Não sou homem, não sou mulher. Sou humano! Por Mary Delphis

'As duas Fridas', de Frida Kahlo, 1939

‘As duas Fridas’, de Frida Kahlo, 1939

Por Mary Delphis*

Por que é tão difícil lidar com a nudez? Por que temos tanto estranhamento diante de um corpo nu? Por que julgamos as pessoas pelas roupas que usam? Por que temos medo de andar sozinhas à noite? Por que não conseguimos viver a vida que desejamos? Por que temos medo do homem que senta ao nosso lado no ônibus e nos olha com cara de “hum, delícia”? E por que não agimos? Por que ficamos paradas sentindo medo? Por que evitamos as discussões familiares carregadas de discursos machistas? Por que aceitamos que nos imponham comportamentos e modos de agir? Por que aceitamos ser violentadas com palavras por desconhecidos? Por que homens não sabem lidar com nossos “nãos”? Por que homens se revoltam e violentam mulheres que já não querem mais ser suas companheiras? Por que homens nos tolhem a liberdade de escolha? Por que nossos pais nos espancam para nos “endireitar”? Por que nossas mães reforçam que temos que ser “moças direitas”? Que conceito é esse de “moça direita”? De onde vêm a insegurança e o medo que sentimos apenas por sermos mulheres?

Nossos corpos são sexualizados desde a tenra infância por conceitos patriarcais arraigados ao inconsciente de nossos pais que, sem saber, reproduziram e seguem reproduzindo separações de gênero e repressões sexuais ao longo das gerações (me refiro aqui a toda a sociedade viva hoje e ao legado que os pais atuais receberam de seus ancestrais, sem questionar, e que seguem oferecendo a seus filhos os mesmos conceitos, novamente sem questionar, contribuindo para a manutenção do mundo violento em que vivemos hoje).

Quando nasce uma garotinha, os primeiros brinquedos são bonecas. Você, mãe, já parou para pensar que no que está instalando no inconsciente de sua filha ao dar pra ela brinquedos de “menina” e ensinar que garotas precisam cuidar dos “nenenzinhos”? Se a criança é uma menina considerada bonitinha (um misto de interações genéticas aleatórias com determinados padrões impostos durantes séculos), e se demonstra ser esperta e/ou inteligente, logo dizem “vai dar trabalho”, como se a vitalidade e inteligência fossem sinônimo de sexualidade e como se tal sexualidade fosse uma coisa ruim, a ser reprimida, que “dá trabalho”. Os próprios parentes implantam na tal garotinha a semente inconsciente do “você é mulher, tem que se proteger”, contribuindo pra que ela cresça insegura de si, de sua força, de sua inteligência e de seu papel enquanto ser social, privando essa futura mulher de olhar para si mesma com a segurança e força necessárias para escolher seu próprio destino, afinal, ela é uma moça bonita, inteligente e recatada, pra casar. Mas se a criança é um menino, logo dão a ele brinquedos de guerra, lutadores, hominhos, carros e jogos de montar, incentivando a criatividade e ativando em seu inconsciente a tomada de poder e de controle. Logo nos primeiros anos escolares essa separação feminino/masculino se torna evidente e os primeiros sinais de violência começam a aparecer. Reforçados pela mídia e cercados de estímulos separatistas, meninos não brincam com “coisas de menina” e “meninas não chegam perto de meninos”. Cada um no seu lugar, construindo com a ajuda de todos os instrumentos de controle possíveis (escola, televisão, família, instituições religiosas etc.) a noção de que o homem é mais forte, de que o homem é mais poderoso, de que o homem tem direito a ser livre, de que o homem é quem escolhe quem e o quê quer ser, de que o homem é o ser que cria, enquanto a mulher é colocada no seu lugar de mãe, doméstica e “ajudante” do supremo homem.

Violência sexual não consiste apenas em estupro ou tentativas do mesmo, violência sexual está nas palavras, nos olhares, nas pequenas ações. Quando seu amigo buzina pra uma mulher na rua, ou grita “elogios” pra uma mulher na rua como delícia, gostosa, ô lá em casa e tantos outros, se a mulher responde, se contesta, se mostra sua indignação diante de tal atitude, é “normal” que os homens fiquem nervosos, irritados, e sigam na violência justamente porque em seu inconsciente eles são a supremacia da raça humana, não conseguem admitir um não, não sabem lidar com rejeição, não aprenderam a respeitar o feminino, apenas a subjugá-lo, a colocar qualquer feminilidade à disposição de seus “poderes” como homem, e, então, desferem adjetivos como vadia, biscate, puta, afinal, uma mulher não tem o direito de não querer um “elogio” desses, “onde já se viu, você é mulher, deveria agradecer meu elogio, eu, que sou supremo macho alfa não admito que você não queira meu elogio, já que você não quer, toma a minha violência”. Quando um homem se indigna com uma mulher por ter lhe dito “não”, este homem é também uma vítima do patriarcado. A insegurança instaurada pela separação masculino/feminino atinge a toda a sociedade viva hoje, homens e mulheres, todos nós estamos doentes, inseguros e sem rumo porque não aprendemos a entrar em contato e respeitar a plenitude que habita cada um de nós: feminino e masculino.

Violência sexual não é praticada apenas por psicopatas desajustados, mas também e em grande parte (o que é assustador) por pessoas que se dizem “de bem”, pessoas de “boa índole”, “trabalhadores” que aprenderam desde cedo a subjugar outras pessoas com base em seu gênero, ou seja, mulheres sofrem abusos e violência apenas por serem mulheres, já que isso tudo não é um discurso mas sim um modo de agir e pensar que foi transferido geração após geração sem questionamento, e pior, sem o mínimo de compaixão (e não entraremos aqui na questão das transexuais que sofrem duplamente essa violência, primeiro por serem mulheres, e segundo porque, de certa forma, “ofendem” a masculinidade do universo patriarcal, e nem na questão da separação de raças, pois a violência que mulheres negras sofrem vai além do patriarcado, está carregada pela cultura escravocrata).

Quando eu era criança, meu pai decidia com quem eu podia me relacionar. Ele observava minhas amiguinhas de escola e opinava coisas do tipo “olha o tamanho da roupa dela” ou “essa menina é uma vadia, não é amizade pra você”. Eu tinha, 8, 9, 10, 11 anos. Graças à minha mãe e a toda a literatura que sempre tive acesso, aliado à minha própria capacidade de raciocínio, nunca concordei com tais afirmações, me revoltando inclusive muitas vezes, e, por isso, sofrendo as consequências na pele, em forma de surras absurdas, porque afinal, eu era a filha querida que precisava ser educada, e nunca jamais eu poderia pensar por mim mesma ou discordar do que o pai, “supremo provedor”, escravo do patriarcado, falava. Cresci e amadureci tendo que lidar com muitos traumas e revolta, com muitos sentimentos ruins que essas situações me inculcaram desde pequena. Mas hoje, essa revolta se transforma lentamente em força, força para ter paciência e ajudar a quem eu conseguir alcançar a abrir os olhos para a bomba atômica que chamamos de patriarcado.

A supremacia do homem sobre o mundo é tão antiga quanto ridícula. O nosso planeta, a mãe terra, é uma energia feminina. Tudo que está ao nosso redor respira e vive com energias femininas e masculinas. A negação da dualidade e a separação são as maiores estupidezes do ser humano atual. Enquanto homens machos provam que são machos com suas armas poderosas, bombardeando e matando a troco de petróleo, de terras, de água e de dinheiro, mulheres resistem. Mulheres são estupradas, espancadas, escravizadas e assassinadas, mas resistem. Resistem e seguem trazendo à vida os filhos desses homens. A energia masculina sem o reconhecimento de seu complemento – o feminino – é uma energia destruidora, que não se preocupa em coexistir, mas sim em dominar.

A maior inteligência de um homem é ter a humildade de aprender a abraçar sua identidade feminina. Porque sim, todos nós temos dentro de nós Yin e Yang, Masculino e Feminino, Criação e Destruição. Separar-nos de nós mesmos e negar-nos a identificação com todas as nossas facetas nos trouxe até aqui, agora, neste ponto em que vivemos, neste mundo cheio de violência e controle, em que são produzidos alimentos para matar a fome de todas as pessoas vivas, mas os homens donos do mundo preferem o lucro e jogam 40% no lixo; em que temos tecnologia para captar energia solar e eólica suficientes para toda a humanidade, diariamente, mas os homens no controle precisam lucrar; em que a exploração do outro poderia não ser uma realidade, mas a energia que circula não é de cocriação, e sim de destruição e controle.

Se queremos observar alguma mudança no cenário mundial, precisamos começar ontem, por nós mesmos e pelos que estão próximos. Enquanto não compreendermos a separação masculino/feminino que nos foi imposta ao longo dos últimos milhares de anos e nos abrirmos para abraçar as energias que nos habitam, nada mudará. Se queremos ser cocriadores de um mundo melhor, trabalhar em harmonia e observar as liberdades individuais sendo respeitadas, precisamos entender a união e a unificação, precisamos nos aceitar e nos curar individualmente, precisamos olhar para nossos filhos como seres sociais com potencial infinito de criar um mundo melhor, e não como garotinhos ou garotinhas que se vestem de azul ou rosa. Existem muitos modos de entrar em contato com nossa essência naturalmente dual e reconhecer as energias que nos habitam, para que possamos aprender a lidar com elas. Hoje, a ferramenta que encontrei foi a prática do Yoga e a meditação. Se alguém se interessar por seguir essa jornada de autoconhecimento e autocura, estou à disposição para ajudar no que eu puder e indicar ajuda. O ponto aqui é reconhecer a energia que cada um de nós está manipulando e aprender a se conectar com a essência que rejeitamos antes mesmo de sabermos que existia.

A cultura patriarcal é real, está acontecendo agora, é uma máquina de destruição e só poderá ser modificada com muito amor e paciência por parte de todos, e principalmente, por meio do autoconhecimento e autoaceitação. Qualquer mudança começa dentro, e é de dentro pra fora que vamos conseguir deixar de sermos homens e mulheres para que possamos nos reconhecer como humanos e irmãos.

Deixo este vídeo como ponta pé inicial, em que o educador paquistanês Ziauddin Yousafzai nos lembra que mulheres e homens precisam de oportunidades iguais na educação, autonomia e independência.

*MARY DELPHIS – Mariana de muitos nomes, a imprimir com tintas policromáticas devaneios mornos. Meio mulher meio peixe, meio homem meio touro, sabe-se mente e trabalha para manter-se corpo.

Texto publicado em cérebro-nuvem

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