A Teoria Vital de Carol S. & Bruno A.

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*Por Bruno Alves

– Eu toco este bar há sete meses  e te falo:  esta teoria funciona mesmo – disse Carolina Simone, dona do bar próximo da casa de Bruno A.

– Boto fé – respondeu Bruno.

– Não sei se bota mesmo, mas eu andei analisando diariamente a moçada e garanto: alimentos e pessoas podem ser estudados sob o mesmo critério. É simples. Tá vendo aquele cara ali? – e maneou a cabeça pro menino sentado ao balcão, o longo balcão prata e reluzente. – Pediu churrasco; filé no pão francês;  tá sempre agitado e falando falando. E aquela menina? – ela sentava com amigas numa mesa em frente a grande janela localizada no lado oposto ao balcão. – Salada de ovo; ovos mexidos e manteiga no pão. É uma menina legal, sempre tranquila e falando as coisas na hora certa. Não que tenha hora, mas é natural. Me ligo nela.

– Saco isso – disse Bruno A. E continuou sua linha de raciocínio: – Li algo assim no Yoga para Nervosos, do professor Hermógenes. Conhece? Sim, ele mesmo, um dos introdutores do yoga no Brasil, um fodido e tal. Disse existir alimentos aceleradores dos nervos ou calmantes.  E bife  é um dos aceleradores. Levedura de cerveja é calmante.

– Isso! – precipitou Carol S. – continuou animada: – Porei um disco pra gente; tira um chopp aí pra mim, quero ver se esse negócio acalma mesmo hihi – no fundo do bar colocou “Certa Noite Acordei de Sonhos Intranquilos”. Sim, Otto na vitrola.

 Bruno tirou o chopp e se dirigia para a calçada quando viu Carolina Simone se aquecer num débil raio de sol atirado no meio da rua. Descansou o copo numa das mesas e se uniu a ela. Ambos  levantaram os braços e rodopiaram em torno de si de maneira a aumentar a superfície de contato entre o sol e seus corpos. Mas como num gélido gargalhar o raio sumiu e Carol S. voltou pra atender um cliente. Bruno A. paralisado no meio da rua:  domingo nublado, domingo ideal para estudar as pessoas sob o prisma alimentício.

Milo: eis o homem. Sopra sopra e improvisa. Leves devem ser as refeições. Milo é um jazzista amigo, conhecido no Glicério. Certo dia o vi no fundo dum bar qualquer da Sé, sacando um jazz qualquer. Tava lá, sozinho, sereno. Curtindo um jazz. Sinto falta disto nas pessoas de hoje. Apreciar a pausa. Curtir o jazz.

Jaques, esse é mais complicado. Segue a linha jazzística à sua maneira. Come de tudo. Ruma pelas ruas do centro ou do Tatuapé absorvendo tudo. Fala e fala. Ouve e ouve. Saca. Sua. Corre.

Um dia conheci uma menina. Maria. Sempre a fim de curtir uma natural. Tava sempre com um livrinho na mão e pelas tantas me disse “é fácil me reconhecer, eu to sempre lendo meu livrinho. Fico lá sentada e leio leio”. Ela se comunica de maneira real, improvisando e por isso vivendo. Nunca a vi comer. Achei graça quando nos encontramos. Cheguei na República e ela tava com a cabeça enfiada no livro. Me falou “oi”, nos cumprimentamos normal, e depois ficou meio calada e reflexiva. Em seguida me explicou que estava absorvendo o que lera. Eu também faço isso, mas fiquei na minha. Se animou e engatou um papo interessante e esperto. Como quando já sacamos o máximo do livro e estamos a fim de sacar a vida.

Foi com esses pensamentos que Bruno chegou à Roosevelt.

Mas em seguida os pensamentos cessaram. É que ele se lembrou de viver. É assim: pensamos. Certo. Impossível não pensar. Mas depois de pensar já estava aplicado, já tinha a base. A base para ele parar de pensar e apenas viver. Mesmo que a base não estivesse totalmente estruturada (na verdade ela nunca está), para ele é preferível viver e improvisar do que  tentar estabelecer a vida seguindo estritamente um pensamento preestabelecido. Nem sempre consegue.

A velha brisa no rosto, mistura de poluição com chuva fresca: São Paulo eu te amo como posso. (Nisso não pensou, sentiu.) A praça estava apinhada de gente. Foi recebido com alguns sorrisos e os retribuiu. Em seguida se encaminhou para onde se emanava uma música. Ele sempre se aprumava nesse sentido. Era um bar onde uma dupla de djs acabara de interromper a música! E TODOS continuaram a cantar “AMANHÃÃÃ VAI SER OUTRO DIA..”. Sim, ele continua na boca do povo.

Era uma festa! Todos sorriam e se tocavam numa comunicação real e direta, todos suavam sob o céu nublado e abraçavam-se. Bruno A. sorria e ao mesmo tempo chorava, abraçado com um rapaz e uma moça.

 Mas quando a cantoria terminou a dupla de músicos não manteve lá em cima e colocaram um triste samba; provavelmente Vampiro, na voz do próprio compositor: Jorge Mautner.

A turma não mais dançava, conversava entre si, incluindo a dupla de djs. Bruno tentou algum tipo de comunicação mas não obteve êxito, não estavam na mesma frequência. Então começou a murchar: um segredo e ninguém pra ouvi-lo. Ele estava com fome mas não comeu. Servia-se canapés.

Faminto encaminhou-se  praça adentro, desperdiçando o barato. Um homem nunca deve ficar animado e sozinho. Agora o tempo parecia frio, os rostos hostis, e Bruno A. morria e ressuscitava simultaneamente numa tentativa desajustada de manter sua coisa.

Reconheceu uma silhueta dentro da praça.

Eu pensava nela agorinha! Porra isso sempre me acontece – praguejou. Mas Maria o viu e se encaminhou em sua direção. Usava cabelo curto e mal penteado, e uma camisa social masculina socada num jeans sem cinto. Parecia um menino de 12 anos embora tivesse quase trinta. O triste Bruno Alves desesperou-se, mas decidiu ficar: “encontros são tão difíceis e ao mesmo tempo tão fáceis. Nunca acho que lhes tiro o melhor proveito. Que se foda, é melhor um encontro banal do que encontro nenhum”.

– Seus amigos tão tocando na porta do Lekitsch, eles são bem blasé – foi como a cumprimentou.

– Achei que você também fosse – ela respondeu.

– To pensando sem parar numa teoria que a Carol do Samambaia me disse hoje. Pessoas e comidas podem ser analisadas sob o mesmo ângulo.

– Haha, que estranho.

Bruno riu também e ficaram em silêncio, olhando para as sacadas floridas dos apartamentos frente à praça.

– Você ainda gosta de andar?

– Gosto – respondeu Maria. E começaram a subir a Augusta.

– Então meus amigos são blasé.

–  Sim. Pregam a revolução. Você sabe, a igualdade. Uma São Paulo e um mundo real, sem o estéril verniz dos gananciosos demais; vocês pregam a transcendência. Mas no final são uma dupla de djs, uma camisa no jeans sem cinto. Uma banda tocando pra vocês mesmos. Uma banda tocando pra plateia.

– Bru, sua plateia. Quando está entre os seus você faz o mesmo. Ou quando se enturma com os meus você se fecha pros de fora na primeira chance. Às vezes está tão ensimesmado e apenas se fecha. Não pode nos culpar pela geração na qual estamos metido. Pela esquerda desorganizada. Por sua solidão. Porque estamos sem rumo definido.  Conquistamos algum poder e não sabemos exatamente o que fazer dele, e além do mais estamos sempre na defensiva – foda-se –, ao menos FAZEMOS. E, metaforizando com essa teoria otária que você e a Carol S. inventaram: eu nunca o vi comer algo pesado por aqui. Eu nunca o vi morder com força. Está sempre com fome e esperando suas pequenas porções. A questão não é QUANDO comer, e sim O QUÊ comer. Uma escolha radical. Você é um escritor de domingo.

Estava certa, ele nunca comera de verdade. Petiscos e canapés –  experimentos -, tapas de um buffet condescendente. Ele estava faminto.

Distrações, afazeres. Isso não é desculpa. Na rotina dá-se um jeito. Ele ainda não tinha malícia pra caminhar num dia quente. Malandragem caudalosa sobre a terra árida pra comer seu doce na sombra. No deserto das ideias, escrever sobre o tudo e sobre o nada.

Subiram um longo trecho da rua sem dizer palavra. A velha rua percorrida com seus pais quando crianças. As brincadeiras com as putas, a procura por café e cigarros, os cinemas aos domingos. Agora eram estrangeiros. Talvez fossem estrangeiros em qualquer parte. E no entanto a juventude existe. E não porque estavam ali. Em qualquer parte do mundo pode-se andar e de repente passar num cine Itaú Unibanco e é um clássico filme em cartaz dentro de suas cabeças: Profissão Repórter ou Os Incompreendidos, não lembro, devo escolher. Se lembra daquela vez quando você sofreu uma convulsão chorosa ao assistir Adaptação sozinha numa madrugada e decidiu viver pela arte? E quando li On the Road e pensei ter um derrame mas na verdade descobria uma nova literatura? Quando descubro uma nova canção do Juliano Gauche alegro-me. Às vezes me perco em burocracias ou processos mentais. Em São Paulo, Berlim ou Cumuruxatiba jovens e velhos sensíveis procuram uma maneira de viver.

Bruno olhou Maria e percebeu que ela quase sorria.

– Tá com fome?

*Bruno Alves – Nas ruas de São Paulo busco minha fonte primária de conhecimento. Quando encontro sinto a iluminação: cultura é o que transforma o mundo. Integrante da Antologia Poética Prêmio Poetize 2017,Vivara Editora. Pós-graduado em Jornalismo Cultural pela FAAP. Medium: https://medium.com/@alvsbruno

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