Bruno Alves: Sangre pela rua e quando chegar não se lave

The Familiar Objects, de Rene Magritte

São Paulo era pura lama. Uma chuva fina durante o dia até mesmo quando o céu ficou cinza frio e logo em seguida roxo quente, mas eu já estava encharcado e exausto. Eu estava tão ansioso e quase não fui.

Desci na Sé com aquela brisa renovadora do centro no rosto. Nem chovia tanto (na vida real tudo é melhor do que na minha cabeça) e já estava escuro&vazio porque era tarde; apenas poucos moradores de rua sentados em papelões e conversando naquela rua de pedra – a ligação entre a estação e a catedral – e de repente uma SP ampla, amena e totalmente vazia. Então alguns caras apareceram na surdina e eu entrei em pânico sem motivo real, de maneira a dar uma corrida até o viaduto ligação da catedral ao Bixiga – perigo  constante nas ruas do centro. Vi mais uns andarilhos no viaduto deserto mas dessa vez pensei “também sou filho dessa terra” e avancei sentido Rua Jaceguai, 520, Teatro Oficina. Na altura do Teatro dos Arcos os vagabundos me encarando em frente ao boteco forrózento de parede laranja mal pintada, brilhante cravejado na noite escura – “também sou filho dessa terra”, sugestionei -, mas na verdade eram apenas trabalhadores fumando um quando viram meu semblante assustadiço numa busca desesperada por meu destino. Provavelmente riram da objetividade paulistana frente à malandragem recifense, ou ao mistério amazônico – lazer louco noite de sábado. Luzes opacas do baixo centro iluminavam debilmente o triste pavimento ladrilhado. A criança indígena engatinhava nua sob a dramática floricultura vazia. Até quando ostentará seus velhos dentes de ouro para rir do sotaque mais próximo? Você que empina seu nariz de platina pra androginia noturna. Desvele seu sexo, arranque de vez sua fria carapaça de cimento em seu torso de Faria Lima e o cubra com esperma de seu solitário filho na escadaria da Roosevelt, São Paulo. Cheguei ao Oficina bem na hora da sessão; os  jovens de riso fácil que fumavam seu careta no chuvisco – leveza contrastante com minha carne vermelha&febril – me olharam: “também sou filho dessa terra”, repeti mentalmente numa prece.

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