Cinco poemas de Cecília Floresta

 

trio sonata II

você faz tanto barulho
dentro de mim
que o trânsito da consolação
parece buzinar uma sonata de bach
em dó menor

veja bem

aos poucos fui deixando de ser
matéria paga de revista
criança estendida no sofá
que assistia por osmose
à novela das oito

fui esquecendo personagens
músicas-temas
casos
mutretas
e passei a me interessar
muito mais pela vida

& é óbvio que comecei a beber aos 16
a fumar aos 16
a trepar aos 16
a me preocupar muito antes
e pouco depois de descobrir
a literatura contemporânea brasileira
os americanos beats
ou os velhos russos alcoólatras

mas isso não importa
o relato maior mesmo
foi deixar de ser matéria paga de revista
e começar a pensar
com as próprias posses mentais
antes mesmo de soar a musiquinha
do jornal nacional

 

 

miscelânea

você despertou em mim
um samba vazio de rimas
de estrofes & sem repetições
fez de mim o que quis
pintou um retrato de linhas tortas
no diz que me diz
dos bares da praça roosevelt
fincou bandeira em meu coração
que ainda tremula
pelo vento curvo de suas ideias

você batucou até romper o couro
do meu tamborzinho
do meu amorzinho cru
que nunca cozeu tanto
as próprias loucuras
caleidoscópicas
ou a visão alucinógena
que banha minhas lentes oculares
em dias assim
nos quais não vou dormir pensando
nas cores dos signos
ou no pó de café que acabou

& apesar de nus termos nascido
e agora ser tão difícil despirmo-nos
o que consola, meu bem
é que o amor nunca foi
apolítico crítico
raquítico militarizado
& que de mim jamais herdará
qualquer desvio capital
previsto pelas leituras madrugueiras
de livros do roberto freire

 

 

outras cobiças

às vezes
parece até que a gente
só sabe amar com fome
como se uma insaciedade
necessária de ser preenchida
servisse de próprio alimento
como se os sentimentos
criassem lacunas específicas
(ou nem tanto) pra eles mesmos
um lance assim de causa & efeito

talvez até o amor seja um vício
não tão nocivo quanto a fissura
de pó
de cachaça
ou como o ranger de dentes
em noites de insônia
em que os cigarros acabaram
e a padaria fechou
embora seja possível
que o amor necessite
jamais ser saciado
que more neste buraco no estômago
a vivacidade de bochechas rosadas

não que o amor não venha farto
que não corra como um rio caudaloso
cujas águas
ora cristalinas ora turvas
apontem direto pro mar
não é isso

mas pensado assim
em uma madrugada
de puro escarcéu de ideias
a impressão que dá
é que o amor não acaba nele mesmo

 

 

desamélia

existe neste mundo
um consenso muito grande
por carne crua & sangue dos outros

apesar talvez
em virtude de minha pena
ser ainda muito tenra
os itens elencados
pudessem caber em louros
na cabeça de camus
ou naquele livro póstumo
esquecido em gaveta
de roupas íntimas

meu amor
ainda chegará o dia
em que andaremos na rua à noite
e nossa maior preocupação
será qual pé pisar primeiro:
ao contrário do que tememos hoje
nos ocuparemos em aprimorar
as figuras de linguagem
e não a animalia alheia

há de chegar esse dia
quando então amélia será liberta
daquele samba restando apenas
a melodia muito alegre
e nosso inteiro consentimento

★★★★

Poemas gentilmente retirados de poemas crus. São Paulo: Patuá, 2016

 

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