Santiago Santos: Dos caminhos que levam a um puteiro suíço

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Demóstenes cansou de encarar o público pelo borrão da dedada, tirou os óculos, esfregou com a ponta da camisa. Um garoto tinha a mão erguida. O mediador indicou o garoto, pediu que falasse. A pergunta foi sobre os versos dodecassílabos utilizados na sua tradução de Shakespeare à revelia dos versos estritamente decassílabos do original. Uma resposta bem-humorada, revestindo o alto grau de intelectualidade com um termo chinfrim, descolado, e o mediador agradeceu a presença de todos, colaborou na salva de palmas e o acompanhou até o salão dos bastidores. Ali Demóstenes recebeu o abraço do curador do festival e elogios de outros participantes. Bebeu uma taça de água.

Carolina Antonieta, a poeta moçambicana, andava de um lado pro outro, cumprimentando os pares. Devia ter acabado de chegar do hotel. Fecharia a noite com a última mesa, dali a algumas horas, e trajava o de costume: um vestido reto estampado, sapatilhas e um colar enorme. Demóstenes trocou a taça de água por uma de refrigerante e se encostou na parede, perto de um grande totem com o cartaz do festival, o nome em destaque do vencedor do último prêmio Man Booker, o galês que só chegaria no dia seguinte e que todos aguardavam com um elogio. Ele também. Ainda não havia cruzado com uma única pessoa que não tivesse se apaixonado pelo livro.

Carolina demorou a encontrá-lo ali, afastado das rodas, sozinho, um pequeno camaleão da cor do totem de óculos pequenos e careca lustrosa. Se aproximou, cumprimentou-o com um aceno, disse que ele esqueceu as anotações no quarto. Ele disse que se virou, falando da recepção aparentemente positiva da conversa. Ela disse que não perderia a próxima por nada, mas não tinha mais estrutura para virar a noite explorando o quarto, o banheiro e a sacada do hotel, emendando um café da manhã obrigatório com a imprensa, um almoço dos artistas, uma tarde de autógrafos e a sua própria mesa, à noite. Precisava de um descanso. Culpou a idade; havia feito 50 no mês anterior; Demóstenes ainda faria 35. Ele disse que entendia, é claro. Alguém logo apareceu e a puxou pelo braço. Ele ficou ali por mais algum tempo, bebendo outra taça de refrigerante e prospectando uma cadeira de literatura brasileira em uma universidade de Barcelona antes de se retirar pro centro de Zurique.

O taxista, dono de um inglês perfeito, passeou pelo primeiro distrito, passou devagar na frente do Cabaret Voltaire, berço do dadaísmo, a pedido de Demóstenes, depois seguiu pro quarto distrito, onde o deixou no meio da Langstrasse. Ele andou pela rua, ignorou as plaquetas e os bares e os convites das prostitutas nas portas dos puteiros bem como bares com nomes estrangeiros. Quando viu uma placa em alemão, entrou. Uma loira com peitos siliconados fazia striptease no palco. Ele se dirigiu ao barman, perguntou em inglês se havia alguma das mulheres que fosse de fato suíça. Todas estrangeiras. Perguntou onde acharia uma. O homem lhe deu um nome. Demóstenes saiu, andou duas quadras, entrou no lugar indicado, pediu ao barman a mesma coisa. Ele apontou uma mesa com duas mulheres conversando, bebericando drinks rosados. Escolheu a da esquerda, de cabelos curtos. Saíram dali para um hotelzinho na esquina, ele pagou ao recepcionista, subiram, entraram no quarto. Ela ligou o aquecedor, começou a tirar a roupa. Demóstenes perguntou em inglês se ela gostava de ler. Ela disse que não muito. Importava? Ele balançou a cabeça.

Tirou a roupa também, deitou na cama. Pediu a ela que se deitasse, sob as cobertas. Ela pediu que tomassem banho antes. Ele disse que não faria nada. Ela perguntou o que faziam ali se não queria fazer nada. Disse que cobraria de qualquer forma. Ele concordou. Se aninhou no braço quente dela, pediu que mexesse em seus cabelos e cantarolasse algo que se cantava pras crianças dali. Ela disse que não era de Zurique, e sim de uma cidade pequena, mas mesmo assim cantou algo que, pelo pouco que Demóstenes sabia de alemão, parecia natalino. Ficou assim por mais de dez minutos. Trocou uma vez a música, percebeu pela metade que não lembrava mais a letra, voltou pra anterior.

Demóstenes pensou, olhando as paredes do quarto, a TV, a porta do banheiro, sentindo o cheiro de mofo do edredom, do perfume barato da mulher, da própria mulher, um cheiro de sabonete recém-usado, sentindo as unhas compridas rasparem o couro cabeludo, ouvindo a melodia infantil e os barulhos dos carros na rua, um grito ou outro de algum grupo de amigos ou dos porteiros dos bares ou de prostitutas provocando os clientes, sentindo o frio que se acabava sob a manta pesada, no que seu personagem, naquela mesma situação, faria depois do ano sabático, cansado dos prêmios e das palestras, procurando algum sentido numa rotina dedicada a glorificar seu curto passado. Demorou um bom tempo para sair da imersão, para se tocar de que era outro homem: um brasileiro, um professor, tradutor e escritor amador numa cama de Zurique com uma prostituta suíça de voz grossa, pelada, e uma ereção se fez visível, um calombo na colcha. A mulher fez um comentário sacana. Demóstenes pulou pro chuveiro e depois fez o que ela achava muito justo que fizessem pelo dinheiro investido. Quando saiu do hotel e a deixou no bar e tomou o táxi e voltou pro hotel e finalmente se deitou para dormir, depois de quase dois dias acordado, percebeu que na verdade o seu personagem não tinha nada que se envolver com uma prostituta suíça. Ele tinha era que participar de um festival literário em Zurique onde se envolveria com uma poeta moçambicana.

O resto da história descobriria quando acordasse no dia seguinte, depois de perder o voo, de conhecer o galês ganhador do prêmio e de reencontrar Carolina Antonieta no quarto, no banheiro, na sacada do hotel, e semanas mais tarde na cama de casa, em Salvador.

santiago santos

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