José Olympio lança clássico de Herman Melville com texto de apresentação de Jorge Luis Borges

Bartleby, o escrivão é uma daquelas obras que deixa os leitores sem certezas para definir quem seria o personagem tão peculiar. Ao fazer da voz do patrão, um advogado, o narrador, Herman Melville – autor de Moby Dick, seu livro mais conhecido, e de tantos outros primores – dá campo e distância a um olhar original sobre a história de um funcionário excêntrico e de comportamento talvez depressivo, que aos poucos, progressivamente, se recusará a cumprir suas obrigações. A situação logo chega ao limite. Não há alternativa senão demiti-lo. Neste momento, o livro tem acentuadas suas cores fantásticas: porque, falhadas todas as tentativas de despedir Bartleby, o advogado então decide mudar-se e deixar o escritório e o escrivão para trás. É quando o tom fantasmagórico controla a trama: o homem aprofunda-se na inércia da negação e se recusa a abandonar a sala e o prédio em que trabalhara – até ser levado preso.

A narrativa de Melville – um dos precursores do absurdo na literatura – é tão curta quanto rica e múltipla; leitura para na qual se perder em interpretações. Não à toa, Jorge Luis Borges a definiu como “aplicação deliberada a um tema atroz que parece preconizar um Franz Kafka, o das fantasias do comportamento e sentimento ou, como agora lamentavelmente se diz, psicológicas”.

Nascido em 1819, em Nova York, Herman Melville desde jovem sonhou ardentemente em correr mundo. Obrigado a trabalhar por motivo do falecimento do pai, o futuro viajante exerceu vários empregos modestos, até fazer sua primeira viagem, à Inglaterra, quando tinha apenas 15 anos, e em 1841 já se dirigia aos Mares do Sul. Foi capturado pelos selvagens de uma das ilhas daquelas longínquas paragens, de onde conseguiu fugir para o Taiti. A fim de garantir seu sustento ao regressar aos Estados Unidos, aceitou um emprego na Alfândega de Nova York, lá trabalhando de 1866 a 1885. Morreu em 1891 na mesma cidade onde nascera. Virtualmente ignorado em seus próprios dias, Herman Melville teve o valor de sua obra literária reconhecido pelos críticos dos anos 1920, que o consideraram um dos maiores escritores do século XIX.

Herman Melville publicou Moby Dick no inverno de 1851. Foi o romance infinito que determinou sua glória. Página a página, o relato vai crescendo, até assumir as proporções do cosmo. A princípio, o leitor pode imaginar que o tema é a vida miserável dos pescadores de baleia; depois, que o tema é a loucura do capitão Ahab, ansioso em perseguir e destruir a Baleia Branca; depois, que a Baleia Branca e Ahab, na perseguição que se estende pelos oceanos do planeta, são símbolos e espelhos do universo.

Para insinuar que o livro é simbólico, Melville declara que não o é, expressamente: “Que ninguém considere Moby Dick como uma história monstruosa ou, o que seria pior, uma alegoria atroz e inadmissível.” (Moby Dick, XLV) A conotação habitual da palavra alegoria parece ter ofuscado os críticos; todos preferem limitar-se a uma interpretação moral da obra. Assim, E.M. Forster (Aspectos do romance, VII) escreveu: “Limitado e reduzido nas palavras, o tema espiritual de Moby Dick é mais ou menos o seguinte: uma batalha contra o Mal, prolongada excessivamente ou de um modo errôneo.” De acordo, só que o símbolo da Baleia Branca é menos propício a sugerir que o cosmo é mau do que a sugerir sua vastidão, sua inumanidade, sua estupidez irracional ou enigmática. Chesterton, em alguns de seus escritos, compara o universo dos ateus a um labirinto sem centro.Assim é o universo de Moby Dick: um cosmo (um caos) não apenas visivelmente maligno, como o que intuíram os gnósticos, mas também irracional, como o dos hexâmetros de Lucrécio.

Moby Dick está escrito num dialeto romântico do inglês, um dialeto veemente, que alterna ou conjuga processos de Shakespeare e Thomas de Quincey, de Browne e de Carlyle. Bartleby usa um idioma tranquilo e até jocoso, cuja aplicação deliberada a um tema atroz parece preconizar um Franz Kafka. Há uma afinidade secreta e central entre as duas ficções. Na primeira, a monomania de Ahab transtorna e finalmente aniquila todos os homens do navio; na segunda, o niilismo cândido de Bartleby contagia seus companheiros e também o homem estólido que relata sua história e que abona as suas tarefas imaginárias. É como se Melville houvesse escrito: “Basta que um único homem seja irracional para que os outros também o sejam, e o mesmo aconteça com o universo.” A história universal está repleta de confirmações desse teor. Bartleby pertence ao volume intitulado The Piazza Tales (1856). John Freeman comentou a respeito de outro conto desse livro que não pôde ser compreendido em toda a sua plenitude até que Joseph Conrad publicou

determinadas histórias análogas, quase meio século depois; eu diria que a obra de Kafka projeta sobre Bartleby uma curiosa luz posterior. Bartleby já define um gênero que Franz Kafka reinventaria e aprofundaria a partir de 1919: o das fantasias do comportamento e sentimento ou, como agora lamentavelmente se diz, psicológicas. Quanto ao resto, as páginas iniciais de Bartleby não prenunciam um Kafka, mas lembram ou repetem um Dickens… Em 1849, Melville havia publicado Mardi, um romance inextricável e ainda ilegível, mas cujo argumento essencial antecipa as obsessões e o mecanismo de O castelo, O processo e América: trata-se de uma perseguição infindável, por um mar infinito.

Referi-me às afinidades de Melville com outros escritores. Mas não o subordino a eles. Apenas recorro a uma das leis de toda e qualquer descrição ou definição: relacionar o desconhecido com o conhecido. A grandeza de Melville é substantiva, mas sua glória é recente. Melville morreu em 1891; vinte anos depois de sua morte, a 11ª edição da Encyclopaedia Britannica considerou-o um mero cronista da vida marítima; Lang e George Saintsbury, em 1912 e 1914, ignoraram-no totalmente em suas histórias da literatura inglesa. Mas, depois, ele foi reabilitado por Lawrence da Arábia e D.H. Lawrence, Waldo Frank e Lewis Mumford. Raymond Weaver, em 1921, publicou a primeira monografia americana: Herman Melville, Mariner and Mystic (Herman Melville, marinheiro e místico); John Freeman, em 1926, publicou a biografia crítica Herman Melville.

A vasta população, as cidades fervilhantes, a publicidade errônea e clamorosa, tudo tem conspirado para que o grande homem secreto seja uma das tradições da América. Edgar Allan Poe foi um deles; Melville foi outro.

Jorge Luis Borges

BARTLEBY, O ESCRIVÃO

Herman Melville

Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos

Páginas: 96

Preço: R$ 29,90

Editora: José Olympio

 

 

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