Marcelo Flecha: Sede, ou não ter? Eis a questão

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Sábado retrasado, dia primeiro de abril, completamos quatro anos de sede própria – sim, esta era a postagem da semana passada que a preguiça não me deixou concluir. Exatamente nesse dia, em 2013, iniciávamos os ensaios do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, e fruíamos pela primeira vez de uma independência espacial almejada há anos.

Sempre suspeitamos que ter sede própria não garantiria uma fonte de renda direta, e sim, indireta. Desde muito antes de adquirirmos o casarão, entendíamos que pensar o teatro como espaço de locação – imaginando ser possível usufruir financeiramente dessa vantagem – era um dos graves equívocos que cometiam os grupos que almejavam ter um lugar seu, pois são raríssimos os exemplos em que espaços se auto sustentam ao ponto de superar as próprias despesas de manutenção.

O que sim entendíamos como uma grande fonte de renda indireta era a autonomia que o grupo ganharia ao dispor de um ambiente próprio para a experimentação artística, potencializando o nosso fazer, alargando a produção, e como isso, aumentando nossos ganhos indiretamente – partindo do princípio de que, quanto maior a qualidade artística desenvolvida, maior o número de convites e contratos firmando no decorrer do ano.

Quatro anos depois, todas essas suspeitas se confirmaram. A grande virtude de ter sede própria é, sem dúvida, a autonomia criativa, a independente espacialidade, a possibilidade de experimentação ilimitada, e a certeza de poder oferecer essa experimentação descolada da situação sócio-político-cultural da cidade que nos habita – como agora, quando iniciamos o processo de montagem do novo espetáculo e a grande maioria dos teatros de São Luís estão fechados. Nós não precisamos pensar na data de estreia, nem na extensão da temporada, nem no valor das pautas, nem na quantidade de ensaios gerais possíveis. Nós não dependemos de espaço para estabelecer um cronograma de ensaios. Nós não esperamos os ensaios prévios à estreia para as experimentações cenográficas ou de luz. Nada. A partir do momento que adquirimos a nossa casa, todos os entraves referentes ao condicionamento gerado pela locação do espaço para ensaio e apresentações foram eliminados. Esse é o grande ganho.

Também confirmamos o equívoco de imaginar o espaço como fonte de renda direta, não apenas a partir da nossa experiência, mas pela luta inglória de diversos grupos parceiros que enfrentam a barra de dividir o tempo entre a produção artística e a gestão do teatro, tendo que inventar um sem fim de atividades para garantir a sustentabilidade do lugar quando ele não é próprio e exige um faturamento mínimo para garantir o pagamento do aluguel.

Essa sempre foi a única certeza nossa: só valeria a pena ter uma sede se fosse própria. Nunca pensamos em alugar um espaço nem para depositar a tralha que já ocupava sala e corredor da antiga residência. Essa condição é fundamental para o conforto ao que me refiro nesta postagem. Se o grupo não depende do espaço para garantir o pagamento do aluguel do próprio espaço, a pressão  quanto à necessidade de locar, promover, movimentar, divulgar, otimizar, desaparece, e não se corre o risco de ter a sala ocupada no memento em que se precisa dela para as atividades artísticas, e nem há necessidade de forjar-se cozinheiro, garçom, promotor, bilheteiro – apesar de ser voto vencido, pois, a depender dos meus pares, já teriam me colocado na frete de um forno de pizza, pois há rumores de que sou melhor pizzaiolo que diretor.

Por mais criativo que tentemos ser na pluralização de atividades, temporadas, projetos, feijoadas, a conta não fecha. Mesmo a ideia de atividades formativas, em uma cidade onde a classe artística é pequena, o fôlego da oferta de oficinas pagas não excede o primeiro ano de ocupação – por mais inventivo que seja o grupo na arte de descobrir relevâncias significativas no seu fazer a ponto de serem democratizadas. E quanto do tempo necessário para a criação artística é demandado por essa busca constante da viabilidade econômica da casa? Quanto do artista deve ficar para depois pela necessidade de garantir o aluguel do mês?

Hoje, a locação da Pequena Companhia de Teatro se dá especificamente a partir da afinidade artística ou afetiva para com a proposta que busca se apresentar na nossa casa, pois sabemos que, mesmo que conseguíssemos locar a sede na sua capacidade máxima durante todo o ano, o valor arrecadado não chegaria a 10% do valor garantido com a nossa produção artística, conseguida a partir da disponibilidade do espaço para a criação dos nossos espetáculos, oficinas e afins.

Reitero: não imagine uma sede própria como fonte de renda direta. Se o projeto for ter uma sede, pense nela como o principal instrumento de transformação, evolução e alçamento da produção artística produzida, o que, consequentemente, trará o retorno financeiro compatível com o empenho – sempre e quando você seja melhor artista que bilheteiro.

Sei que a postagem de hoje serve de alerta para alguns, de confirmação para outros, de desilusão para muitos. A ideia era essa. Procurei ser o mais pragmático possível para não alimentar as diversas fantasias geradas por qualquer coletivo teatral que tenha como foco a conquista do espaço próprio. Também sei que falo de uma posição privilegiada, pois somos proprietários da nossa sede e independentes social e politicamente. Contudo, seria desonesto da minha parte não apresentar nossa experiência e deixar pairar a dúvida de que um artista pode, um dia, imaginar viver de renda – era só o que faltava.

Marcelo Flecha

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