3 poemas de Nayara Moreira

The Chorus, (1876), de Edgar Degas

 

Gênese

A selva de pedra não calou o mar de dentro

nascer em algum ponto de terra é acidente geográfico

o que não impediu

que eu corresse para a água

seres vivos e mortos embalados

pelas mesmas ondas, mesma tormenta

no mar, como em toda parte,

a vida e a morte se encontram

nele renascemos, nele nos desfazemos

do conhecido

tornamo-nos seres débeis

carentes do ar da superfície

enquanto peixes miúdos riem de nossa cara

o mar tem mais a me dizer que gente, eu cria

então qual não foi a surpresa

encontrá-lo enfim em sua boca

carregada de sal doce e palavras submersas

líquida como deveria ser o que quer que tocasse

a divindade do corpo

teu mar meu mar

encontro fluvial em minhas pernas

marinha de guerra e paz

estímulo repetente de peles nossas enrugadas

no vai e vem de massa de água deslocada pelo vento

você vai embora e meu corpo tal como o repuxo de ondas pelo mar

te atrai de volta, limpando os vestígios humanos da areia

tornando-te novamente a origem de todas as coisas

 

Não chegar

O precipício ele é enorme

 

pensamos que não

mas entre afundar minha mão

no seu cabelo

e a raiz

lá está o despenhadeiro

íngreme e inexplorado

a proteger

sua cabeça do peso

dos meus dedos

 

 

É quase tudo o que sei

O relógio já dava três da tarde e ainda não era dia

as mulheres antigas que me habitam ignoram a morte de mais um poeta

não há sol que dissolva o silêncio quando se deseja a palavra

por quanto tempo você pode deixar uma porta aberta

 

★★★★

nayara moreira

 

 

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