Santiago Santos: De Propósitos Virtualmente Revelados

 

Eu tinha uma vida de tobó antes de entrar pra Djorúbo. Sem ambição, sem adrenalina. Eu preenchia ela com horas e horas de Carnation, upando meus personagens, e com o pastel de queijo da esquina, o que explica o pânceps avantajado. A faculdade meia bomba era uma fachada bem arquitetada pra manter meus pais na paz de espírito necessária, evitando a seca do repasse mensal de Tóquio que paga minhas contas e deixa eles alegres com a perspectiva do filhinho querido se formar na terra natal, de onde vai sair pra conquistar o mundo. Eu não piso na facu desde o segundo semestre, mas é relativamente fácil hackear o servidor de lá pra me dar presença e notas acima de 8.

Foi o Beraldo quem me colocou na organização. Pelo Carnation. Até onde eu sabia, ele era uma mina de Singapura viciada em noodles de carne com quem eu falava no meu inglês porco durante as quests. Depois da gente se dar bem em várias delas e upar juntos nossos chars e virar algumas dungeons do avesso, ela disse que o melhor amigo dela era de Cuiabá também, um tal de Beraldo. Ela deu um jeito de marcar uma cerva entre a gente num boteco no Coophamil, e aí conheci o figura. Semanas mais tarde descobri que era ele quem tava jogando comigo. Mas eu já tava sussa. Já tinha conhecido a Djorúbo, já tinha me encantado com a perspectiva de fazer quests na vida real, já tava de cabeça no negócio. Acho que é o mesmo lance em qualquer organização ou fraternidade ou grupo: você se vê no meio de gente que partilha do mesmo objetivo e, dependendo da potência do ideal e da forma como você se encaixa na estrutura, acaba completamente absorvido.

Tudo bem, vá lá, você tem que ser meio esquerdoquista pra começo de conversa, pra se deixar levar pelo papo punk anarquista de lutar contra o sistema, de alterar o status quo. É isso que alimenta mesmo, achar que o que tamos fazendo vai fazer um putinho de diferença na conta final. Butau, o cara que criou a Djorúbo, é um dos últimos bororos tradicionalistas vivos. Do mato mesmo. De nascer na oca, de crescer na reserva até a névoa aparecer, até todo o sistema econômico mundial virar de ponta-cabeça e o Brasil se tornar o maior exportador de commodities do mundo. Pra isso acabou de vez com qualquer delimitação de território indígena, incorporando forçadamente na sociedade moderna os descendentes, passando o trator por cima de tudo. A Djorúbo é esse repositório: o refúgio de quem discorda, de quem não coloca fé cega nas corporações que ditam a política, de quem prega a volta aos valores massacrados pelo lucro acima de qualquer coisa.

Depois que você entra e se sente peça fundamental, você não sai mais. É cachaça. A maior parte das ações da Djorúbo até agora se deram no campo virtual e foram de pouco impacto no grande esquema das coisas. Ainda somos só pedrinha nos sapatos da moçambicana Rossal-Souza, da egípcia Maebar e da brasileira Belalto, a trindade corporativa que dá as cartas. É simples, na verdade: os ataques que fizemos aos servidores de distribuição e controle de estoque, as alterações de DNS que nos permitiram colocar a logo da Djorúbo nas homepages por inacreditáveis duas horas e quarenta sete minutos, as transmissões de propagandas fakeadas que inserimos no horário das novelas, as rádios piratas políticas que proliferam, as incursões à ferrovia na calada da noite pra provocar um descarrilhamento ou outro; tudo é ocultado, massacrado e diminuído à potência de um arroto de neném pelo lobby agressivo das corporações, que fornecem mais da metade da verba publicitária de qualquer veículo midiático e vetam as informações que querem, evitando que ganhem relevância. A mesma cartada que derrubou o Estado Islâmico décadas atrás: acabe com o destaque dos ataques terroristas, acabe com a pretensa glória que eles simbolizam.

Por isso, pra muita gente, a Djorúbo é um mito. Djorúbo e Butau-Curi-Répa, o último nativo bororo, comandando um império de hackers e malandros esfarrapados de sua oca em algum canto escondido de Cuiabá. Da oca eu não sei, mas a Djorúbo tá aí, respirando e planejando os próximos passos.

Meus conhecimentos de computação são bem limitados perto do que o exército que Butau recrutou nesses anos domina. Mas conheço Cuiabá até do avesso, cuiabano de tchapa e cruz. E sei me virar como ninguém pela selva desenfreada do Coophamil, com suas bibocas, prédios descascados, tendas multiformes e túneis que a polícia desconhece. Faço as correrias pra organização, homem de campo, homem de entrega, homem de peito aberto na guerrilha urbana. A facu tá pra acabar mas não tô preocupado, minha atuação na Djorúbo é garantida e remunerada. Não pretendo sair daqui. Os planos dos velhos de me mudar pra Tóquio e atuar como consultor na firma sanitária deles evaporou. Quero ver a trindade cair, quero ver o verde voltar a pintar a cidade, quero ser um dos construtores desse mundo novo que vem dobrando a esquina.

No tempo livre continuo jogando Carnation com o Beraldo. E comendo pastel de queijo. Ninguém é de ferro.

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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