Santiago Santos: Velhas Garotas Também Têm Que Dar Seus Pulos

 

Entra, ela diz, entra rápido.

Ele entra. Ela fecha a porta, tranca os cinco trincos. Vira, abre um sorriso e lhe dá um beijo no rosto. Sou a Rosângela, diz. Eu sou o, ela corta: por favor, não quero saber seu nome, é mais fácil assim. Caminham na direção da escadaria. Atraído pelo barulho da TV, ele para na abertura e olha a sala de estar, cheia de bebês em manjedouras de plástico e crianças nos sofás ou deitadas no carpete. Quem são esses? Do bairro, ela diz, aqui também é uma creche, cuido enquanto os pais trabalham. E não tem que ficar cuidando?, ele continua. Ela balança a cabeça. Não dão trabalho.

Rosângela pega a chupeta caída de um dos nenéns, os olhinhos vidrados na TV, e a enfia de volta na boca. Nossa, o homem diz, eles nem perceberam que estamos aqui. São viciados nesses desenhos, ela diz, e o puxa pra escadaria. No andar de cima o quarto, espelhos no teto e nas paredes. Ela começa a tirar a roupa.

Escuta, ele diz, e se alguma das crianças começar a chorar? Você vai ter que parar, certo? Acho que isso é bem corta tesão, na real. Acho bom avisar os clientes desse porém antes. Alguns nem topariam. Por isso eu não aviso, querido, diz Rosângela. As crianças não dão trabalho. E você perdeu o tesão, por acaso? Ela tira a calcinha.

Vale cade centavo, ele pensa, vendo o corpo tensionado sobre o seu de todos os ângulos. Ela segura seu braço a meio caminho dum tapa na bunda. Isso não, ela diz. Ele a vira de quatro e a pega pelo cabelo. Nota algo que passou batido antes, uma e outra mecha grisalha. Ela goza quatro vezes, ou finge, antes que ele termine. Ela o faz gozar na sua boca, vai pro banheiro e tranca a porta. Ele fica deitado, se observando no espelho do teto, recuperando o fôlego, o peito e os braços reluzindo. Ela demora pra voltar. Tudo bem por aí?, ele diz. Pega o dinheiro da carteira e coloca no travesseiro. Não se veste. Se ela topar repetir a dose, ainda tem dinheiro que chega.

Volta a deitar e vê no espelho que sua barba desapareceu. Toca o rosto. Não parece ele no reflexo. Aliás, parece, só que mais novo. Vê os pelos púbicos sumirem. Olha pra baixo. Realmente sumiram. Os do peito, dos sovacos. Quando volta a olhar o espelho, está menor. Pula da cama, começa a bater na porta do banheiro. Rosângela!, Rosângela!, e sente a voz afinando, as porradas cada vez mais baixas até que falta a força e o equilíbrio das pernas e o raciocínio.

Rosângela abre a porta, cabelos completamente brancos, o esperma cuspido dentro dum pote de palmito, acrescido de pequenas pedras e ramos e folhas. Ela apanha o neném chorando no chão e o deita na cama. Pega um macacãozinho azul do armário. Quando vai vestir o bebê, vê que ele cagou no lençol. Lava sua bunda na pia, coloca o macacão e se veste também. Desce a escadaria e o assenta numa manjedoura. Sua atenção é imediatamente capturada pelo desenho.

Rosângela faz um misto quente e sai pra comer na varanda. Cumprimenta os vizinhos que passam, embora não reconheçam a velha sentada ali.

Entra na casa, observa os 12 nenéns e crianças na sala. Desliga a TV. Quando se volta, vê apenas as manjedouras e o sofá. No espelho do corredor: viçosa, cabelos negros retintos. Abre a porta. A vizinhança tem árvores diferentes, residências menores, um som alto vindo de um rádio na esquina, onde jovens conversam sentados em cadeiras de praia, compartilhando uma cuia de chimarrão. Dois homens passam na frente da casa, incapazes de esconder a fascinação pela vizinha nova. Ela sorri.

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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