Três poemas de Glauco Mattoso

ERECÇÃO HOSPITALAR

Si um micróbio nos infecta,
o remédio é “tarja preta”.
Medicar-me ha lei que veta
caso o accesso me accommetta!

Quer tirar o eu da recta
o meu medico! E diz peta
quem prohibe e quem decreta
que é maléfica a punheta!

Pathologica si for
a punheta, vou suppor
que foder faz mal, mais mal!

Si assim “sesse”, que “foria”
de quem goza todo dia
numa cama de hospital?

(Extraído de Sonetos de Boccagem)

CAFONICE PHONOGRAPHICA

“Ver você com outro alguém
me fará morrer de dor!
Sem você não sou ninguém,
meu amor, sem seu calor…”

Coisa e tal, e nhenhenhem…
É dífficil de suppor
que tal lettra ainda tem,
para alguém, algum valor!

“Vem, amor, commigo, vem!
Vem commigo, vem, meu bem!”,
canta o mau compositor.

Ao compor assim, porem,
dos limites vae alem
quem tomar no eu não for.

(Extraído de Sonetos de Boccagem)

SONETO 951 NATAL

Nasci glaucomattoso, não poeta.
Poeta me tornei pela revolta
que contra o mundo a língua suja solta
e a vida como báratro interpreta.

Bastardo como bardo, minha meta
jamais foi ao guru servir de escolta
nem crer que do Messias venha a volta,
mas sim invectivar tudo o que veta.

Compenso o que no abuso se me impôs
(pedal humilhação) com meu fetiche,
lambendo, por debaixo, os pés do algoz.

Mas não compenso, nem que o gozo esguinche,
masoca, esta cegueira, e meus pornôs
poemas de Bocage são pastiche.

(Extraído de As mil e uma línguas)

★★★★

GLAUCO MATTOSO (paulistano de 1951) destacou-se entre os poetas “marginais” da década de 70 com seu JORNAL DOBRABIL, que parodiava periódicos e períodos literários através da datilografia artesanal. A matriz de sua poética está no modernismo e no concretismo, filtrados pelo crivo antiestético e escatológico de Sade e Bocage. Coligido em almanaque em 1981, o DOBRABIL é reeditado comemorativamente em 2001. Atualmente cego, Glauco mantém a verve fescenina. Vem se dedicando ao soneto e tem traduzido poetas da envergadura de Borges e do mexicano Salvador Novo, inaugurador, como Mário de Andrade, da moderna poesia em seu país. Nesta página Mattoso (sub)verte os sonetos homoeróticos que apimentaram a reputação privada de Novo.

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