, meu filho. Só dirige. Toca pra Câmara.

santiago santos

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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