CUSPE LITERÁRIO – ‘Braguilha’, por Marina Filizola

 

 

Não se trata de ser uma pessoa revolucionária. Que enxerga na frente. Não. Na maior parte da vida só consegui enxergar a braguilha da minha calça. Se estava aberta depois de sair do banheiro. E banheiros eram, de longe, meu lugar favorito no mundo. E na maioria das vezes que eu entrava em um, não era para mijar. Era só uma carreira comprida e gorda esticada em grande estilo em cima da tampa do vaso respingado de merda e catarro. Mas eu esqueci disso. E de todo o resto. Depois de 30 anos de vida ralando o cú no asfalto, compreendi que não preciso mais ir a lugares onde não quero estar. Nem cumprimentar gente que escrota e sem sentido nenhum pra minha vida. Que na verdade, posso e devo falar tudo o que penso em qualquer lugar que eu esteja na presença de quem for. E minha voz é muito potente, isso só fui me dar conta depois que comecei a falar tudo o que penso sem me importar com o tamanho da porrada de mão-aberta que seria distribuída na orelha do povo. E isso muito pouco ser-humano, infelizmente, terá um dia, a capacidade de entender.

E daí chegou aquele dia que me senti um pouco mais pro lado do ser-humano-razoável, até conseguia formar uma frase fazendo sentido ou entrar no banheiro para de fato, mijar. E depois que mijo-real entrou no cardápio de ser-humano-normal, a braguilha nunca mais foi uma preocupação. Foi quando me dei conta que braguilha era só mais um dos zilhões de cacoetes que a paranoia me presenteou. Enfim. Nessa época sabia que eu tinha algo a dizer, mas que demoraria anos até eu formular uma frase que dissesse claramente o que eu realmente sentia. Mas eu já caminhava-diferente falava-diferente, dava pra sentir um negócio acontecendo. Mas eu não tinha controle nenhum sobre o negócio que aconteceria. Em algum lugar entre o que eu-era e o que eu estava me-tornando ou iria-me-tornar, uma estranha confiança se ergueu. Eu, que não era nem intelectual nem política-idealista nem leitora-assídua nem porra nenhuma, vivia no limite entre a confusão-plena e o surto-provável. Desde cedo resolvi ser escritora mesmo nunca lendo porcaria nenhuma. Do que eu folheava, o que me incomodava pontualmente é que os autores rebuscados levavam parágrafos e mais parágrafos para finalmente dizer alguma coisa interessante. Pra mim literatura-chata e assuntos-profundos sempre estiveram diretamente conectados. Então eu pensava ter algo a dizer mais que todos eles, dizer que merda tem cheiro de merda no capão-redondo ou no Japão. E enquanto as meninas da minha idade corriam atrás de fodas-promíscuas pintos-rosados e potenciais namorados, eu corria atrás das palavras que perambulavam soltas dentro de mim na tentativa-rasgada de me arrancar de dentro da moldura à qual tinham me enfiado.

Eu era apenas uma menina que não queria saber de assuntos-profundos que na verdade não diziam nada. E ainda assim, inexplicavelmente, mergulhava-cega em dissertações marginais, recheadas de comentários pontiagudos e fatos-reais cheios de pús, dos quais eu sempre vi as pessoas fugindo porque não suportavam murros-de-realidade na boca-do-estômago. Eu já sabia que iria ser escritora mesmo sem ter clareza nenhuma disso. Tem coisas que a gente sabe mesmo sem saber teoria de merda-nenhuma. É bem provável que a literatura tenha evitado que eu me tornasse uma prostituta-suicida ou uma trombadinha-grávida de pedras de crack. Não que essas possibilidades sejam tão ruins quanto pareçam, mas graças ao meu destino ou minha sorte ou minha petulância-intragável, eu procurei a me agarrar a alguma coisa quando parecia não haver mais nada ao meu redor. Acho que tomei coragem quando as noites ainda eram sombrias e encantadoras porque a cocaína estava no comando, e o mundo quase-sempre parecia um lugar aceitável.

★★★★

Leia mais textos da Marina Filizola

 

Quer ficar por dentro de tudo o que acontece no Livre Opinião – Ideias em Debate? É só seguir os perfis oficiais no Twitter, InstagramFacebook e Youtube. A cultura debatida com livre opinião

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s