Marcelo Flecha: A curadoria do contemporâneo

 

Na contramão, enquanto o Brasil teatral se encontra em São Paulo, acompanhando o mais badalado festival internacional do país – a MITsp, estou no Rio, acompanhando o mais badalado aniversário de criança – o do meu afilhado. A coincidência apenas serve de introdutório para o comentário genérico ao qual me dedicarei nesta postagem, pois nunca acompanhei a MITsp, e invejo todos os queridos amigos que de lá me mandaram maravilhosas notícias.

Qual é a nossa autonomia criativa quando inseridos em um contexto predominante?

Tenho a impressão de que se não seguir certas tendências, uma obra de arte – e a partir de agora me concentro em peças de teatro, nosso objeto de experimentação –, por mais robusta e contundente que seja, não conseguirá estar na linha curatorial da sua contemporaneidade. Essa condição velada influencia significativamente grande parte da produção teatral, e com isso, cria-se uma espécie de retroalimentação da mesmice, multiplicação de imagem a partir de espelhos paralelos, afetando a condição espetacular do evento teatral. Nesses casos, a espetacularidade consiste na qualidade criativa das variações sobre o mesmo tema – e uso a palavra “tema” como universal, podendo ser estética, conceito, momento político, técnica etc. Avalio se não seria pouco para uma busca mais apropriada da verdade artística, essa fantasia romântica que paira sobre alguns de nós.

Se o grupo, obra ou artista tentar seguir um caminho autônomo, independente, ou descolado do atual preponderante – apesar de ser consciente que a influência do entorno é indissociável –, pagará o ônus supracitado, e terá dificuldade de penetração, provocando naturalmente uma reavaliação da própria obra, fragilizando o entendimento de suas escolhas.

Conversando com um amigo encenador, pensávamos se não seria fácil o exercício de concentrar diversos clichês de específica contemporaneidade, e reproduzir o engodo com verossimilhança. Em outro momento correu uma lista de lugares-comuns necessários para se conceber um espetáculo contemporâneo – confesso meu espanto quando identifiquei vários em espetáculos nossos. Esses pequenos momentos de espelhamento – perdoem o abuso de espelhos, é que estou adaptando Borges – denotam o descompasso que sentimos, mesmo sem perceber, ao nos depararmos com as amarras do tempo, nosso tempo, e reivindicarmos para nós uma autenticidade desgastada de tão usada.

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, e muito menos ao inferno – também tenho estado místico nestas últimas postagens. Não conseguiremos sair da influência do entorno, é certo, mas não precisamos ficar reféns dele, nem preconceber um diálogo que só se verificará a partir da honestidade da obra e da coincidência do diálogo desta com algumas urgências do momento em que ela é posta.

Claro que todo meu discurso é sempre carregado de certo romantismo; estruturado em ideias de originalidade, inovação, autonomia; porém, mesmo sendo conhecedor da falência dessas utopias, não me incomodo em assumi-las, tomá-las como meta, e parecer tolo e antigo perante os meus pares – sabedores de que tudo já foi feito, dito, criado, e que só nos cabe variar sobre suas formas.

Paciência. Acredito que não é possível viver artisticamente reproduzindo os mesmos caminhos apontados pelos cânones ou detentores do poder. Isso nos tornaria mais servis e menos artistas, e um teatro servil é mais nocivo que a ausência. De fato, quão servil estamos nos tornando ao forçar um diálogo como o contemporâneo? Nossa autonomia está preservada no dizer, ou penso no dizer a partir das modelações do entorno? Refaço a postagem fragmentada e a reformulo nos moldes aos que o leitor está acostumado a ler? Sou artista ou mentiroso?

Questões. Questão. Questã. Quão independente se pode ser, quando se depende da aceitação para a viabilização? Quão corrompida está a criação da Pequena Companhia de Teatro se se mantém presente no circuito da sua contemporaneidade? Quão sincero deve ser um escritor ao expor suas angústias? Minha opinião é formatada e desconfigurada dia após dia, por isso pergunto tanto.

O ideal seria que minha inquietude fosse exagerada e as perguntas fossem retóricas, pois acredito nas honestidades dos atores, conheço a maioria dos curadores do país, e me surpreendo com a generosidade de alguns amigos envolvidos nos mais diversos festivais, projetos, espaços, editais, ocupações – aqueles ambientes onde se definem os caminhos do teatro do pais. Todavia, não me canso de questionar. Quando vejo algo demasiadamente bom, que me agrada, que me entusiasma profundamente, é aí que procuro afinar o olhar, distanciar o envolvimento, e advogar para o diabo – como disse, estou místico. É o que tento fazer aqui.

Penso no quão plural é possível ser para não esterilizar iniciativas. Penso no quanto é necessária a ideia de recorte, contudo, no quanto de sangue corre a partir de um esquartejamento. Penso em sermos responsáveis pela superestimação de algumas funções e pela subestimação de outra. Penso que, como a Pequena Companhia de Teatro também é banhada pela luz desses mesmos holofotes, eu não deveria escrever nada disso. Penso na irresponsabilidade da minha postagem, ao escrever sem dados, pesquisas, estudos, levantamentos, estatísticas. Penso que se eu me levasse tão a sério não teria escrito a primeira linha deste blog. A minha única certeza é que, como diria o filósofo, todo penso é torto.

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