Santiago Santos: De Casas Que São Refúgios

 

Começou como tudo começa. Com palavras.

Edora sentou na escadinha da varanda e abriu o envelope, a caligrafia estilizada que só resistia nos convites de casamento, com maiúsculas rebuscadas e traços suaves e arredondados nas pontas. Um amigo viajante, que assinava Kummelpotz, afirmava estar encantado com sua casa e desejava lhe presentear. Sobre a cerca da varanda, Edora viu um vaso de flores murchas. À noite, quando saiu para comer uma tangerina ouvindo os grilos do jardim, as flores haviam desabrochado e brilhavam, cada uma em uma cor diferente, com passarinhos hipnotizados ao redor.

A casa de Edora se erguia sozinha na vastidão verde. Um sonho idílico construído por seus pais, de quem tinha herdado a construção e os arredores férteis, as cachoeiras, as árvores, os bichos. Vivia solitária, entregue aos livros e aos afazeres domésticos. Além das cercas que delimitavam a propriedade, além das cidadezinhas no entorno para onde viajava em busca de mantimentos, roupas e remédios, além do rio e da estrada, dos arranha-céus e condomínios e a malha neurótica de transeuntes, carros e ônibus, ficava seu escritório empoeirado, no coração do prédio onde funcionários bem pagos geriam suas empresas. Ela não queria o punhado de heranças obtusas dos pais; queria a casa.

No dia seguinte, outra carta. Kummelpotz perguntava se havia gostado das flores e se gostava do presente novo. No tablado da varanda, um esdrúxulo jogo de copos de cristal. Edora não resistiu e provou do suco de goiaba em um copo soprado em espiral, uma espécie de canudo montanha-russa. Nos dias seguintes, outras cartas. E presentes: poltronas, carrinhos de kart, caixas com livros capa dura, sacas de sementes exóticas, aparelhos de jardinagem, sombrinhas coloridas, redes de varanda, cadeiras de praia, uma cabana com ar condicionado e cama de espuma superdensa, uma caminhonete, um saco de dinheiro. Iam se amontoando ao redor da casa.

A essa altura, uma Edora injuriada fazia guarda na varanda dia e noite, espingarda no colo. Mas invariavelmente pegava no sono, e invariavelmente acordava diante de nova carta e novo presente. Achou que a imaginação de Kummelpotz começava a minguar quando recebeu, além da caixa com fogos de artifício, uma carta diferente, contendo embaixo da mensagem de sempre outra pergunta: estaria pronta para retribuir os presentes?

Foi a primeira vez que teve a ideia de responder. Escreveu com força nas costas do bilhete que não havia pedido nada daquilo e gostaria que a brincadeira acabasse. Deixou o envelope no mesmo lugar. No outro dia, uma cesta com dez gatos siameses e nova carta. Kummelpotz respondeu que o que fazia passava longe de brincadeira; fazia aquilo por amor e devoção. E terminava: estaria pronta para retribuir?

Foram meses, que chegaram a incluir um tobogã conectado à cachoeira e uma árvore anciã plantada entre a casa e a cabana (ela gostava da sombra, apesar de tudo), até Edora decidir que sim, que estava pronta para retribuir, fosse lá o que isso quisesse dizer. Acordou e leu a última carta. Nenhum presente dessa vez. Kummelpotz pedia a ela que andasse até o jardim.

O terremoto que fez desabar a cabana e as pancadas subterrâneas que saltitaram o pasto não foram as coisas que mais impressionaram Edora, e sim as duas pernas enormes que a casa revelou ter, semelhante às de cavalos, ao se remexer para sair da terra onde parecia fincada. No alto, agarrado à chaminé, ela viu Kummelpotz. Era um bicho estufado, parecido com um urso de pelúcia sujo, mas com vários rasgos pelo corpo e uma cara que nunca seria estampada em um brinquedo. Ele se agarrou aos tijolinhos e a casa fez meia-volta e cavalgou pelo vale até sumir de vista. Edora ficou ali, entre os presentes que não couberam.

Foi até o quadrado de terra revirada, agora uma área infértil e cheia de pedregulhos, e apanhou um maço de papéis do chão. Era uma via do contrato da casa, assinado pelos seus pais há muitos anos, junto com a rescisão rubricada por Kummelpotz em sua conhecida letra, com a data daquele dia, autenticada em cartório.

Restou a Edora entrar na caminhonete e voltar pra cidade, onde se sentou no escritório empoeirado, retirou o porta-retrato dos pais da gaveta e colocou na mesa. Ligou pra secretária e pediu um expresso.

Recomeçou como tudo recomeça. Com café.

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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