Marcelo Flecha: O outro passado

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O passado de um artista é a sua trajetória, e dele depende o implacável presente e o incerto futuro. Materialistamente é melhor deixa-lo lá, imutável e empoeirado, porém, se nos permitíssemos um exercício metafísico, eu perguntaria: como um artista da vida, o que você mudaria do seu passado?

Para gerar a reflexão, convido a voraz leitora, o compulsivo leitor, a eliminar os famigerados clichês de “teria feito tudo igual” e “faria tudo de novo”, ou o brado, aos quatro ventos, de que repetiria cada passo. Essa postura esconde uma empáfia e um delírio de perfeição que não se afina com a sua sensibilidade. Feita a ressalva, construo meu argumento a partir do descompasso entre a realidade e o sonho.

Uma postagem anterior, perdida no limbo cibernético, provocava com a pergunta: o que você quer ser quando crescer? Da resposta a essa pergunta derivaram os fatos presentes da nossa vida, oriundos dos desejos futuros. Quanto de tudo aquilo que desejei, realizei? Quanto de tudo aquilo que projetei, executei? Quanto de tudo aquilo que sonhei, vivi? A resposta a essas perguntas vai lhe fazer admitir que sim, se pudesse, mudaria uma coisinha aqui, outra coisinha ali, do incorruptível passado, nesse exercício nefasto que, por não ter o que fazer, lhe proponho hoje.

Artisticamente falando, somos o resultado desse passado. Como artista, cada passo dado nesta longa jornada para o fim, moldou o presente – que assola ou regozija – e configura o futuro. Em qual ajuste você investiria, se a vida não fosse tão sólida como a pedra? O que teria alterado na sua vida, para melhor ou pior, aquela mudança de comportamento, decisão ou opção, que sempre esteve sufocada no âmago da sua essência simplesmente pela máxima de saber que o passado não se muda? O convite recusado? A decisão pouco pensada? A música que não deveria ser gravada? O livro não publicado a tempo, e que agora caducou? A performance que envergonhou? A genialidade fingida? A construção descuidada daquela personagem? O conhecimento simulado? A encenação não encarada por covardia? A constelação de trejeitos, rompantes, discurso e tiradas usada para camuflar o embuste?

Por tudo isso, é muito mais fácil abraçar-se aos clichês, não pensar no assunto, e sentenciar: não me arrependo de nada! Talvez – e isto é apenas a especulação de um artista inútil –, a revista ao passado, a ficcional possibilidade de mudar o que passou, possa gerar uma reflexão que afete o ser presente, e, naturalmente, altere o ser futuro, tornando-o menos pior. O que penso é que, se o passado servir para corrigir o presente, teremos um futuro melhor – claro que falo sobre o ponto de vista de outro eterno clichê inútil, o de mudar o mundo, que me é tão caro. A ideia ególatra de não alterar um passo de tudo o que foi feito não é uma armadilha que afetará consideravelmente o porvir?

Eu mudaria algumas coisinhas, sim. Talvez estudasse mais. Talvez aprofundasse a intimidade com artistas outros que conheci. Talvez seria mais militante. Talvez recusasse alguns trabalhos. Talvez construísse mais castelos na areia. Certamente venderia um pouquinho menos minha alma pro diabo. Talvez fosse menos severo comigo, mais delicado contigo. Talvez falaria menos e criaria mais. Talvez atravessasse o deserto para levar uma peça de teatro para o amigo moribundo. Talvez vivesse mais e pensasse menos. Talvez, se o passado fosse um palimpsesto onde pudéssemos escrever e apagar, indefinidamente, até cansar de peregrinar. E você?

Claro que esta reflexão é motivada pela pesquisa do nosso novo espetáculo, inspirado no conto “La otra muerte”, de Jorge Luís Borges. Enquanto você não vê o resultado artístico, lhe perturbo com o processo – essa coisa que não é nada, confunde todo o mundo, e alimenta o ego do artista que tenta garantir o holofote antes mesmo que o espetáculo veja a luz. Quem sabe você não colabora para conseguirmos realizar outro dos nossos retumbantes fracassos?

Marcelo Flecha

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