“As distâncias que se deitam”, cinco poemas de Salgado Maranhão

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ALQUIMIA
Para T.T.

Minha África está repleta
em mim. E é dela que acordas
minhas transparências; e é
dela que alago as tuas vinhas
e os teus mistérios.
Tuas minhas Áfricas são meu refúgio
desesperado; donde serei
teu posseiro de reentrâncias; teu
imperador de afetos.
E é assim que quebrarei
tuas ânforas de mel
para doar teu necta ao vento,
como quem parte um cristal
para torná-lo em ouro.

VULTO 1

Sozinho com os vampiros
e a madrugada,
ainda guardo
estas flores de pedra
(a noite é voraz,
mas a casa está fresca
para os colibris).
Rompendo as esquinas
e a largura das horas,
sou pouco mais
que um vulto
entre os bichos.
A cidade é um ganido
em meus ossos; a cidade
que me vende em retalhos. A mim
com meus desdobrados voos.
O tempo que me resgata
é surdo e não dói na carne.
O que dói é a vontade
aprendendo a sonhar.

ESTILETES

Tornaram-se estiletes,
no que eram brotos de chuva.
Agora,
brotam em qualquer parte —
em plena luz do dia.
Como um chão de navalhas.

NOZ

As distâncias que se deitam
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.

OS NEO-GATUNOS

A meu ver, essa laia de neo-ladrões que tomou conta do país,
teve início na era Collor. E é, normalmente, composta de políticos (mais
ou menos) jovens, esclarecidos e sedutores, que, emulando
o discurso da Esquerda (e a ele acrescentando cores próprias —
baseadas na urgência que os pobres têm por assistencialismo), apoderaram-se
dessa larga maioria de necessitados, para vender ilusões.
Ainda que narcísicos e loucos por luxo e ostentação ( com suas mulheres
bregas e arrogantes), seu principal prazer é, simplesmente, ROUBAR. Se O Ministério
Publico e a Polícia Federal não os tivessem flagrados, certamente, já teriam
vendido as paredes da Petrobras.
Isso justifica, em parte, os assombrosos valores subtraídos. E, ainda,
as ridículas desculpas, ancoradas em matilhas de advogados bem pagos e super
hábeis na arte de defender canalhas.
Puni-los, severamente, é uma questão de honra e de profilática pedagogia social,
suas vitórias sobre a honestidade e o bom senso, representariam um escárnio e um péssimo exemplo para a sociedade, sobretudo, para as novas gerações.

SALGADO MARANHÃO – Letrista. Poeta. Nasceu em Caxias, no Maranhão, em 1954, ainda adolescente, mudou-se com os irmãos e a mãe para Teresina.Escreveu artigos para um jornal local e conheceu Torquato Neto, que o incentivou a ir para o Rio de Janeiro, o que fez no ano de 1972. Estudou Comunicação na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Terapeuta corporal, foi professor de tai chi chuan e mestre em shiatsu. Publicou poemas e artigos na revista Encontro com a Civilização Brasileira (1978). Nos anos seguintes, publicou: Aboio (cordel/ Ed. Corisco -Teresina – 1984), Punhos da serpente (poesia/ Ed. Achiamé, RJ, 1989), Palávora (poesia – Ed. Sette Letras, RJ, 1995), O beijo da fera (poesia – Ed. Sette Letras, RJ, 1996), Mural de ventos (poesia – Ed. José Olympio, RJ, 1998), A Cor da Palavra (Editora Imago, 2010) e Ópera de Nãos (7Letras, 2015, vencedor do Jabuti). Os poemas selecionados foram extraídos da página oficial do poeta no Facebook.

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