Aline Bei: estudo de monólogo para uma peça em 3 atos (Terceiro Ato)

Leia: Ato I e Ato II

 

Ilustração de Anthony Mazza

 

(terceiro ato)

nasci com manchas na pele
meu tempo no útero não me fez bem.
as pessoas podiam desvestir uma flor pra nascer, imagine que rápido, ou pular do olho de um peixe,
o médico explicou que a minha mãe menstruou em mim.
pra sarar
eu tive que tomar banho de Luz no hospital. minha mãe avisou com raiva
que não sairia de lá sem mim quando a enfermeira disse a senhora já pode ir pra casa.
assim que nasce um filho
as mães ficam mais próximas da natureza de um tigre, a minha ficou selvagem me esperando por dias, me olhando do vidro com o terço nas mãos.
não era de morrer, o que eu tinha. ainda assim aquilo entristecia a minha mãe profundamente, acabava com ela ver o próprio bebê Encubado, aquilo parecia ser um mal sinal.

devo ter feito alguma coisa errada. – ela chorava pro meu pai. – meu útero deve ser muito ácido.
– não, não. – meu pai respondia. a conhecia bem
por dentro
e nada nela lhe parecia ácido.
a gente
ficava junta só pra ela me amamentar, depois eu voltava pra Luz.
demorou 2 semanas
pra eu ficar boa. então me liberaram, meu pai abriu a porta de casa
minha mãe comigo
no colo
umas olheiras enormes.
eu não me lembro de nada,
minha mãe me contou que
eu dormia demais.
um bebê morto
e um bebê com sono
não são tão diferentes assim.
por isso minha mãe ficava
colocando o dedo debaixo do meu nariz
eu tenho o cheiro do dedo dela guardado em mim.
fui filmada, quando bebê,
meu pai tinha um amigo que adorava pensar em si mesmo como um artista. ele usava boina e estava sempre filmando as coisas com ar de documentarista. narrava em off o que estava acontecendo enquanto filmava, eu olhava pra ele encantada.
assisti o vídeo um dia desses. achei a fita fazendo faxina e parei a faxina pra assistir. sentei no sofá, cobri as pernas com uma manta.
me vi bebê
com um casaquinho de tricô, as bochechas rosadas.
eu não queria sair da cama e o amigo do meu pai dizia atrás: ela não quer sair da cama.
demorei pra aprender a andar, minha mãe me contou,
devia ser uma intuição
de que aprender a andar
era deixar algumas coisas para trás, era começar a perder e
se acostumar com isso. minha mãe me chamava

vem filha.

e eu segurava no lençol com a maior força como quem diz não quero ir, lençol, me ajuda,
o rosto concentrado,
um bebê que mal percebo ser eu.
quando finalmente comecei a andar
minha mãe notou que meu pé
era torto, eu pisava muito aberto.
me levou no ortopedista.
ele analisou a chapas levantando-as contra a luz.

uhum. – ele disse.

e eu tive que usar uma bota ortopédica
por 4 anos o tempo da faculdade do meu pai.
a bota
travava meus movimentos como se eu
fosse tímida
tinha um tênis da moranguinho
com cheiro de morango que eu Queria usar,
não pode, filha. você tem que usar a botinha.
quando passava na tv a propaganda do tênis
eu dançava
sonhando com o dia de tirar as botas pra sempre.
algumas crianças riam de mim, na escola. eu ria com elas
não entendia que era de mim. e odiava fotos, toda vez que minha mãe me arrumava para tirarmos fotos aquela botinha não combinava com nada.
descíamos pelo elevador de mãos dadas até a parte de fora do prédio
onde tinham algumas árvores.
eu gostava das árvores
e gostava de descer com a minha mãe de mãos dadas
mas na hora da foto a câmera me olhando eu emburrava de um jeito
em todas as fotos que tenho criança
parece que eu estou mastigando um cravo.
mais pra frente
quando eu tinha 5 anos e já sem
a bota
eu gostava de brincar de boneca
cultivava barbies, regava elas, a gente usava o mesmo shampoo pra crescer.
eu também gostava de música
especialmente no rádio, decorava as letras pra quando tocasse de novo (e eu nunca sabia quando tocaria de novo, a graça nascia daí)
eu pudesse acompanhar cantando com o corpo também.
aquilo me deixava muito feliz
porque tinha os aplausos do meu avô que estava temporariamente morando com a gente.

a vó e o vô estão bravos 1 com o outro. – a minha mãe explicava.

meu avô era tão alto que mal cabia no sofá.
nessa época
entrei numa escolinha inglês. a professora tinha os olhos puxados mas não era do Japão.
anos depois comprei um casaco
de veludo
igual ao que ela usava. me senti melhor olhando no espelho, mas logo passou.
minhas aulas de inglês
tinham músicas
eu gostava de cantar e dançar as músicas
apontando para a parte do corpo que eu estava aprendendo a palavra em inglês.
um dia mostrei pro meu avó a dança
e ele foi colocando a mão
em cada parte do meu corpo
junto comigo
cabeça ombro joelho e pé
joelho e

ele colocava as mãos até onde não tinha na música
me jogava no sofá e
apertava todo o meu corpo fazendo cócegas.
eu tinha vontade de rir ao mesmo tempo um incomodo
uma semente me brotando
atrás da orelha.
eu andava de carro
com o meu Outro avô e era tão diferente. com o meu Outro avô
eu colecionava nuvens
e os animais que moravam nas curvas das nuvens.
sentava em cima da maleta dele
para ficar mais alta no banco de trás
e guardava em mim as coisas do céu, quando escurecia
um pedaço de lua, o som da chuva um pouco antes dela cair, a estrada com pontinhos amarelos no chão dividindo quem vem e quem vai
até que eu pegava no sono, cantava algumas músicas durante o sonho que a minha mãe tinha me ensinado
aquela do sabiá na gaiola fez um buraquinho a favorita.
já com o vô que morava na minha casa
com ele eu
não sentava na maleta (ele não tinha maleta)
meus pais trabalhando
era meu vô que cuidava de mim.

o vô cuida. – ele dizia com a boca perto

me botava no colo dele e fazia cavalinho.
uma coisa
me ardia no peito, um medo, um abandono de mundo.
até que um dia eu estava de pijama e ele
abaixou o meu pijama.
ficou me olhando e no olho dele eu lembro, tinha faísca.
no dedo dele não, o dedo era seco,

imagina que é um pirulito.

fechei o olho,
ele também.
senti uma boca me percorrendo
a língua áspera, nunca ninguém tinha caminhado por mim assim.
me senti desmanchada
desmanchando
morta um pouquinho
e uma vontade de fugir
uma vontade de correr
por esse mundo
só parar quando chegasse de frente para um lugar que fosse longe
tão Longe que eu não saberia se é
neste planeta
talvez não fosse
era bonito demais
uma mistura de
poesia com lago e teatro e baleias além do que já era tarde, acabou ficando
um pouco tarde
pra voltar.

(a atriz deita no centro do palco em posição fetal.

Blecaute)

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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