Aline Bei: meu jeito de entender

meu-jeito-de-entender

numa festa

um homem veio conversar comigo. estávamos na porta do banheiro, esperando, e nesses momentos parece que o silêncio é algo rude demais, conversar sobre qualquer coisa se torna uma necessidade,

se proteger nas

palavras, qualquer coisa menos deixar que esse silêncio contamine,

quando ele

contamina

é tão forte que nasce uma pedra, vamos ficando mudos, as pessoas acham que é

timidez mas

é o peso

dos silêncios passados, é preciso não deixar que se chegue nesse ponto, principalmente em relações rasas como são os encontros sociais.

era uma festa de noivado, aquilo,

então  o homem começou a

reclamar do Casamento, ali na porta do banheiro, falando que pessoas jovens deviam fugir

disso, dos noivados, as pessoas jovens tinham o direito de

viver. fazer viagens,

gastar dinheiro

com viagens de barco também

porque nada é como o mar, ele disse, nem o céu.

vi uma aliança no dedo dele. perguntei:

 

– você se arrepende de ter casado?

minha esposa está ali. – ele disse

dando um gole no whisky.

percebeu me olhando

que de fato eu perguntei querendo ter uma resposta, aquilo não tinha sido uma pergunta de roda de amigos.

ele respirou fundo.

me disse:

 

– claro que não. casar é bom, eu tô brincando. aquela mulher ali

é a minha companheira, por mais que tenhamos problemas

com ela eu não sinto só. a solidão é uma coisa terrível, sabe? eu não desejo pra ninguém.

 

aquilo me bateu de um jeito.

parecia que ele estava falando de algo que ele conhecia bem. fiquei pensando no que era solidão pra mim, no geral costumo dizer que

gosto dela.

aquela em que fico trancada no quarto por dias, escrevendo,

é boa, necessária.

não ter nenhum amigo que me ligue só pra perguntar como eu estou também não me faz falta, aliás um alívio. atender telefone me dá calafrios, isso

vem da infância.

quando eu era pequena

toda vez que eu atendia o telefone

era notícia de alguém que tinha morrido.

 

a vó morreu. não fala pra mãe.

tô indo praí.

 

que facada no estômago segurar uma notícia de morte.

olhar pra minha mãe

saber da morte da mãe dela e

não dizer nada.

Segurar, foi meu pai que pediu, afinal de contas eu era uma criança.

só consegui não dizer porque não olhei minha mãe nos olhos.

prever o tamanho da dor que ela sentiria foi

horrível.

vê-la chorando apoiada na parede

caindo no chão

foi exatamente do jeito que  imaginei.

tinha muita solidão ali na dor dela, só ela sabia o que era perder a mãe que a mãe dela foi.

eu

já quis usar

a palavra solidão

como título de um livro que acabei não escrevendo. eu só tinha essa palavra e mais nada, era um livro sem página pra ficar em lugar nenhum.

então me lembrei

da solidão que senti

outro dia

quando minha mãe foi viajar.

minha casa

finalmente ficou

muda, pensei que bom esse tempo, esse espaço

pra ser.

comi torrada no café da manhã.

a manteiga

estava rançosa.

lavei a louça mínima do meu café, nem precisaria ter lavado,

mas aquilo era a minha mãe em mim

sempre deixando a pia limpa.

pela janela eu vi as árvores balançando ao vento num pequeno barulho de folhas

que ouvindo dali, da pia,

a água da torneira era mais alta.

meu cachorro me olhava sentado, esperando alguma coisa. não posso te dar

isso que você espera,

só consigo dar

quando recebo e por hora

estou lisa.

esfreguei o nescafé grudado na xícara. pensei no dia

da morte da minha mãe, esse futuro que me assombra. pensei que

um dia minha mãe Vai morrer

e talvez

talvez eu esteja aqui pra ver isso.

não sei o que é pior, se é estar vivo pra ver isso e todas as coisas antes disso, entre, depois. ou se é não estar.

sem minha mãe em casa

eu tinha todo o tempo do mundo pra escrever

ler na sala

aproveitar o silêncio estendido pela casa toda

chamar o zelador pra concertar o cano e

transar com ele, por que não?,

pular em cima dele meu velho fetiche.

acabei assistindo um filme pornô. na sala, sem parede nenhuma pra proteger a minha intimidade. abri as pernas, estava de camisola ainda

e ficaria de camisola pelo dia inteiro.

era um apartamento comum no filme

e de repente um cara entrou em cena. ele mal falou hello e já se ajoelhou

para chupar a moça

segurou a perna

bamba dela

pela bunda, uma mão enorme, um pau enorme.

gozei 2 vezes. não baixei meu volume gemendo, gozaria mais 3,

4,

5, tudo era tão

vazio, minha mão, a buceta, meus líquidos. depois adormeci. quando acordei eram três da tarde, na tv 2 homens fodiam uma mulher de 4.

lembrando desse dia foi quando entendi

o que era a Solidão que o homem casado tinha me dito não desejar pra ninguém, foi aí

que eu liguei a palavra solidão ao dia que a minha mãe foi viajar.

eu posso morar sozinha, posso morar longe, morar fora, eu posso não voltar

nunca mais

que não vou sentir solidão, o problema é esta Casa quando minha mãe não está.

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s