Santiago Santos: Matias É Um Bom Companheiro

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Roberto Cardoso, 49
Quando o Matias apareceu no rio, o seu Dorival quase morreu de susto. Ele tava preparando o bote pra pescar e o cachorro dele, Piquito, tava brincando no rasinho. De repente um tubarão avançou do fundo, tentou abocanhar o Piquito e o cachorro de muito abençoado que só é que fugiu da dentada do bicho, que encalhou. Seu Dorival ficou doido, pensa, tubarão no rio. Inda pulando pra fora da água. Foi dar uma remada na cabeça dele mas nessa hora, sabe-se lá por quê, o seu Dorival achou que tinha que alimentar o bicho, não matar, então deu todos os mussuns que ia usar de isca e empurrou o Matias de volta.

Jandira Souza, 37
O Matias começou a aparecer sempre na mesma hora. É. Ele vinha, pulava, o povo do Aranha dava algo de comer e empurrava de volta. Um dos meus meninos, o Josa, teve ideia de passear com ele. É. Deixou o rolimã no jeito. Quando o Matias veio, rolaram ele com o remo pra cima do rolimã e levaram pra conhecer a pracinha, puxando com uma corda. É, sim. Todo mundo do Aranha lembra do Matias naquela primeira visita. Ele olhava tudo com uns olhos brilhosos, meio que de cego, sabe, mas a gente sabia que ele tava vendo tudo. É. Josa deu uma volta e correu com ele de volta pra água. Depois disso o Matias ficou uns dias sem aparecer. Seu Dorival, que era meio que o pai do Matias, disse que é porque ele não conseguia respirar fora da água. É. Ficou doente. Poisé. Mas depois melhorou.

Antônio Castro, 25
Eu e meu irmão fomos na cidade comprar um aquário. Depois que seu Dorival falou aquilo que falou, a gente sabia que tinha que dar um jeito de deixar o Matias na água. Compramos um bem grandão. O seu Robson fez pra gente um rolimã enorme, onde dava pra encaixar o aquário no encaixe. Voltamos pro Aranha, enchemos de água e esperamos o Matias aparecer. Quando ele pulou, a gente colocou uma rede por debaixo dele enredando todo, levamos até o barranco e descemos ele pra dentro do aquário. Não dava pra se mexer muito, mas ele conseguia se virar prum lado e pro outro e parecia bem de virar assim. Juro que vi ele sorrindo. Meu irmão diz que é coisa da minha cabeça.

Rosana Rodoaldo Bezerra, 31
Descobrimos a existência do Matias pelas fotos na internet. Eu sou da biologia, tem outro biólogo no grupo e um oceanógrafo. Estudamos na Universidade Federal do Maranhão e resolvemos verificar se a história procedia mesmo, seria um ótimo tema pra pesquisa. Pegamos o carro, viemos pra cá e comprovamos a veracidade das fotos das pessoas andando com um tubarão no aquário. O Matias é um Carcharhinus leucas, mais conhecido como cabeça-chata ou tubarão touro. Essa espécie desenvolveu adaptações no sistema de equilíbrio osmótico e portanto não se desidrata no rio. Essa plasticidade fisiológica permite a ele navegar por todas as águas, e é por isso que é encontrado em tantos lugares do planeta. Matias tem 1 metro e 35, 39 quilos. Não é o primeiro a aparecer nessa região, mas é o primeiro a se deixar domesticar, digamos assim.

Carlinhos Capó, 64
A gente gosta demais quando ele vem. Tem dia que tá animado mesmo, e aí a criançada brinca, corre ao redor, joga pedaço de frango por cima do aquário e assiste ele comer com gosto. Imagina, um tubarão de estimação. Mas o Vadinho, vou te contar. Pivete atentado. Um dia ele jogou lá dentro o Piquito, o mesmo cachorro que o Matias tentou comer da primeira vez. Sabe o que aconteceu? Nada. Deixou o Piquito ali, boiando, o cachorro latindo com horror da morte, e nada. É o que o Matias sabia que o cachorro era do Dorival. Imagina. Ele não ia mexer com o sentimento do Dorival.

Maria do Rosário, 43
Semana passada foi a última vez. Seu Dorival teve um acidente na noite de antes. Tava arrumando as telhas podres do teto na chuva, escorregou e caiu de mau jeito. Filho dele foi correndo na cidade buscar o doutor, mas não resolveu não. Foi-se embora no meio da noite, gritando. O doutor disse que ele sangrou por dentro. Morte horrível. De manhã, antes do enterro, Matias apareceu. Antônio e Josa e o resto do pessoal que coloca ele no aquário fez o de sempre. O Matias não viu seu Dorival e ficou doido, começou a se debater lá dentro. A gente ficamos com medo dele quebrar o vidro e cair na terra e morrer. Ninguém ia chegar perto dele alvoroçado do jeito que tava. Ele ficava dando bicada na direção da casa do Dorival. E quando Piquito apareceu, aí que ele desvairou. A gente sabíamos. Todo mundo sabia. Ele queria ver seu Dorival. Alguém se apiedou do bicho e foi buscar o corpo. Quando tiraram ele da casa, já todo duro, Matias tentou pular por cima do aquário. Jogava água pra fora. Assentaram seu Dorival do lado dele. Matias ficou com os dentes grudados no fundo do aquário, queria era mastigar tudo no caminho pra chegar no homem. Dona Carminha, esposa do seu Dorival, viu aquilo e disse que ninguém ia enterrar o marido dela não. Que ia colocar ele na água, junto com o Matias. Seu Dorival era pescador desde sempre, e parecia mesmo bom destino. Devolveram Matias pra água. Ele ficou boiando, observando tudo. Colocaram o corpo no bote e amarraram uma corda. Matias abocanhou a corda e foi-se embora. Não voltou mais não. A gente gostamos de pensar que ele levou o bote pro mar, por causa do que o pessoal da universidade falou, que o Matias era do mar e do rio também. O Piquito ainda fica ali na beira, onde ele quase foi comido, toda manhã, esperando. Tadinho. Eu fico com uma dózinha dele.

santiago santos

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