50º aniversário de ‘Cem Anos de Solidão’: autores, professores e editores contam qual Macondo imaginam na leitura da obra

“Dentro de poucos anos, Macondo se tornou uma aldeia mais organizada e laboriosa que qualquer das conhecidas até então pelos seus 300 habitantes. Era na verdade uma aldeia feliz, onde ninguém tinha mais de trinta anos e onde ninguém ainda havia morrido”.

Gabriel García Marquéz

Em 2017, a obra mais famosa do escritor e Prêmio Nobel colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), Cem Anos de Solidão, comemora cinco décadas. Lançado em 1967, o livro é considerado um dos mais importantes textos da literatura latino-americana, com 50 milhões de exemplares pelo mundo em mais de 35 idiomas, cativando leitores de diversas gerações.

Cem Anos de Solidão retrata um século da família Buendía e a característica singular que cada personagem apresenta. Definição do realismo mágico da metade do século XX, García Márquez destaca por meio do insólito a construção da identidade latino-americana, utilizando a cidade fictícia de Macondo.

A saga dos Buendía começou em Buenos Aires, Argentina, onde a obra foi publicada pela primeira vez, sob a editoração da Sudamericana. Durante sete gerações, o leitor acompanha as fases e as mudanças dos habitantes de Macondo. Seguimos os caminhos de José e Úrsula, contemplamos Remédios e  abraçamos o misterioso Melquíades com seus pergaminhos que encerram a história. O livro marcou a literatura mundial, desde que Aureliano se recordou, diante do pelotão de fuzilamento, o dia em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

Para comemorar o 50º aniversário de Cem Anos de Solidão, o Livre Opinião – Ideias em Debate convidou Nara Vidal, Santana Filho, Aline Bei, Nelson de Oliveira, Paulo Scott, José Renato de Almeida Prado, Antón Castro Miguez e Marcelino Freire para responderem a pergunta “Quando leu ‘Cem anos de solidão’, qual Macondo você imaginou?”

Confira abaixo os depoimentos.

Capa da primeira edição de ‘Cem Anos de Solidão’

Nara Vidal, escritora, autora de A Loucura dos Outros (Reformatório)

Não teríamos todos uma Macondo dentro de nós? Uns mais, outros menos.

A minha primeira leitura de Cem anos de solidão foi quando eu tinha uns treze anos. Fiquei muito impressionada, mais pela linguagem, pela fonte inesgotável de imagens, pelo fantástico, pelo realismo mágico e por um sentimento de pertencer à tradição latino-americana de misticismo, particularmente.

Vivi com medo daquela família por muito tempo. Minha mãe chegou a pedir ao bibliotecário da cidade que não me emprestasse Garcìa Marquez.

Macondo foi também Guarani. Localizada no esquecimento, a cidade de onde eu venho é a solidão dos chapéus que ainda são de palha em cabeças guiadas por pés que apertam passos cheios de tempo rumo ao de sempre na expectativa de uma novidade. Nós também tínhamos a visita de ciganos que chegavam trazendo futuros nas palmas das nossas mãos.

Depois, já adulta, encontrei, além de Guarani, um livro político, mais coletivo. Uma obra com a qual nos relacionamos como cidadãos, como um país de tantos golpes e fracassos. Um país que, feito o vilarejo de Macondo, se rejeita em toda a sua glória, beleza e paz, e vende a alma ao diabo (estrangeiros, sistema, corrupção) pela ambição do crescimento, para existir significativamente no mapa, para se relacionar com o mundo que está fora.

Macondo é a repetição em ciclos dos nossos fracassos como país, como latino-americanos enquanto não nos conformamos com o nosso potencial de liberdade e independência.

Macondo nos encanta, nos assusta e nos assombra porque somos de lá.

 

 

Santana Filho, escritor, autor de A casa das marionetes (Reformatório)

Quando cheguei a Macondo, não fui exatamente surpreendido, mas credenciado. Para o menino que fui, assustado e cheio de imaginação, criado numa pequena cidade à beira do rio Tocantins entre iaras, rasga-mortalhas e a mulher que vagava à noite levando a lamparina na cabeça, desembarcar em Macondo, na minha juventude, foi como retornar à tribo, o aroma antigo.

Desde que passei a escrever com regularidade, nos últimos anos, conto histórias diversas, apresento variadas gentes, mas é da minha Macondo que escrevo.

 

Aline Bei, escritora e editora do site cultural OitavaArte

Macondo que imagino conforme o Gabriel vai contando é da cor de ribeirão preto muitos anos atrás
quando eu parava na altura dos joelhos das mesas
e a sola do pé, minha e dos primos,
ficava vermelha cor da
terra
forte de não sair no banho
e enquanto eu esfregava com a bucha de palha e ardia eu pensava que a cidade toda de ribeirão pretinho cabia na rua da casa da vó, a vizinhança toda cabia na frente da casa
de resto só o céu e o encanto pelo gelo eu entendi lembrando
dos gelinhos que a dona dirce vendia por cinquenta centavos ou menos
a gente entrava na cozinha dela pra pegar, depois
cês pagam.
a Macondo de cem anos precisa da memória de infância dos leitores,
daquele olhar naquele tempo
em que as horas do dia
não passavam assim, desapercebidas. meu tio foi militar.
meu tio quando entrava fardado
na casa da minha vó (nas botinas o peso do mundo)
era Macondo pra mim.

A famosa árvore genealógica da família Buendía

 

 

Nelson de Oliveira, escritor, autor de Naquela Época Tínhamos um Gato e Outros Contos (Companhia das Letras)

Rapaz, conheci Cem anos de solidão logo que me mudei pra Sampa, em meados dos anos 80. É um intenso romance regionalista, uma coleção de histórias sobre sobreviventes rústicos e vigorosos, envolvidos com esparsos espasmos de realismo mágico. Essa foi a Macondo que eu imaginei: um povoado perdido no tempo antigo de um pantanal esotérico, cercado pela guerra civil, pelo espírito dos mortos e, mais que tudo, abençoado e amaldiçoado pela força sobrenatural do cigano Melquíades, meu personagem predileto nessa trama feita de uma dúzia de tramas.

 

 

Paulo Scott, escritor, autor de Habitante Irreal (Alfaguara)

Eu tinha dezesseis anos quando li esse romance poderoso, que é apenas um ano mais novo do que eu. Não sei se lembro direito das imagens formadas na minha cabeça, mas lembro da sensação de areia, de castelo de areia, feudo de areia e um pouco de barro edificado muito longe do tipo mar que eu tanto gostava de frequentar naqueles dias de final de adolescência. Porque me perecia algo, desde a sua notícia dentro da narrativa, fadado a desaparecer.

 

 

José Renato de Almeida Prado, jornalista e sócio proprietário da 11 Editora

Creio ter lido pela primeira vez em 1987 e voltei às suas páginas no final da década de 1990. Obra encantadora sob todos os aspectos. O realismo mágico, as desditas dos Buendía, cativaram-me para sempre. Macondo pode ser muitos lugares, a própria América Latina encerrada em uma localidade. Um estado de espírito talvez: todos trazemos uma Macondo efervescendo dentro de nós. Às vezes, a identificava com Jaú, onde resido, que nunca perdeu sua característica de povoado voltado a si mesmo, palco de venturas e desventuras as mais absurdas”.

 

 

Marcelino Freire, escritor, autor de Nossos Ossos (Record)

Chegou água agora em Macondo. É uma terra seca, esturricada. Foi feita uma transposição de um rio chamado Chico. A alegria foi tanta por aquelas bandas. Parecia realismo mágico. O povo se banhando. Fazendo da represa falsa um rio verdadeiro. Uma praia em Copacabana. Um tietê limpo e fresco. Macondo, escrevam aí: ela se chama Sertânia. Foi de lá que eu saí aos três anos. Exatamente atrás de água. E de escola, de caderno. Em busca de folha, verso, palavra. Minha mãe e meu pai à frente. E os nove filhos. Uma tropa de gente, retirante. Refugiados. Saímos de Macondo. Mas Macondo veio em nosso sangue. É Macondo que eu carrego comigo. Nos pés, na alma, no umbigo. São Paulo virou Macondo também. Onde sobrevivo há 26 anos. Quando eu morrer por aqui, morrerei em Macondo. Meu solo pernambucano.

Antón Castro Míguez, professor da área de língua espanhola e suas literaturas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Meu primeiro contato com Macondo se deu a meados dos anos 1980, quando li, por primeira vez, o romance Cien años de Soledad. Recém entrado na adolescência, imaginava Macondo como um povoado isolado no tempo e no espaço, um lugar triste, que condenava a uma existência longa seus personagens, uma espécie de prisão. Como era muito jovem e já havia lido alguns romances de Jorge Amado, Macondo podia muito bem situar-se na Bahía. Ou seja, os romances de Jorge Amado e o de García Márquez se conectavam, talvez, por trazer algo da memória infantil, marcada, muitas vezes, por um sentimento de impotência ou mesmo de prisão. Imagino que isso se relacione à minha própria experiência, a uma dor (ou um mal estar) que sentia (e talvez continue sentindo) em relação à memória da infância, construída mais por histórias que ouvia e imaginava que por fatos e experiências vivenciados. Em García Márquez e Jorge Amado, percebia esse mesmo aprisionamento: um deslocamento no tempo e no espaço que não só permitia uma reconfiguração mágica da realidade, como também sinalizava um isolamento em que dor, sofrimento, prazer e sonhos se misturavam e se confundiam.

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