Santiago Santos: De Quem Vive Pela Lente

 

Quando recebo uma proposta e não faço ideia do que tão falando, foco nas palavras que revelam o nível de desespero (deles e meu). “A senhorita será extraordinariamente bem recompensada” — advérbio pra se você voltar viva. “E quando a gente chegar, aquela paisagem impressionante vai convencê-la” — adjetivo que esconde a queda de quinhentos metros num passo em falso. “Até onde sabemos, o brodorau parece manso” — tudo nessa frase, mas ênfase no substantivo desconhecido que se traduz como tamos nos cagando de medo mas precisamos de alguém. E aí você sorri e diz que sim, sem fazer ideia de como vai se virar pra fotografar aquilo.

Eu reclamo, mas é por isso que amo esse trabalho.

O que explica minha obsessão com as lentes invocadas e todo o arsenal de filtros que desenvolvo em casa, num software de arquitetura própria, obrigada, na tentativa de desbancar nosso eventual substituto: o drone. Malditos trocinhos voadores que não cansam e podem alcançar ângulos que nem sonhamos. Triste o dia em que o fotógrafo de casamentos (desculpa, foi o que me ocorreu) ficará na van, controlando as dezenas de drones pelas telinhas e respirando peidos consecutivos de repolho pra não dormir sem querer. Essa competição, que já aposentou muita gente, é que me dá liga.

Explica também uma vida do avesso, sem rotina ou tempo médio de sono, sem casa fixa (sem casa mesmo, no caso de uma viagem pra África que durou dois meses e o aluguel atrasado virou despejo e taxa de muitas diárias naqueles depósitos individuais, onde socaram o que eu tinha), sem roupa passada, sem certeza financeira, sem saúde (parcial; sou forte mas fico mais gripada do que gostaria), sem relacionamento fixo, sem almoço na casa dos pais no fim de semana, sem um pingo de noção das novidades do mundo pop, perdendo a ordem dos filmes da Marvel, os lançamentos do Macaco Bong e do Far From Alaska, as reviravoltas do Master Chef. Enfuã. Ossos do ofício.

O que eu faço que um drone não faz? Basicamente, possuo um feeling instintivo que não pode ser replicado por chips, sorry, mádafócas. Você pode cortar, colar, pintar, preencher e o caraio a quatro no Photoshop depois, mas você não pode sentir o vento na orelha e saber que a chuva que tá armando não vai cair onde parecia que ia cair, e o relâmpago que logo vai trovar daquela nuvem fofa e preta vai ribombar lá naquele lado e as chances são grandes de que o brodorau, primeiro de uma espécie criada em laboratório (dono de um cagaço danado de barulho), visto pela última vez no trecho A de floresta, vai correr pro trecho B, passando por uma ponte natural sem vegetação que conecta dois picos, o que te permite se posicionar num pequeno buraco na face da encosta que fica a seis metros dessa passagem, armando a câmera junto com outros cinco pontos focais de captura pra fazer uma série de fotografias que modela, em 3D, em até dois minutos na nuvem pro cliente baixar (renderização baixa, o produto final vai depois), os movimentos do brodorau por 4,2 segundos, incluindo a forma como seus pelos se movem no vento, sua mandíbula sacode a cada passada, suas patas tocam o chão, sua respiração agita as costelas tortas (faço uns GIFs daora, viu). Fora aquele still com o céu movediço em contraste (filtro da mamãe aqui) que vai estampar a postagem na net. Tomem isso, drones de mierda.

Aí um babaca vem e me fala que basta usar seis drones pra substituir a mim e os pontos focais e eles têm um vídeo em 3D não só do bicho cruzando aquele trecho, mas seguindo ele floresta adentro pelo resto do dia, enquanto caga, se coça e belisca javalis. E a fóquin arte, desgraçados???

Bom, o dia que um drone ganhar os quatro National Geographic e o Worldlife que eu tenho na estante e for finalista do Pulitzer, eu me aposento. Ou fico na van, comendo pizza, controlando os filhos da putinha e revivendo os bons dias. Hah. Quem eu tô querendo enganar? Provavelmente vou arranjar outro trampo pra não ter uma vida normal. De pirraça.

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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