Sol: rei sem reino. Por Natalia Ribeiro da Conceição

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Por Natalia Ribeiro da Conceição*

“Filho, vou te contar um segredo. Tem um quadro que eu comecei há quinze anos e ainda não terminei de pintar. Ele está pronto, aparentemente, mas eu sempre encontro onde melhorá-lo.” É o que diz Aurora ao filho, Benício, protagonista (ou próprio narrador?) de Eu Contra o Sol. Por mais que a ficção crie, ela não concebe como uma égua ibera. Ela fisga, como anzol, pedaços da realidade de quem escreve. Por isso, impossível não perceber na confissão de Aurora uma confissão do próprio Alex: se ninguém arrancasse esse livro das mãos obstinadas desse escritor obcecado, ele nunca o daria por terminado. Ele continuaria lixando e polindo as beiradas de uma narrativa redonda. Ele investiria a vida inteira, se fosse necessário, para dar à literatura esse romance-poesia. Eu me pergunto se o livro fosse ainda mais aprimorado (não vendo como isso poderia ser possível) haveria leitor digno e capaz de apreender todo o suor posto em cada frase (não há sequer uma frase a esmo nesse livro, não há gratuidade, não há concessão).

Alex é um ourives da palavra. E sabemos que quem escreve, escreve contra alguma coisa. Esse “alguma coisa” em Eu Contra o Sol, apesar da multiplicidade de temas (a rua é isso, um pulular de ideias), é justamente a linguagem. Alex contra a linguagem, escrevendo em prol da mesma.

Não à toa Benício foi escolhido para nos puxar (e por vezes nos repelir) para o mundo caótico de um jovem escritor que busca o que nem mesmo ele sabe, mas o faz chegando às vísceras da palavra. Benício é humano, demasiadamente humano. Um representante típico de uma geração que desconhece seus propósitos, que sai à rua, foge pela cidade, mas não vai muito longe e volta para o jantar. Benício é a busca de si mesmo, a busca de uma identidade que não cabe em nomes, nem em outras línguas. Para ser é preciso nomear? (Benício quer saber quem é, quer clamar sou, mas só lhe sai a palavra sol).

Tenho a impressão de que Eu Contra o Sol nos perturba tanto porque é espelho da nossa inércia; é a história da nossa perda de ingenuidade; é o caminho pelo qual crianças distraídas se tornam adultos com raiva; é sobre como, na busca por quem somos, nos perdemos de nós mesmos (ou de quem achávamos que éramos). É uma história de traição. Da cidade, da política, da família que nos violam, que deturpam nossas convicções. É uma história de como nós traímos a nós mesmos.

O escritor Alex Tomé

O escritor Alex Tomé

Ainda que lance mão de um tema tão atual, as manifestações de 2013, Eu Contra o Sol é entremeado de temas universais: o amor, o ódio, a traição, o sexo, o poder, a política… Isso corrobora ainda mais por seu estilão clássico. Um clássico de seu tempo que bebe de outros clássicos. Ora, Benício em pouco se distancia de Bento Santiago. A começar pelo nome, ambos evocam seres “abençoados”, pessoas de bem. E fato é que esses dois personagens jogam com essa imagem santificada, vitimizada (“Eu quase acredito neste seu personagem santificado”, diz Chico, amigo e mestre de Benício, em uma de suas conversas retóricas). Ambos amam uma mulher forte, quase etérea, e veem sua ingenuidade ser consumida aos poucos diante da imponência, da firmeza e da frieza que o feminino é capaz de evocar. Ambos são levados à beira da loucura pelas elucubrações de traição, embora em Eu Contra o Sol a terceira pessoa que narra é impiedosa e aponta, comprova e condena a traição.

Outro tema clássico é o complexo de Édipo, que marca ao longo de toda a trama a relação de Benício com o pai, o que justifica a própria literatura do jovem: “A única forma sincera de literatura é o parricídio”. Benício busca matar o pai se opondo a ele, negandose a reproduzir sua honra, seu status, seus planos (flahs de The Godfather e Lavoura Arcaica são inevitáveis). A melhor forma de fazê-lo é saindo às ruas, pois “quem está em casa é de outro tempo, quem está em casa é o pai”.

E saindo às ruas o leitor está no olho do furacão, vivendo a tempestade mental do impertinente Benício e o caos das massas. O caos dentro do caos. Como não se distrair, assim, da própria manifestação?

Mas Alex não faz concessões. Eu Contra o Sol é um livro engajado, a despeito da hesitação de Benício. Impossível não se incomodar com as contradições das cidades e com nossas próprias contradições após essa leitura. Certamente um livro-fantasma, que fica por dias sussurrando em nossos ouvidos coisas que preferiríamos não ouvir (“Quando foi que a arte perdera de vez sua capacidade de transformar, provocar, despertar?”, não, ela não perdeu).

Enfim, com mais de 790 palavras, eu mal tangi a complexidade e genialidade dessa obra (nem falei das poesias, nem falei de Júlia, nem de outras tantas mulheres implacáveis que afiam a narrativa…). Mas como conseguir uma síntese após apenas três (número padrão) leituras de um livro gestado durante dez anos? Como esgotar um clássico sendo uma leitora tão despretensiosa? Consola-me saber que os clássicos têm essa característica de serem eternos e inexauríveis.

Natalia Ribeiro, amiga de Alex Tomé,
amante de Eu Contra o Sol

*Natalia Ribeiro da Conceição nasceu em São Carlos (SP), onde cursa Engenharia Ambiental na USP. Publicou, em 2016, o livro Inconfidência Primeira pela editora Patuá. Entretanto é melhor leitora do que escritora.

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