Aline Bei: a visita

‘Duas garotas’ (1914), de Egon Schiele

 

– você já leu o caderno rosa de lori lambi? –  perguntei mostrando o livro que não era rosa,

ela olhou pra capa e

pensou um pouco

o tempo dela de abrir a boca e dizer algo numa conversa nunca se prendia a nenhuma ansiedade alheia.

– não – ela disse finalmente. – é bom?

– é brutal. um escritor me perguntou que livro eu gostaria de ter escrito. eu disse esse na Hora.

– você vai gostar de saber então.

– saber o que?

– li que tá pra sair uma antologia completa dos poemas da Hilda, um baita livro (ela fez assim com os dedos pra mostrar a grossura)

temos muita sorte de poder ler essa mulher em língua original.

eu estava um pouco atrás subindo as escadas e

concordei com o que ouvi balançando a cabeça até que

chegamos

no apartamento dela, um prédio antigo

sem elevador.

– eu não posso ficar em pé por muito tempo. – ela me disse

– claro. – respondi

oferecendo o meu

braço e fomos para o quarto

fazia menos de 1 semana que os médicos tinham

revirado a barriga dela,

eu não teria coragem

de revirar aquela pequena barriga

a débora parecia ser feita de

vidro mas eu sabia

que o material de que ela era feita tinha mais a ver com um rio que trás

pessoas do mundo inteiro para vê-lo passar.

como o Tejo, por exemplo, você se senta num degrau de lisboa

e o tejo é portugal inteiro.

na cama dela conversávamos quase deitadas na colcha azul. ela me confessou que gostava de beijar mais do que de sexo

e que passava horas beijando um cara

sem transar.

eu fiquei imaginando o saco do sujeito

ardendo como

o coração de alguém que acabou de morrer e vai doar

o órgão,

tá escrito no documento

esse aqui é doador.

– meu coração batendo no peito de outra pessoa torna essa pessoa um pouco eu? perguntei.

como sempre ela pensou antes de responder.

depois me disse que

Sim,

que em algum nível a pessoa viraria eu.

– o cara que recebe o órgão

deve dizer pra todo mundo que não sente diferença nenhuma do coração antigo pro novo, –  eu disse –  mas no quarto

sozinho em casa

o cara deve se sentir esquisito a beça.

– receber o órgão de alguém é mais íntimo do que transar. – ela disse.

ah sim. no sexo também se recebe o órgão de alguém, né? mas passa.

na sala da debóra

num canto perto da janela

tinha um varal

com panos de limpeza pendurados e algumas roupas, na última vez que eu a visitei

não tinha varal nenhum na sala.

ela me contou que a mãe dela

passou uns dias ali no apartamento ajudando no

pós operatório (um dia a débora me disse: se um pai está abandonado num asilo

pegunta pro pai o que ele fez pro filho. não é normal ser abandonado quando se dá amor)

aquele varal na sala

era a mãe dela que veio

e passou, já estava em casa

a quilômetros dali.

quando saímos do quarto

porque a débora queria tomar um café na padaria pra andar um pouco

o varal me confundiu,

por causa dele pensei que a sala começava por outro ângulo.

peguei a minha bolsa e o meu livro

a débora colocou seus óculos escuros no cabelo

como uma tiara.

quando chegamos na padaria

com o meu carro

(ficamos discutindo se íamos a pé ou de carro, decidimos de carro porque ela estava frágil)

eu não vi mais os óculos da débora

tampouco percebi quando ela os tirou,

os óculos sumiram, simplesmente,

como um pássaro que não está mais.

– seu carro é blindado? – ela me perguntou abrindo a porta tão pesada

aquela

era a pergunta que eu não queria,

aquela era a pergunta que

eu não sabia explicar.

– é.

por que? você é traficante ou algo assim?

– não, é que, como eu posso dizer?

bom,

a minha família pensa em segurança como uma porta trancada pro mundo,

a minha família não acredita no mundo

nem em caminhos tranquilos.

ela sorriu e

não me perguntou mais nada.

disse só que andava a pé no bairro

e que as coisas pareciam tranquilas enquanto ela andava por elas.

sentamos numa mesa na parte de fora da padaria.

se alguém nos desse um tiro

seria curioso quando descobrissem que o carro de uma das mortas era blindado.

– se ela não tivesse saído do carro ou se tivesse saído um pouco depois. – diriam lamentando,

eu mesma

ainda que morta lamentaria

felizmente não houve tiro nenhum. em paz tomamos nosso café com leite conversando sobre poesia

e poetas

que mastigam suas poesias

e que tem muitos leitores por isso, porque mastigam demais os assustos e

as pessoas só precisam engolir sem

pensar,

as pessoas estão cansadas.

então um senhor de boné com olhos alegres

se aproximou da nossa mesa.

disse que estava ouvindo Tudo o que conversávamos e

deu uma gargalhada.

– mas eu vou guardar segredo, – ele disse se afastando. – vou guardar direitinho o  segredo de vocês.

tinha álcool

na cara dele

era dali que vinha tanta alegria nos passos e vendo ele desaparecer pela descida da rua

fiquei me perguntando se o que conversávamos eu e a débora

era mesmo aquele papo de poesia mastigada

ou se eu tinha imaginado isso

e no fundo

estávamos falando sobre coisas muito mais

sérias (fiquei com medo de ter contado pra débora sobre eu e a minha prima fazendo carinho no bumbum

uma da outra e nunca mais termos conversado sobre isso, minha prima fingiu que esqueceu ao ponto de me fazer pensar que eu tinha sonhado com nós duas

naquela tarde

na casa vó com tantos terços e velas na sala)

eu ia perguntar

pra ela,

– débora, como você sabe que não estamos nos Inventando? como você pode ter certeza de que estamos falando do que estamos falando?

e se nós formos apenas fruto da imaginação de alguém? pensamos que isso é a vida

mas na verdade estamos presas na vida de outra pessoa,

talvez moramos dentro de um livro

ou de um texto, por exemplo, por que não?

mas a débora

ainda estava com a barriga se recuperando, não seria nada bom mexer também com a cabeça dela então eu

continuei

tomando o meu café

como se eu não tivesse dúvidas.

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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