Leia uma entrevista com os autores de ‘Serra, Serrinha, Serrano: O império do samba’

Record lança clássico sobre o Império Serrano, que é referência na história do Carnaval, na quadra da escola, no dia 18 de fevereiro, a partir das 14h; e na Travessa de Botafogo, no dia 20, a partir das 19h

unnamedPor Pedro Paulo Malta

No momento em que a música brasileira comemora o centenário de lançamento do primeiro samba de sucesso, “Pelo telefone”, o presente vem em forma de livro: a segunda edição – revista e ampliada – de “Serra, Serrinha, Serrano: o Império do samba”, obra de Rachel Valença e Suetônio Valença que refaz a história de uma das escolas de samba mais tradicionais do carnaval carioca: o Império Serrano. O lançamento, pela editora Record, atualiza em 36 anos a primeira edição do livro, publicada em 1981 e esgotada pouco depois, transformando-se numa raridade disputada a peso de ouro em sebos de todo o país.

Desde então, Rachel Valença seguiu acompanhando de perto a escola de seu coração, participando dos carnavais, anotando fatos relevantes e guardando heranças que recebia das famílias de antigos imperianos. Tocou na bateria, foi diretora cultural e vice-presidente em dois mandatos – após o mais recente (entre 2006 e 2010), sentiu-se pronta para se dedicar à nova edição do livro. Já sem a parceria de Suetônio (falecido em 2006), desengavetou seus alfarrábios, vasculhou arquivos de jornais e fez novas entrevistas para complementar as histórias já contadas e acrescentar novos fatos – como o histórico e profético enredo “Bum bum paticumbum prugurundum”, que valeu à escola alviverde seu título mais recente, em 1982, um ano após a primeira edição do livro.

E assim, nas 433 páginas da nova edição – mais do que o triplo em comparação às 129 originais – estão os “episódios relicários” dessa história: a começar pelo levante de sambistas do Morro da Serrinha (na Zona Norte do Rio) contra o autoritarismo do presidente da escola local, o Prazer da Serrinha. O resultado do levante é o próprio Império Serrano – fundado por aqueles dissidentes, em 23 de março de 1947. Uma história iniciada, à luz da democracia, na casa de D. Eulália do Nascimento, que aliás é personagem fundamental no livro de Rachel e Suetônio, com sua língua afiada, especialmente quando o tema é a principal rival do Império, a Portela, escola do bairro vizinho de Oswaldo Cruz.

A história também é contada através da atuação decisiva de outros personagens, como o pai-de-santo Elói Antero Dias, responsável por providenciar os instrumentos da primeira bateria da escola. E como o evangélico Silas de Oliveira, que terá que romper com os próprios pais para se tornar o maior nome da história do samba-enredo, como compositor dos antológicos “Aquarela brasileira” e “Heróis da liberdade”, este último em parceria com Manoel Ferreira e Mano Décio da Viola. E o que dizer da enfermeira Ivone Lara, que aproveitou o descanso no expediente do Hospital Gustavo Riedel para se tornar a primeira mulher a assinar um samba-enredo: “Os cinco bailes da história do Rio”, em parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau.

Entre os destaques da nova edição estão os boxes criados por Rachel Valença para contar, em primeira pessoa, suas inúmeras histórias no dia-a-dia do Império e os bastidores da pesquisa para o livro. Há também os perfis de personagens mais recentes desses 70 anos de história: sejam notáveis como os compositores Wilson das Neves e Arlindo Cruz, sejam ritmistas, casais de mestre-sala e porta-bandeira, baianas, serventes, passistas, vendedores de rua, destaques, torcedores, presidentes… Todos componentes fundamentais desta escola que, se nos tempos atuais não samba à vontade no carnaval das “Super Escolas de Samba S/A”, se orgulha como nenhuma outra agremiação de sua própria história.

Uma história que se aprofunda neste livro, que, como bem define o historiador Luiz Antonio Simas (no Prefácio à segunda edição), é “o melhor e mais completo trabalho sobre a trajetória de uma escola de samba no Brasil”.

SOBRE OS AUTORES

Rachel Valença nasceu no Rio de Janeiro em 1944 e é formada em Letras (UnB) e em Jornalismo (FACHA), com mestrado pela UFF sobre a retórica do samba-enredo. Foi pesquisadora na Casa de Rui Barbosa por 33 anos, doze dos quais como diretora do Centro de Pesquisa. Publicou, além de trabalhos na área de filologia portuguesa, Carnaval: pra tudo se acabar na quarta-feira (1996) e Carnaval: para saber mais (2003). Participou da equipe de elaboração do Dossiê das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, para registro, no IPHAN, do samba do Rio de Janeiro como patrimônio cultural imaterial, em 2007. Mantém uma coluna no site SRZD-Carnaval e integra o júri do Estandarte de Ouro desde 2015.

Suetônio Valença (1944-2006) graduou-se em Letras Clássicas pela UnB e, de volta ao Rio de Janeiro em 1972, trabalhou na equipe que, sob a coordenação de Antônio Houaiss, elaborou a Enciclopédia Mirador Internacional. Foi diretor de publicações da Fundação de Assistência ao Estudante e trabalhou no IPHAN, onde ocupou cargo de direção. Pesquisador de música brasileira, além de Tra-la-lá (1981, reeditado em 2014), escreveu Um escurinho direitinho: a vida e a obra de Geraldo Pereira (1995), com Luiz Fernando Vieira e Luís Pimentel. Na série Memória do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, publicou os livros Santiago Guerra, o maestro do Theatro; Hekel Tavares: popular e erudito; e Ida Miccolis: a diva e sua glória.

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Leia abaixo entrevista com Rachel Valença realizada por Pedro Paulo Malta.

Parceria Grupo Editorial Record e Livre Opinião – Ideias em Debate

Como foi reencontrar o livro de 1981 como uma obra em aberto, a ser atualizada? Imagino que você já tivesse em mente todos os pontos a aprimorar ou refazer…

Há muito tempo, desde que a primeira edição se esgotou, tenho o plano de atualizar. Por uma série de razões, o projeto foi sendo adiado, mas eu ia juntando material e criando condições para realizar a tarefa. A primeira edição abrange 33 carnavais: da fundação da escola até 1981. Esta segunda edição aborda os 36 carnavais que vieram depois e tem ainda a missão de atualizar e complementar o que já estava escrito. Porque de 1981 para cá muita coisa se publicou sobre o Império e sobre as escolas de samba em geral e as ferramentas de pesquisa se ampliaram.

Fazer pesquisa hoje em dia é uma tarefa que conta com facilitadores como o Google (mesmo que ele muitas vezes leve a informações erradas), mas antes não era assim. Qual a principal contribuição que as novas ferramentas trouxeram para “Serra, Serrinha, Serrano”?

Sem dúvida foi o acesso pela internet a jornais e revistas. Para a primeira edição gastei muito tempo na seção de periódicos da Biblioteca Nacional, lendo jornais das décadas anteriores que nem digitalizados eram. Copiava à mão, num caderno que guardo até hoje, os trechos que interessavam. Às vezes era permitido fazer cópia xerox, se o jornal estivesse em bom estado. Fiquei tão traumatizada que passei, desde então, a fazer clipping de noticiário sobre o Império Serrano e sobre carnaval em geral, para ter ao meu alcance o material de que iria precisar.

Mas na pesquisa para esta edição, com ajuda de ferramentas de acesso on-line a arquivos de jornais, pude preencher lacunas referentes aos primeiros anos da escola e até sobre o Prazer da Serrinha. Descobri, por exemplo, que seu Molequinho, aos 15 anos, ganhou um festival de sambas da escola de seu Alfredo Costa. Além da espetacular capacidade de liderança, que o fez fundar o Império anos depois, tinha desde cedo a veia de compositor.

Um dos charmes desta segunda edição são os boxes em que você faz uma espécie de making of do livro, com a autora dando vez à contadora de causos. Teve algum desses causos que te deixou particularmente emocionada?

A dificuldade de separar fatos e emoções já existiu na primeira edição. Quando nela narramos a vitória de 1972, não é um relato objetivo: estávamos lá, vivemos aquele momento espetacular, era impossível descrevê-lo sem emoção. Só que no período compreendido na segunda edição minha participação na escola se tornou muito mais intensa. Já não era só uma componente. Vivi com intensidade o cotidiano da escola e se tornava difícil separar minhas experiências pessoais da objetividade dos fatos. Poderia simplesmente deixar de lado essas memórias pessoais, mas cheguei à conclusão que elas são uma outra forma de contar como é de fato a escola, como é seu funcionamento, como são as pessoas. O leitor pode saber que Mano Décio, por exemplo, além dos lindos sambas que compôs, era aquele gentleman capaz de começar a gravação de nossa entrevista para o livro com aquela frase maravilhosa em que chama o apartamento acanhado de “mansão” e a pesquisadora de “encantada dama”… Ao escrever o livro, fui botando essas histórias em boxes para separá-las da narrativa objetiva e depois pensar o que fazer. Acabaram ficando assim mesmo.

Dos casos contados, o que mais me emociona é do carnaval de 1980. O Império lutava com dificuldade para pôr o carnaval na rua. Alfredinho e eu éramos responsáveis pela ala das crianças, a Ala Baleiro Bala. Foi muito esforço para conseguir vestir as 50 crianças. A fantasia era de saci e tinha, no figurino, um pequeno adereço de mão, um cachimbinho verde, que a criançada adorou. Mas não houve dinheiro para ele e na hora da entrega da roupa todos perguntavam pelo cachimbo. A decepção era visível e eu ia ficando muito triste. No dia seguinte, na concentração, um garoto chegou com os pais, que carregavam grandes caixas de papelão. Puseram no chão e começaram a distribuir os cachimbos de barro pintadinhos de verde. A esposa esclareceu que o marido passara a noite moldando e pintando os cachimbos porque vira a tristeza dos pequenos. Costumo dizer que este foi o momento em que eu entendi toda a grandeza do Império Serrano: aquele pai anônimo, com seu pequeno gesto espontâneo, mostrava de forma nítida o que era somar esforços desinteressadamente para que as coisas corressem bem. Até hoje me emociono quando falo desse momento. E ao longo dos anos, quando pessoas vêm exigir camisas, ingressos, convites para festas, troféus, honrarias, alegando o que fizeram pela escola, penso bem aqui dentro: este não é um verdadeiro imperiano, como era o escultor de cachimbos de 1980…

Além dos 70 anos de história do Império Serrano e, como pano de fundo, a história das escolas de samba nesse período, o livro nos faz acompanhar sua própria história, primeiro como imperiana, depois como pesquisadora/escritora e, por fim, como dirigente da escola e integrante da Velha Guarda. Fale um pouco da origem dessa paixão…

 É difícil falar disso. Não sou mística, por isso a explicação que tenho não combina comigo e parece falsa. Mas sabe a sensação que se tem ao entrar pela primeira vez num lugar e se sentir em casa? Assim foi com a quadra do Império quando cheguei lá em 1971, nos preparativos para o carnaval de 1972. A quadra era descoberta e o chão era de terra ainda. Eu não era de samba, morava na Zona Sul, bem longe dali, mas ao entrar me senti em casa. Estranhamente, pensei: Eu sou daqui. Isso não se explica à luz da razão. Ou talvez a explicação seja exatamente essa: há excesso de razão na minha vida, era preciso fugir de toda lógica para me sentir bem, muito bem. Estou na escola há 45 anos e tive muitas ocupações e atribuições: saí em ala por muitos anos, depois por 13 anos fui responsável, junto com Alfredinho, pela Ala das Crianças. Dali fui para a bateria, onde saí por 11 anos, submetendo-me ao rigor dos ensaios e da dura disciplina. Depois fui vice-presidente por dois mandatos e ingressei na Velha Guarda, lugar apropriado para a minha geração. Em todos esses momentos a pesquisadora estava presente, ela tem na cabeça um bloquinho de anotações e acumula fatos, frases ouvidas, prospectos de samba e gravações, se interessa por tudo que diz respeito à escola. Nem depois de terminar a segunda edição essa pesquisadora que mora dentro da sambista quer se aposentar…

Costumo dizer que o Império Serrano mudou o rumo da minha vida, deu a ela um sentido muito maior. Conviver com pessoas com trajetórias tão diferentes da minha e da das pessoas que me cercam foi maravilhoso. Vivenciar a democracia e seus efeitos foi fundamental para entender o mundo. E a cultura que ali encontrei é de uma riqueza impressionante: a música, a dança, a indumentária, a culinária, o respeito aos mais velhos e às tradições, a religiosidade, a forma de transmissão de saber, tudo me agrada. E uma quase ausência de hipocrisia nas relações pessoais, muito bacana. As coisas que devem ser ditas são ditas e depois se compartilha a cerveja…

Entre as singularidades históricas do Império Serrano estão conceitos que volta e meia são relativizados no mundo atual das escolas de samba, como o respeito pela democracia e a valorização dos elementos culturais de matriz africana. Bandeiras inquestionáveis, mas que talvez façam com que a escola fique deslocada no contexto atual, concorda?

De fato, esses são valores essenciais para a escola. Sem eles, não dá para imaginar o Império Serrano. Fico estarrecida quando alguém que diz amar a escola prega abertamente a ameaça a esses valores. No Império, são as pessoas que contam. E até os “golpistas”, que burlam as regras democráticas, precisam de legitimidade para se sustentar. Se não a tiverem, não se mantêm. Já vi acontecer muitas vezes. Nossa escola é uma celebração religiosa de matriz africana. Não há como negar nem disfarçar. Não há por que negar. Somos o Menino de 47, de Molequinho, de Elói Antero Dias, de Vovó Maria Joana Rezadeira, de gente negra, gente de ação e de fé, decidida e competente, que o transformou no Reizinho de Madureira. Não me espanta que o contexto atual das escolas de samba do Rio de Janeiro não abrigue uma escola com essas características. Quer saber? Não aprecio muito esse contexto, sou bastante crítica em relação a ele. Já no Império continuo sendo feliz. Lá ouço lindos sambas, e não apenas os antigos. Lá tenho uma bateria que me leva às lágrimas. Lá tenho Soninha Bumbum e suas filhas, passistas inigualáveis. Já tenho Iracema, destaque dos velhos tempos, e suas filhas, que levam a elegância a sério. Lá tenho Jamelão, que aos 70 anos faz passos de mestre-sala com desembaraço inacreditável, e tenho a querida Raphaela, que conheci aos onze anos e hoje é responsável pela apresentação de nosso pavilhão. Lá as baianas são alegres e numerosas, imbuídas de sua obrigação quase religiosa. Não me espanta que não haja espaço para o Império num contexto que pouco tem a ver com esses valores.

Como você imagina o Império Serrano daqui a 70 anos, no carnaval do longínquo 2087?

 Eu o imagino exatamente como é hoje: a maior e mais importante escola de samba do universo.

SERRA, SERRINHA, SERRANO – O IMPÉRIO DO SAMBA
Rachel Valença e Suetônio Valença
Páginas: 434
Preço: R$ 69,90
Editora: Record / Grupo Editorial Record

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